
ESPERANDO O BONDE
Morávamos na Barra Avenida e poucas famílias tinham carro, na época. A maioria
dos seus moradores era de classe média, mas havia também alguns ricos e muitos
modestos, que viviam em uma das muitas “avenidas” da cidade. Nós, estudantes,
nos encontrávamos no ponto do bonde e entabulávamos conversas que eram
interrompidas abruptamente com a chegada do “elétrico”, com a famosa frase de
Imbrain Sued: depois eu conto...
Éramos todos moleques, independente da origem, no bom sentido da palavra, que
pongávamos e nos divertíamos no bonde. Havia filhos de comerciantes prósperos,
funcionários públicos, mecânicos, operários e até de um banqueiro. Não chegava a
ser uma democracia sócio-racial, mas sem duvida o bonde socializava.
Os abrigos da Sé e do Campo Grande, que
reuniam uma multidão de estudantes da rede pública e privada, respectivamente,
era uma festa ao meio dia e no final da tarde, com muita conversa,
flerts e namoricos.
No
começo dos anos 60 os bondes foram abolidos a pretexto de atrapalhar o trânsito,
para dar passagem aos milhares de carros produzidos no país. A popularização do
carro privado deveria resolver tudo. Desde então deixamos de ter políticas de
transporte público. Foi preciso a FIFA dizer que sem transporte de massa não
haveria Copa para que nossas autoridades despertassem.
Surge assim o projeto Rede Integrada de Transporte - RIT, gentilmente
presenteado à Prefeitura pelo Sindicato das Empresas de Transporte de
Passageiros de Salvador - SETPS, que na primeira etapa deve ligar o Aeroporto ao
Shopping Iguatemi, correndo pelo canteiro central da Av. Paralela. As etapas
seguintes, bem mais complicadas, não têm prazo, nem orçamento. As construtoras e
os donos de ônibus têm pressa de cobrar a fatura de R$ 570 milhões prometidos
pelo BNDES.
Criou-se, porém, uma polêmica sobre a motorização do sistema. A SETPS defende um
sistema conhecido pelo nome cifrado de BRT – Bus Rapid Transit. Por outro lado,
o Governo do Estado, que tem a chave do cofre federal, advoga a adoção do VLT –
Veiculo Leve Sobre Trilhos. A decisão, que deveria ser técnica, está dependendo
da sucessão senatorial.
O
BRT, como o nome indica, é um sistema de “buzus” moderninhos trafegando em via
segregada, como em Curitiba. O VLT é um bonde articulado, muito comum na Europa,
trafegando no meio das ruas, nos trilhos dos antigos bondes, que nunca
desapareceram completamente. Este tem a vantagem de não poluir e ter uma
manutenção baixa. Mas o adjetivo “leve” expressa bem que não é um transporte de
massa. É o bonde moderno. Ambos podem servir como redes alimentadoras,
transversais, do sistema de metrô, como nas cidades do México, Londres e Nova
York.
O
vetor de expansão mais forte de Salvador é o norte. Salvador já transbordou para
Lauro de Freitas e esta chegando a Abrantes, em Camaçari. Nem BRT nem VLT darão
conta da demanda de deslocamentos humanos na Região Metropolitana de Salvador
nos próximos dez anos, quando a região terá seis milhões de habitantes. A RMS
tem duplicado de população a cada vinte anos e terá doze milhões em 2040. As
duas alternativas são uma rima, não uma solução, como diria Drummond.
Por que não se faz logo um metrô estruturante dessa expansão na Paralela,
prevendo sua extensão até Camaçari ? Um metrô de superfície, sem desapropriações
nem galerias subterrâneas, como o da Paralela, não custaria muito mais que um
VLT ou BRT. Os vagões estão ai, parados, enferrujando e pagando pedágio. O
metrô-tobogã da Bonocô até chegar a Cajazeiras, para que seja viável, demorará
mais dez anos.
Com essa solução dispensaríamos a abertura da Via Atlântica e Linha Viva, que
provocarão grandes impactos sociais e ambientais e um montão de desapropriações.
E o pior, não resolverá nada, pois só induzem a população a comprar mais carros.
Temos que deixar de pensar pequeno.
Lembro-me, ágora, das propagandas rimadas nos bondes, como a do Rum Creosotado,
do Elixir de Nogueira e uma que dizia: “neste mundo todos são passageiros, só
não o cobrador e o motorneiro”. Desconfio que nossos Motorneiros e Cobradores
são também passageiros do bonde da história. A conversa está muito boa, mas Vs.
me dêem licença, porque não sei se um bonde ou um ônibus está
chegando....atrasado. Depois eu conto...
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