TRÊS MENINAS E UMA CIRANDA

 

Ruy Espinheira Filho

 

Para mim, que sou muito mais velho, são mesmo meninas. Três meninas envolvidas numa ciranda chamada poesia: Mônica Menezes, Ângela Vilma, Kátia Borges. Três poetas em três livros lançados este ano: de Mônica, Estranhamentos; de Ângela, Poemas para Antonio; de Kátia, Ticket zen. Os dois primeiros, pela P55 Edições, na coleção Cartas Bahianas; o terceiro, pela Escrituras.

            Ler poesia é uma das experiências mais maravilhosas da vida e também das piores. Porque, se nos eleva a alma quando de boa qualidade, quando ruim é uma abominação. E, infelizmente, o que mais encontramos é poesia ruim; porque, para não ser ruim, ela tem que ser boa, pois a que fica na faixa do mais-ou-menos, ou “razoável”, é também ruim.

            Por isso a gratificação que senti ao ler os livros aqui citados. Mônica Meneses é o lirismo quase em estado puro, do princípio ao fim. Vamos lendo, lendo, e nos comovendo. E, de repente, deparamos com uma obra-prima de simplicidade e vigor lírico: “Sandália de tiras”: “trançar as tiras/atar os laços/vestir o véu/guardar o sonho/suster o abraço/ganhar o céu/voar bem alto/erguer no espaço/um carrossel”.

            Achados admiráveis estão também, em vários momentos, na poesia de Ângela Vilma. Como no comovente “Meus sapatos brancos”, que se fecha com estes versos: “Tão sozinhos, após aquelas festas/Em que tu à minha espera serenava o mundo.//Agora que teu rosto desmente tudo/Só meus sapatos de menina ainda te buscam.” Ou como no fim de outro poema: ”Nada em mim rouba/A esperança dos sentidos/Que se resvalam de tua roupa/Para dentro de meus vestidos.”

Em Kátia Borges encontramos a afirmação de um forte caráter poético. Não há fraquezas, cansaços, jamais. Somos levados por ela a refletir sobre a condição humana, como quando lemos, por exemplo, “Lição”: “Contigo aprendi,/como no refrão de um bolero,/que todo amor é isso,/aquilo e aquilo outro/e, mais, as pérolas/que mastigam os porcos.”

            E assim nos falam as três meninas da ciranda de poesia. Que os homens que escrevem poemas na Bahia tratem logo de ir pondo suas barbas de molho...

 

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