
Em
tempos virtuais, qual o futuro das “ultrapassadas” bibliotecas, suas estantes,
seus acervos e seus frequentadores?
Em uma
sociedade que caminha, cada dia mais, para a utilização massiva dos meios
virtuais, em todas as áreas e com ênfase na educação, que papel é reservado, no
futuro, para as bibliotecas? Refiro-me à concepção usual do termo biblioteca,
que, aliás, parece ter evoluído bastante em relação ao sentido original,
etimológico, da palavra grega bibliotheke — lugar onde se depositam livros.
A imagem
de um depósito de livros traz, de imediato, uma idéia de imobilidade que soa
incompatível com o conceito atual de biblioteca, como espaço dinâmico de
consulta, pesquisa e estudo. Mas, devemos lembrar que é esta também uma das
funções primordiais da biblioteca: a de armazenar títulos de forma que se possa
reuni-los dentro de uma determinada ordem classificatória. Armazenar, diz o
filósofo Jacques Derrida, é também acolher, recolher, juntar, consignar,
coligir, colecionar, totalizar, eleger e ler reunindo.
Armazenar seria, portanto, o primeiro estágio de uma complexa estrutura que
inclui desde a escolha do acervo e sua constante renovação até a disposição do
objeto livro e dos periódicos num determinado espaço físico. E é neste conjunto
que se deve pensar o papel de todos os atores (instituições, bibliotecários,
atendentes, professores, alunos, leitores) envolvidos na questão apresentada no
início deste artigo.
Em vez
de nos lançarmos à tarefa inútil de prever a sobrevivência ou o desaparecimento
do livro e das bibliotecas tradicionais, não virtuais, devemos pensar no perfil
do leitor, neste início do século 21, num país periférico, com um pé no mundo
globalizado e outro (em sua maior parte, diga-se de passagem) num
subdesenvolvimento atroz do qual passam longe os benefícios da sociedade
tecnológica informatizada. O leitor é, talvez, o elemento-chave dessa reflexão,
mesmo porque é para ele que existem, em última instância, os livros e as
bibliotecas.
Visita
importante
Leitor
é, entretanto, um termo vago e impreciso — um conceito que tem sofrido
transformações radicais ao longo dos últimos quatro séculos. Para se ter uma
idéia mais clara, recomenda-se a leitura do ensaio O leitor incomum, do crítico
literário francês George Steiner, erudito professor nas universidades de
Cambridge e Genebra, autor de livros como Linguagem e silêncio, No castelo de
Barba Azul e Nenhuma paixão desperdiçada, coletânea de ensaios publicada pela
Record, em 2001, e da qual o referido ensaio faz parte.
Nele,
Steiner relaciona algumas características do leitor do século 18, conforme o
pintor francês Chardin o retrata no quadro Le philosophe lisant, completado no
dia 4 de dezembro de 1734. Trata-se de um tema comum na época: o de um homem ou
uma mulher lendo um livro aberto sobre uma mesa. “Entretanto”, diz Steiner, “se
o analisarmos com relação à nossa época e nossos códigos afetivos, a maneira
como o pintor se expressou revela, em todos os pormenores e na sua concepção
mesma, uma revolução de valores”.
Que
valores são esses, presentes no leitor incomum de Chardin e que são tão diversos
dos que estão presentes no ato de ler em nossa sociedade tão mais “desenvolvida”
e “avançada”? Ei-los, segundo Steiner, mas de forma resumida:
1. Em
primeiro lugar, os trajes do leitor: formais, cerimoniosos, até. “O que
realmente importa é a elegância enfática, a determinação de estar vestido assim
naquele momento. O leitor não vai ao encontro do livro em trajes informais ou em
desalinho”. Ele vai ao encontro do livro levando a cortesia em seu coração, como
quem recebe uma visita importante.
2. A
presença, no quadro, de uma ampulheta traz para o ato da leitura a noção do
tempo. Lembra a condição passageira do leitor (e do homem) em contraste com a
longa sobrevivência dos (grandes) livros. “O tempo passa, mas o livro permanece.
A vida do leitor mede-se em horas; a do livro, em milênios”, diz Steiner. Tal
consciência da efemeridade do ser e da permanência das palavras, nas obras
definitivas, aumenta, no leitor, o fascínio e a angústia diante da infinita
quantidade de livros que jamais serão lidos por ele. “A areia que cai através do
vidro fala-nos igualmente da natureza desafiadora do tempo, que é da palavra
escrita, como também da brevidade do tempo disponível para lê-la”.
3. A
presença de três discos de metal em frente ao livro, por sua vez, enfatiza
também a brevidade do mundo material quando comparado com a longevidade das
palavras.
4. Em
seguida, destaca a pena que o leitor usa para escrever e que é emblemática da
obrigação de resposta inerente ao ato da leitura. Leitura esta que, longe da
concepção atual de entretenimento, configura-se como uma interação em níveis
profundos da compreensão envolvida no ato de ler. “A boa leitura pressupõe
resposta ao texto, implica a disposição de reagir a ele, atitude essa que contém
dois elementos cruciais: a reação em si e a responsabilidade que isso
representa”. Ler bem é, portanto, “estabelecer uma relação de reciprocidade com
o livro que está sendo lido; é embarcar em uma troca total”.
5. E,
por último, algo que envolve todos esses elementos presentes no quadro — o
fólio, a ampulheta, os medalhões e a pena: o silêncio. Um silêncio que, na
pintura, “se manifesta inequivocamente pela qualidade da luz, pela textura da
composição”. A leitura é, para o leitor do século 18 representado na obra, um
ato silencioso e solitário. “Trata-se de um silêncio vibrante de emoção e de uma
solidão abarrotada de vida.”
Acesso fácil
O
contraste deste leitor com o de hoje em dia reflete bem a noção benjaminiana de
“perda da aura” da obra de arte — noção esta que se aplica perfeitamente ao
livro como objeto cultural. Longe de se constituir um objeto de culto, o livro,
na sociedade de massa, popularizou-se, com todas as vantagens que isto
proporciona, mas também com todos os riscos que isto acarreta. Se, por um lado,
ele está mais acessível — grandes obras da literatura universal estão
disponíveis, hoje, por exemplo, a qualquer pessoa nas bancas de revista —,
poucos são, em termos proporcionais, aqueles que lhe dão o devido valor.
Nada
mais irônico do que o fato de que as gerações que dispõem, hoje, de um tesouro
inimaginável ao seu alcance sejam a que menos se interessem por ele. A idéia de
aproximar-se do livro cerimoniosamente, “com a cortesia no coração”, torna-se
incompreensível, quando não risível.
É até
difícil imaginar a existência de grandes volumes empoeirados, em bibliotecas
misteriosas e labirínticas, ao gosto de Borges, quando se pode percorrer as ruas
da cidade, entrar e sair de ônibus e metrôs, com uma obra-prima da literatura,
no formato pocket book, metido no bolso do casaco. A revolução editorial causada
pelas brochuras é, sem dúvida, co-responsável por essa disseminação da leitura,
pela facilidade do acesso ao livro, mas há também grandes limitações para o
leitor mais exigente.
Como diz Steiner:
Não se
consegue em brochura — ou apenas raramente se consegue — a obra completa de um
autor. Não se tem acesso, nessas edições populares, ao que é considerado, por
juízos de valor do momento, a produção inferior de um autor. Entretanto, a
leitura autêntica da obra de determinado escritor só é possível quando a
conhecemos integralmente, quando podemos também nos debruçar com solicitude —
ainda que impacientes e ranzinzas — sobre suas deficiências e assim construir
nossa própria percepção da validade de sua obra. (STEINER, 2001)
O leitor
rápido, fragmentário, superficial e não “cortês” das brochuras e dos pocket
books, incapaz muitas vezes de “reagir ao texto”, dando-lhe uma resposta
crítica, parece ser sintomático de uma civilização na qual ocorre uma “atrofia
da memória”, “característica principal da educação e da cultura a partir da
metade do século 20”. Atrofia esta que se acentua com os processos de leitura
online. Se o leitor de Chardin é aquele capaz de ler com atenção, de “fazer
silêncio dentro do silêncio”, conforme definição de Steiner, como se pode
caracterizar o internauta? Ou caracterizá-lo seria, de certa forma, reforçar o
estereótipo do jovem agitado, impaciente e imediatista, para o qual a leitura é
apenas uma forma pragmática de obter informações para atingir um objetivo
específico (fazer um trabalho, uma prova), inclusive copiando, sem pudor,
trechos inteiros de obras sem dar-lhes o devido crédito?
É claro
que entre o estereótipo do leitor profundo e solene, do século 18, e o do leitor
superficial e informal, do século 21, existe uma variedade de tipos de leitores
— mas não podemos deixar de reconhecer que são dois modelos emblemáticos e que
correspondem a certo espírito de época. Num tempo em que a experiência cede cada
vez mais espaço para a informação fragmentada e descontextualizada, a imagem do
internauta, saltando de um site para outro, no espaço virtual do hipertexto, se
sobrepõe cada vez mais à dos amplos salões das bibliotecas com seus leitores
solenes e silenciosos.
Revolução editorial
A
discussão sobre o desaparecimento ou não da mídia livro parece ociosa. Aliás,
como é de conhecimento geral, mas que parece ser frequentemente esquecido pelas
pessoas, a existência dos computadores e da internet tem facilitado a própria
difusão das obras impressas: publicam-se mais livros hoje do que em qualquer
outro momento da humanidade. Como bem lembra Jason Epstein, em O negócio do
livro: passado presente e futuro do mercado editorial (Record, 2002), as novas
tecnologias permitem a uma máquina
[...]
copiar, digitalizar e armazenar para sempre qualquer texto criado, a fim de que
outras máquinas possam buscar esse conteúdo e reproduzir cópias instantaneamente
a pedido em qualquer parte do mundo, seja em forma eletrônica, baixada por uma
taxa para um chamado e-book ou dispositivo similar, seja em forma impressa e
encadernada por uns poucos dólares a cópia, indistinguível na aparência dos
livros brochurados de fabricação convencional. (EPSTEIN, 2002)
E
acrescenta, adiante: “Máquinas que podem imprimir e encadernar cópias unitárias
de textos com o tempo serão itens domésticos comuns, como as máquinas de fax
hoje em dia”. Em outras palavras: já existe tecnologia para que uma pessoa, numa
remota localidade do mundo, no Himalaia ou na Amazônia, possa baixar, copiar e
imprimir seus próprios livros, formando sua biblioteca particular, sem sair de
casa.
Mais do
que a sobrevivência ou não do livro, a questão mais premente hoje diz respeito à
sobrevivência dos modelos de produção e comercialização, dos direitos autorais,
dos grandes conglomerados editoriais, mistos de editoras e livrarias que tal
como os da música perdem cada dia mais o controle sobre seus títulos. Mas isto
já é tema para um outro artigo. O que se pode dizer, no momento, é que há, de
fato, uma revolução sem precedentes em curso — uma revolução jamais imaginada
pelo hierático leitor incomum do quadro de Chardin.
Rascunho, nov. 2006
REFERÊNCIAS
EPSTEIN,
Jason. O negócio do livro: passado, presente e o futuro do mercado editorial.
Rio de Janeiro: Record, 2002.
STEINER,
George. O leitor incomum. In:______. Nenhuma paixão desperdiçada. Rio de
Janeiro: Record, 2001.
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