
A SELVA - 80 ANOS DEPOIS (1930 - 2010)
80 anos depois de sua publicação, em
maio de 1930, editado no Porto, em
Portugal, A Selva, romance escrito por
Ferreira de Castro, entre 9 de abril e 29 de novembro de 1929, continua a ser
uma das mais conhecidas obras literárias do mundo, traduzida que foi para mais
de uma dezena de línguas estrangeiras.
Persiste, contudo, a dificuldade de
classificá-lo em qualquer categoria de obra de ficção. A incapacidade dos
esquemas até hoje construídos com tal finalidade, torna-se evidente, uma vez
mantido o desejo de colocar-se à disposição dos interessados, escaninhos
encabeçados por denominações definidas, nos quais possamos encaixar trabalhos
como este, pouco fáceis de receber tarjetas de identificação; situação
que parece demonstrar, para desgosto de
muitos, não haver necessidade de assim proceder-se, insistindo em agir como
estando a rotular
mercadorias oferecidas a consumidores
privilegiados – no caso, os leitores.
A
Selva é, sem dúvida, um romance atípico, escrito
por um autor singular, vivendo um tempo estranho, do qual participou somente por
estar vivo, em um certo lugar, numa
determinada
época, e desejar tornar-se escritor;
havendo-o redigido quinze anos depois do seu regresso a Portugal, onde chegou,
com apenas dezesseis anos, a 28 de outubro de 1914, de regresso do Brasil, vindo
do seringal Paraíso, situado às
margens do rio Madeira, no Amazonas, onde vivera cerca de quatro anos.
Não foi
A Selva, seu primeiro romance – outros menores em qualidade, foram
por ele publicados, entre 1921 e 1928, sendo este último ano, o da edição de
Emigrantes, obra
assinalada pela crítica literária, como o
do início definitivo de sua carreira de escritor, tendo sido, por sinal, logo a
seguir, em 1930, traduzido para o espanhol e publicado em Madrid.
Quanto a
A Selva, esforçam-se alguns historiadores da literatura portuguesa
para definir a categoria onde possa ele
ser incluído – romance
social (como se todos os romances não o fossem!); romance
neo-realista (o chamado
neo-realismo somente iria surgir em
Portugal, nos inícios da década dos anos 40); romance
documentário (estranha denominação, desde que ficção e realidade são
posições que se opõem, jamais podendo, a nosso ver, ser reunidas a fim de
caracterizar um trabalho literário).
Passou, no entanto,
A Selva, em tempos mais próximos, em
razão do surgimento de um mais apurado senso de análise e observação, a ser
considerado um exemplo de
romance de tensão crítica, categoria
criada por Alfredo Bosi, que o considerou possuidor
de uma essência distinta da dos
romances de tensão mínima, dos
romances de tensão interiorizada e dos
romances de tensão transfigurada, série
de termos categóricos criados por esse professor da Universidade de São Paulo,
com referência expressa a quem tomou por empréstimo, sua idealização, distintos,
vale frisar, dos criados por Lucien Goldman que propusera
a existência de três tipos de romance –
“o romance do idealismo abstrato,
caracterizado pela atividade do herói e por sua consciência demasiado estreita
em relação à complexidade do mundo”; “o romance psicológico, orientado para a
análise da vida interior, caracterizado pela passividade do herói e sua
consciência demasiado vasta para contentar-se com que o mundo da convenção lhe
pode propiciar”, e, finalmente,
“o romance
educativo, optando por uma
auto-limitação que, embora constitua
uma renúncia à pesquisa problemática, não é, entretanto, uma aceitação do mundo
convencional , nem um abandono da escala implícita
de valores” –
havendo os termos constantes
desse seu esquema sido criados, como
vimos, tomando
ele por base as categorias apresentadas
em
Pour une Sociologie du Roman, por Lucien
Goldman (Paris, Gallimard, 1964).1
Seriam
romances de tensão crítica, segundo Alfredo Bosi, aqueles nos quais
“o herói opõe-se e resiste agonicamente às pressões da natureza e do meio
social”, formulando ou não “seu mal-estar permanente”, baseando-se “em
ideologias explícitas”.
2
O
que pode parecer ter sido o caso de
Alberto, personagem principal de A Selva,
cujo “mal-estar”, como lhe foi atribuído
pelo autor, fora o resultado da imensa
pressão sobre ele exercida por uma floresta,
tão poderosa que se tornava capaz de
anular o homem e transformá-lo em algo parecido a um simples animal, com seus
atos comandados mais pelos instintos que pela razão.
E
se as palavras finais do romance, pronunciadas por Tiago, vale frisar,
o único personagem negro do romance, que
decidiu atear fogo ao barracão onde se encontrava o dono do seringal, Juca
Tristão, sem lhe haver deixado qualquer possibilidade de dali escapar, por lhe
haver trancado a porta por fora, revelam, sem dúvida, no contexto do romance, o
amor pela liberdade e a
repulsa à escravidão: – “Eu sei o que é
ser escravo. (...) Branco não sabe o que é liberdade, como negro velho. Eu é que
sei!” Acrescentando – “Já não há escravatura! Negro é livre! O homem é livre!” ‒
tais palavras não possuem, a nosso ver, vigor
suficiente para caracterizar uma ideologia;
e supomos terem sido colocadas no texto,
para dar
aos seus leitores, a impressão,
na idealização
do autor, de
un
grand
final para o seu romance –
a de um imenso
incêndio provocado por um
negro que se mantivera, contudo, até
aquele momento, praticamente ausente do desenvolvimento
da estória – visando
de obter, através
desses elementos
de construção, a própria absolvição por sua incômoda
condescendência para
com o erro e a injustiça cometidos pelos
brancos na Amazônia; desde que seria
impossível para os leitores, absolver
Alberto, seu principal personagem, dúbio
em suas idéias, praticamente perdido entre suas antigas
convicções monárquicas e as novas idéias
pregadas pelos republicanos portugueses; desses mostrando-se
descrente,
ao ponto de considerá-los como
“retóricos perniciosos” que
“ludibriavam” a população mais humilde, acenando-lhe com a promessa “duma
fraternidade e dum bem-estar que não lhes davam nem lhes podiam dar”;
havendo chegado a declarar, em certo
momento, desejar
perguntar-lhes ‒ “se era com aquela
humanidade primária que eles pretendiam
restaurar o mundo”; mostrando-se, desse modo, em
nossa opinião, protegido por “sua
epiderme de civilizado”, integrado,
plenamente, ao esquema
que permitia aos colonizadores,
ali manter
sua dominação sobre a terra e os homens
por eles conduzidos para os seringais, onde deveriam
permanecer praticamente
reduzidos à condição de escravos.3
Não pomos em dúvida, contudo, o fato
relevante de o exato conhecimento que tiveram os brasileiros do que se passara
na Amazônia, durante o ciclo da borracha, lhes haver sido revelado por Ferreira
de Castro, nesse seu romance, conforme afirmou Humberto de Campos, ao comentar
“A Selva”, no artigo intitulado “Um romance amazônico”; destacando a
circunstância, reconhecida por Ferreira de Castro,
de naquela floresta, não ser, em verdade,
o exotismo que deveria interessar à literatura, mas sim – ”o homem, e,
particularmente, o seringueiro e a sua tragédia”.
4
Este caráter de denúncia, fraca em sua
análise, forte, contudo, no realismo da sua narrativa,
teria sido, pois, o mérito maior de
A Selva: – a exposição ao público, com
todos os detalhes, do drama vivido pelos seringueiros chegados do Ceará e do
Maranhão, atraídos pela falsa esperança de poderem, na Amazônia, livrar-se da
pobreza, enriquecer e regressar, um dia, ostentando, quando do
seu retorno, essa riqueza, frente aos de
sua terra natal; vendo-se, no entanto, frustrados, ao se sentirem
forçados a conviver com o cruel desengano que a todos envolvia na
selva que
“dominava tudo”; à qual, “o homem, simples viandante no flanco do enigma,
entregava a sua vida. ”
5
Tornam-se, contudo,
valiosos, em termos literários, muitos
trechos do romance, entre eles, o da descrição feita da floresta, em cujo seio
mostrou-se Ferreira de Castro capaz de escutar, de modo estranho, paradoxal e
poético:
“um silêncio sinfônico, feito de milhões
de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio extremamente suave da
folhagem, tão suave que dir-se-ia estar a selva em êxtase”.6
Silêncio este,
singularmente rumoroso, sobre o qual
voltaria a falar, afirmando que iria
afinal tornar-se música, surgindo
mais audível – “agora mais latente, mais vivo e
alvoroçante”; enquanto na mata, somente a água, presa nos lagos ou
deslizando nos rios e igarapés, quebrava, ao lado das clareiras, o panorama
uniforme de uma paisagem caracterizada,
de modo enigmático e igualmente paradoxal, tanto por sua
uniformidade como por sua
variedade; posições opostas, que ali,
no entanto, se completavam, proporcionando à floresta, nessa
sua
uniformidade, uma soberba visão de “variedade assombrosa, que a si própria
impunha uma única expressão, atropelando-se, engalfinhando-se em raiva surda e
evidente”.6
E a descrição que fez, a seguir, dessa
mata, é, sem dúvida, uma das mais belas dentre as que, algum dia, foram
escritas, a personalizar a floresta e a dar-lhe uma vida mágica,
dela havendo
dito que
“... de bárbara grandiosidade, dava uma
só forte impressão de beleza: a inicial,
a que nunca mais se esquecia e nunca mais se voltava a sentir. Solo de
constantes parturejamentos, úmido, fantástico na teima de criar, a sua
cabeleira, contemplada por fora, sugeria vida liberta num mundo virgem, ainda
não tocado pelos conceitos humanos: mas vista por dentro, escravizava e fazia
anelar a morte. Só a luz obrigava o monstro a mudar de expressão, revelando as
suas pesadas atitudes”.7
Não se poderá, no entanto, esquecer que,
antes dele, alguém descreveu, com igual vigor e com o mesmo ar de insatisfação
declarada, as circunstâncias envolvendo a realidade trágica da vida dos
seringueiros na mata amazônica. Como
Ferreira de Castro, português de nascimento, esse
autor foi um estrangeiro em
relação ao Brasil – o colombiano José Eustacio Rivera, autor da novela
La Vorágine, publicada em 1924, cuja ação se desenvolve nas
florestas do seu país de origem.8;
havendo quem a considere a mais bela novela da literatura latino-americana; dela
não havendo, contudo, Ferreira de Castro, de modo provável, chegado a tomar
conhecimento.
Algo importante estabelece a diferença
entre La Vorágine e
A Selva. Em
A Selva, o seu autor viveu, realmente, as situações do seu principal
personagem, Alberto.. Ferreira de Castro foi, de fato, um seringueiro; enquanto
José Eustasio Rivera foi tão somente um viajante que colheu, tanto quanto lhe
foi possível, informações a respeito das penosas circunstâncias que envolviam a
vida dos seringueiros nas matas colombianas, quando as percorreu, na região de
Guaínia, província situada nas proximidades do alto curso do rio Negro, afluente
brasileiro do Amazonas, integrando a Comissão do Governo colombiano encarregada
dos trabalhos de demarcação das fronteiras entre a Colômbia e a Venezuela.
. Não chegaria
La Vorágine, contudo, a alcançar os mesmos índices de aprovação com
os quais os críticos literários da época, anos depois, iriam aceitar
A Selva, publicada em 1930. Podendo
isto ser comprovado pela pronta aparição, a partir da sua primeira edi9ção, das
sucessivas de A Selva,
em línguas estrangeiras, numa seqüência
que se iniciou com a da sua tradução para o alemão, em 1933, para o inglês, com
edições nos Estados Unidos, no Canadá
e na Inglaterra, e para o
italiano, em 1934; e para o francês, em
1938; a essas edições havendo se
seguido outras,
em espanhol, romeno, checo, croata,
holandês, sueco, norueguês, búlgaro
e eslovaco, tornando-se o romance
de Ferreira de Castro uma das obras mais traduzidas
em todo o mundo.9
Voltemos,
contudo, a falar de La Vorágine, tanto
como a respeito do seu autor, que somente viveu 40 anos, nascido que foi em
1888, em San Marco (hoje denominada Rivera,
em sua homenagem), havendo falecido em New York, em 1928, para tentar
estabelecer laços que aproximem essas duas obras pioneiras no trato de temas
relacionados com a árdua e ingrata tarefa de extração da borracha nas matas
tropicais do Brasil e da Colômbia, em princípios do século passado.
La Vorágine
foi editada cinco vezes, entre 1924 e 1928 – a primeira vez,
em novembro de 1924, na Colômbia, pela
Editorial Cromos, a segunda e a terceira, em 1925 e 1926, ainda na Colômbia,
pela Editorial Minerva; havendo a sua
quarta edição sido, em verdade, uma reimpressão da terceira, desde que em pouco
dela difere.
Havendo, a seguir, surgido, em 1928 as
edições de New York, pucblicadas pela
Editorial Andes, identificadas como sendo a quinta e a sexta, e, a seguir, a
sétima, a oitava e a nona, em 1929; todas elas, contudo, a partir da sexta,
devendo ser consideradas reimpressões da
quinta, a que foi revista e corrigida pelo próprio autor.
10
La
Vorágine continuou, no entanto, a ser
traduzida, após a morte de José Eustasio Rivera, em 1928, em vários países
do mundo, alcançando o número de suas edições em países estrangeiros, quase o
mesmo número das de A Selva, havendo
surgido em alemão e francês, em 1934; em inglês
e russo, em 1935;
e, nas décadas dos anos 40 e 50, em
búlgaro, checo, esloveno, holandês,
romeno, italiano e chinês; e, finalmente, em
português, no Brasil, em 1982.
11
Da edição de que nos valemos para a
releitura do romance, publicada em 2006, sendo esta, provavelmente, a mais
recente, consta, organizada por Montserrat Ordoñez, uma coletânea de textos
expondo um considerável acervo de informações, tanto sobre José Eustasio Rivera
como acerca do seu romance; da qual destacamos a secção apresentada sob o título
Historia de la
crítica de ´La Vorágine`“, cuja leitura se torna extremamente útil
para conduzir-nos à compreensão da novela.
Nele,
a conclusão dos seus autores indica que
“como
pocas obras, La vorágine se presta a
estudios interdisciplinares, a
reflexiones sobre
cultura e história, a estudios sobre
la fragmentación, la incoherencia, el
engaño y el sujeto descentrado, a las nuevas lecturas de contradicciones,
anmbivalencias y ambiguedades, dentro de una perspectiva de valoración de la
historia y de los relatos envolventes, y dentro de una persspectiva de la
lectura como proceso de construcción de la obra.”
12
E convém
registrar que ao redigir o texto “Ciclo nortista”, secção constante
do capítulo “O regionalismo na ficção” em
A Literatura no Brasil, obra
monumental publicada sob a direção de Afrânio Coutinho, no Rio de Janeiro, pela
José Olympio Editora/ e pela Universidade Federal Fluminense, em 1986, Peregrino
Junior, autor, por sinal, de Pussanga,
um dos mais belos livros de contos já escritos sobre
a Amazônia, afirmou que José Eustasio
Rivera, em La vorágine,
“traz-nos da paisagem e da vida
amazônica um quadro belo e poderoso: aquela floresta agressiva, áspera,
esmagadora: aquelas águas, numerosas e traiçoeiras; aqueles homens bárbaros e
tristes, perdidos na selva sádica y virgen...
Ele também denuncia, como Ferreira de
Castro, as torpezas e os crimes que a floresta esconde. O seu livro é um libelo,
é protesto, é denúncia e grito de revolta contra o abandono do homem – aquele
pária jogado à mercê dos aventureiros, exploradores e frios tiranos sem
entranhas, criminosos e rapaces, que exploram os seringais da Amazônia.“
13
Diferem, porém, de modo sensível, os
dois romances, quanto ao modo como são considerados pelos seus autores, os
indígenas habitantes da floresta; e se tanto em um como no outro, os índios
aparecem como seres inferiores, quando são colocados em confronto com os
civilizadores, em
La Vorágine, José Eustasio Rivera ergue a sua voz para defendê-los;
o que não acontece em A Selva, onde os
parintintins – a única tribo
mencionada em seu romance, por Ferreira
de Castro, nos são mostrados como sendo o
terror dos seringueiros, apontados como possuidores de uma enorme crueldade,
capazes de realizar festas macabras, durante as quais dançam em torno de varas,
no topo das quais se acham espetadas as
cabeças decapitadas de seringueiros por eles atacados, tidos, portanto, pelo
autor, como uma ameaça constante
para esses seringueiros, que
se mostram com a disposição de
exterminá-los
à bala.
Torna-se, então, evidente, não haver,
por parte de Ferreira de Castro, qualquer tipo de preocupação com os povos
indígenas habitantes da floresta ou de reflexão
sobre eles. Eles, simplesmente,
dificultam o trabalho dos colonizadores;
e Alberto, o personagem, sente dificuldade de
aceitar a idéia de terem sido eles, antes
da chegada dos brancos, os donos das
terras da Amazônia; isso, apesar de Firmino, o seringueiro veterano que o
acompanhou durante a sua descoberta da
floresta, lhe haver dito que “os homens
civilizados tomaram conta da terra deles” e que, por isso, em ato de vingança,
eles os atacavam ‒ “deitam fogo à barraca e arrasam a mandioca e o canavial”.
Havendo também lhe dito que, por causa deles, os seringueiros tinham de “andar
sempre com um olho à frente e outro atrás “
14
.Não parecendo, pois, haver Ferreira de
Castro tido conhecimento do que, antes de sua chegada ao Brasil, se passara no
vale do Putumayo, ao tempo do domínio daquelas terras pela
Peruvian Rubber Company de propriedade
do peruano Julio Araña, nem das denúncias feitas, com o relato das torturas
aplicadas aos índios huitoto, antigos
habitantes das matas ali existentes, que foram por ele escravizados, pelo juiz
peruano Carlos A. Valcácer, pelo cônsul da Inglaterra, Sir Roger Casement, e
pelo norte-americano Walter Ernest Hardenburgh, este em seu livro
The Putumayo –
The Devil´s Paradise (1913); sendo tal assunto, convém frisar, do
conhecimento de José Eustasio Rivera, que, a certa altura do seu romance, se
referiu ao
fato de haver chegado ao seringal
onde se encontrava, sem que se pudesse
explicar como, uma página
do periódico La Felpa, que circulava em Iquitos, editado pelo jornalista Saldaña
Roca, do qual constava.a descrição desses maus-tratos; havendo constado do
texto do seu romance, a informação de encontrar-se essa página de jornal
em péssimo estado de conservação, tantas
vezes já fora ela lida, circunstância que
teria forçado os seringueiros, para que continuasse
a circular pelos seringais, a remendá-la com a seiva
úmida do caucho, e ocultá-la, a seguir,
a fim de que não viesse a ser descoberta
pelos donos dos seringais, no oco de um
bambu que poderia vir a ser confundido
com o
cabo da machadinha usada para golpear os troncos das seringueiras.15
La
Vorágine supera, a nosso ver,
A Selva, como obra literária. O romance de Ferreira de Castro é, contudo,
brasileiro, em seu cenário, apesar de
haver sido escrito por um português; pelo que, dentro dos quadros que limitam a
nossa literatura, cabe evidenciar-lhe os méritos
e reconhecer-lhe a importância; e
somente referir-nos ao romance de José Eustasio Rivera, como complementação, ou
contraponto, no conjunto composto pelas
obras que vieram a formar o que se
convencionou denominar “romances amazônicos” ou “romances da borracha”.
Voltemos, então, a comentar
A Selva, realçando, mais que tudo, o
seu caráter de documentário; em seu texto havendo sido descrito, com enorme
precisão de detalhes, o cotidiano do seringueiro abandonado às garras famintas
da selva que irá devorá-lo. É inegável
essa sua feição; podendo o romance bem servir de base para a reconstituição da
vida na floresta dos que ali chegaram como “brabos”, vindos, principalmente, do
Ceará, em vã tentativa de construir um futuro melhor para eles próprios.
Vejamos,
então, em primeiro lugar, destacando o cuidado tido pelo autor, ao dar a sua
informação, a discriminação, por ele
feita, do material constante da “lista do aviamento” – ou seja, a relação do
equipamento que cada seringueiro recebia à sua chegada, devendo,
peça por peça, ser paga, com o resultado
do seu trabalho, ao dono do seringal – “o boião para defumar, a bacia para o
latex,
o galão, o machadinho, as tigelinhas de folha, todos os utensílios que a
extração da borracha exigia” – e
mais, “um quilo de pirarucu e uns litros de farinha, pois nos primeiros dias
nunca um ´brabo` sabe como se caça a paca e a cotia ou se pesca o tambaqui.” . E
Ferreira de Castro informa, então,
ser aquele “o talão grande”,
o que, depois de
“somado às despesas da viagem e mais
empréstimos, prendia por muitos anos ao
seringal, em trabalho de pagamento, o sertanejo ingênuo.”
16
E,
a seguir, a descrição do modo como deviam agir os seringueiros para a extração
do látex, figurando no texto como
parte das instruções que foram dadas por
Firmino, o primeiro companheiro na floresta, de Alberto:
“– Olha você. Pega-se no machadinho e se
corta assim... Está vendo? Assim, que é para não arrancar a casca e não fazer
mal ao pau. Quando se arranca a casca, os empregados vão fazer queixa de nós a
seu Juca.
Levou o braço a um arbusto seco, em cuja
extremidade, cortada para o efeito, se emborcavam, enfiados uns nos outros,
cinco receptáculos de folha, que tinham base redonda e iam se alargando até a
boca, onde não caberia uma mão fechada.
– Isto são as tigelinhas.
Se espeta a elas na seringa, pelas
bordas. Assim... é preciso ter cuidado
para que a folha fique segura, senão a tigelinha cai e o leite escorre todo para
fora . Está compreendendo? “
A seguir, Firmino golpeou a árvore, em
cinco pontos diferentes, todos à mesma altura, em volta do tronco;.e
continuou explicando: .
“– Cada seringueira leva tantas
tigelinhas conforme for a grossura dela. Uma valente, como aquele piquiá, que
você está vendo, pode levar sete. Uma assim como esta, leva cinco ou quatro, se
estiver fraca. Veja: corta-se de cima para baixo, e quando se chega abaixo, o
machadinho volta acima, porque a madeira já descansou.”
17
Finalmente, o trecho onde aparece a
descrição do acerto de contas, efetuado
ao fim de cada semana.
entre os seringueiros e o dono do
seringal, elaborada com traços reveladores de uma crueldade extrema, no momento
em que os seringueiros vão receber, do
patrão, no caso, Juca Tristão, o que lhes
será necessário para continuar vivendo sua
penosa existência:
”Quando o seringueiro tinha
saldo, vendia-lhe tudo quanto ele
desejasse; fosse loucura rematada ou objeto inútil, tudo dava mais lucro do que
passar-lhe, no futuro, um saque para ser trocado por bom dinheiro na
casa aviadora em Manaus. Mas se o
trabalhador, por curta estadia ali, por doença ou preguiça não conseguira solver
a dívida inicial, que rebentasse de fome, pescasse ou caçasse, pois não lhe
forneceria nada que fosse além do valor da produção”
E do mesmo modo, aqui reproduziremos o
diálogo que, pouco antes,
se dera entre eles, trágico em seu
desenvolvimento:
“– Um paneiro de farinha? Não pode ser!
Levas só dois litros.
–
Mas que eu vou comer, seu Juca, na semana?
–
Não sei. Deves mais de seiscentos mil réis. Trabalha!
–
Trabalhar mais, eu? A mim nunca seu Alípio ou seu Caetano apanharam na rede. Bem
puxo pela estrada, mas ela é que não dá!”
18
Ao final do romance, contudo, quando já
se preparava para voltar para Portugal, depois de haver sido transferido do
trabalho de extração da borracha para o de escriturário no barracão de Juca
Tristão, revela-se, de modo pleno, quem era Alberto, em verdade:
A idéia da próxima redenção, a esperança
de que se lhe abrisse, em breve, o caminho do regresso à vida, à sua vida,
dominava-lhe os mais poderosos instintos. Ia-se integrando em si próprio e já
tudo ali possuía, para ele, somente uma expressão efêmera. E refletindo sobre
tudo que havia lhe acontecido, ao lembrar-se de tantos outros que, ao contrário
dele, não haviam conseguido libertar-se
da selva (nem conseguiriam
jamais ter
a possibilidade de fazê-lo),
justificou-se, perante si próprio, quando
reconheceu que “os homens são bons ou
maus conforme e a posição em que se encontram perante nós e em que nós nos
encontramos perante eles”.
19
O que deixa perceber
ter ele passado a acreditar que tudo se
torna, na hora da definição, somente um jogo de circunstâncias – o que
acontecera com ele... tanto
quanto o que
não aconteceria
com outros...
sem que
se mostrasse capaz, na hora próxima de
sua libertação, de dar a essas coisas, maior importância, ou encontrar uma razão
para terem elas acontecido. Tanto que,
naquele instante, declarou Alberto ao despedir-se de
Juca Tristão, somente estar a levar da
sua vida cheia de agruras e desventuras na Amazônia, um desejo vago e mal
definido de “justiça universal”, que acreditava dever vir, um dia, a
realizar-se, desde que nos dispuséssemos a “marchar à frente”; sem que houvesse,
contudo, apontado culpados pelo que ali acontecera
e continuaria a acontecer; nem declarado
qual o rumo
que deveria ter
essa
marcha para diante por ele então sugerida.. E, concordamos, afinal, com o
que disse sobre
A Selva, Humberto de Campos, o primeiro a comentar o romance no
Brasil, fazendo-lhe algumas objeções, mas deixando claro que elas
não impediam que
“...
A Selva, com os sentimentos de alta
humanidade que moveram a pena ao seu autor, e com alguns dos seus quadros
magistrais, como a pesca no igapó e a tempestade na floresta, fique constituindo
um dos subsídios mais preciosos e autênticos para a compreensão da vida
amazônica em determinada hora de nossa evolução tumultuária”.20
Ai de alguém, contudo, que procure
encontrar em A Selva, um tipo definido
de ideologia!.... De quem pretenda caracterizar esse romance como
uma obra engajada.
Perderá seu tempo!...
Debalde será o seu esforço!... Apesar de haver Ferreira de Castro
afirmado, no “Pórtico” de A Selva, dever o seu livro ‒ “aos anônimos desbravadores, gente
humilde que me antecedeu ou acompanhou na brenha, gente sem crônica definitiva,
que à extração da borracha entrega a sua fome, a sua liberdade e a sua
existência”; e mais, que a razão de escrevê-lo fora a de “registrar o sofrimento
dos humildes através dos séculos, em busca de pão e de justiça”.
E, mais, que
“a luta de cearenses e maranhenses na
floresta amazônica é uma epopéia assombrosa de que não ajuíza quem, no resto do
Mundo, se deixa conduzir, veloz e comodamente, num automóvel com rodas de
borracha – da borracha que esses homens tiram à selva misteriosa e
implacável...”
21
E mesmo reconhecendo não existir no
romance, firmeza de posições no campo das idéias, continuamos a afirmar que
A Selva, considerado o seu vigor
descritivo, por sua imensa riqueza de detalhes e sua envolvente poesia, mesmo
nele soando fraco um ar de denúncia e, mais que tudo, o de condenação a algum
sistema, caracteriza-se, sem dúvida, como uma das maiores obras da literatura
portuguesa, não indo, contudo, em seu caráter, além de sua estrita condição de
uma estória bem contada, sobre um mundo injusto e perverso, que não chegou a ser
devidamente analisado e condenado.
Finalmente, no que se refere à preocupação demonstrada por alguns, de encontrar, em seu contexto, vencedores e vencidos, realcemos o fato de, no curso de sua narrativa, somente poder constatar-se haver existido um vencedor: – a mata, sádica, tirana, praticamente invencível!... E desejamos, sinceramente, que ela continue a ser assim!....
1
GOLDMANN, Lucien. Sociologia do
romance. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976, p. 10.
2
BOSI, Alfredo.História Concisa da
Literatura Brasileira. 36ª edição. São Paulo: Cultrix, 1994, p. 392.
3
CASTRO, Ferreira de. A Selva. 18ª edição. Lisboa: Guimarães & Cia, 1957, pp.43/44.
4 CAMPOS, Humberto de. ”Um romance
amazônico” in CAMPOS, Humberto.
Crítica: Segunda série. São Paulo: W
M. Jackson Inc.
editores, 1947, p. 429.
5
CASTRO, Ferreira de. Opus cit., p. 113.
6
Idem, p. 101
7
Idem, p. 113
8
Cf. RIVERA, José Eustasio. La
vorágine. Edición de Montserrat Ordóñez. Cátedra: Letras Hispânicas,
Fernández Ciudad, S.L. España.
2006. Edição brasileira, sob o título
A voragem. Tradução de
Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1982.
9
Cr. “Traducciones de ´La Vorágine`” in RIVERA, José Eustasio.
Opus cit., pp
67/68. Consta desse texto referência a uma tradução brasileira,
que teria sido feita por José César Borba, no Rio de Janeiro, em 1945,
que não conseguimos localizar.
10 Cf. “Historia editorial de La Vorágine” in RIVERA, José Eustasio. Opus cit, ´pp. 14/16.
11
Cf. “Historia de la critica de ´La Vorágine`” in RIVERA. José Eustasio
Opus cit., pp.
12 CASTRO, Ferreira de . Opus cit;, pp.7/9.
13
Peregrino Junior. “Ciclo nortista” in “O regionalismo na ficção”. In
COUTINHO, Afrânio (Diretor) A
Literatura no Brasil.. Era realista. Era de transição. Vol 4. Rio de
Janeiro: José Olympio Editora/Universidade Federal Fluminense.
UFF-EDUFF, 1986, p. 246. E quanto à expressão
sádica y virgen, por ele
referida, ela aparece no texto La vorágine, na edição por nós utilizada, à página 297, no parágrafo
que se inicia desse modo – Esta
selva sádica y virgen
procura al ánimo la alucinacón del peligro
14
CASTRO, Ferreira de. Opus
cit., pp.114/115, 117/119, 101.
Quanto a John
Hemming, referiu-se
aos parintintins, dizendo que “essa tribo belicosa de fala tupi (...)
lutou com sucesso contra a fronteira da borracha”; e que esses índios
“despertaram o medo e a fúria dos seringueiros”. Cf. HEMMING,
John. Fronteira Amazônica: A
derrota dos índios brasileiros. São Paulo: Editora da Universidade
de São Paulo, 2009, pp. 372/373.
15 RIVERA, José
Eustasio. Opus cit.,
p.368.
16
CASTRO, Ferreira de. Opus
cit., p. 97.
17
Idem, p. 116.
18
Idem, p. 96.
19
Idem, pp. 288-289.
20.
CAMPOS, Humberto de. Opus cit.,
p. 466. .
21
CASTRO, Ferreira de. Opus cit.,
pp. 18/19.
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