
LEMBRANÇAS DE AFRÂNIO COUTINHO
A primeira vez que vi Afrânio Coutinho, foi como examinador de concurso de
Docência Livre de Literatura Brasileira, a que se submeteu Herón de Alencar, na
Faculdade de Filosofia , Ciências e Letras
da Bahia, em agosto de 1953.
Defrontavam-se, num inesquecível torneio de inteligência, um médico
baiano e outro cearense, ambos direcionados para os estudos da literatura
brasileira, conseqüentemente, desviados da profissão que haviam trilhado.
Afrânio Coutinho era filho do engenheiro Eurico da Costa o e de
Adalgisa Pinheiro dos Santos Coutinho.
Nasceu em Salvador a 15 de março de 1911, e faleceu no Rio de Janeiro,
onde vivia, no dia 5 de agosto de 2000.
Sócio, desde jovem, do Instituto Geográfico Histórico da Bahia
freqüentava-o assiduamente. Atuava na imprensa e lecionava História no Colégio
Nossa Senhora Auxiliadora:” uma escola normal da professora Anfrísia Santiago,
que me encaminhou no magistério. Ensinei também nos Maristas de Salvador, onde
tinha – onde tinha feito o curso secundário – História,Literatura e um pouco de
Filosofia. “ Por seu turno , são
suas as palavras sobre o acesso à
imprensa baiana: “Minha carreira jornalística começou nessa fase , quando fui
chamado por Ernesto Simões Filho para colaborar com A TARDE. “ Graças ao
jornalista Simões Filho, tornou-se conhecido, recebendo convite para
escrever em outro jornal de
grande circulação sobre Literatura,
Política Internacional, Artes e outros assuntos. Contava apenas vinte anos.
Passado algum tempo, em 1940, recebeu o convite de Dário Magalhães, sócio dos
Diários Associados no Rio de Janeiro, para colaborar com o
Estado da Bahia, em cuja redação
esteve durante dois anos, escrevendo sobre a guerra contra o fascismo, o nazismo
e o comunismo.
Sua escolha profissional
decorrera da falta de opção nos anos 20, em que, salvo a carreira religiosa, os
moços só se encaminhavam para as faculdades de direito, engenharia e medicina,
sendo essa última era a mais prestigiada em nosso meio, não apenas por ter sido
a primeira do Brasil como pelo renome que adquirira. Ingressou na Faculdade de
Medicina aos vinte anos, tendo que aumentar a idade para cursá-la.”Mas , apesar
de jovem, era muito maduro e cursei os primeiros quatro anos com grande élan “
Professor por vocação, Afrânio ensinou história e literatura antes de
diplomar-se, dando aulas no curso secundário. Nunca exerceu a medicina, foi
bibliotecário da sua Faculdade e lecionou na recém fundada Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras.
Indagado sobre sua paixão pela Literatura declarou ter sido por
intermédio da leitura de um trecho de Quincas Borba, publicado na Antologia
Nacional, de Fausto Barreto e Carlos de Lair, adotada em quase todos colégios
naqueles tempos. Fascinado pelo estilo do autor, passou a ler toda sua
obra.
Em 1932, já diplomado médico e diretor da biblioteca da Faculdade
de Medicina, saía pelo Terreiro de Jesus e a extinta rua do Colégio , àquela
altura com a Igreja da Sé
criminosamente destruída e parava na pequenina livraria “Progresso
para inteirar-se das novidades.
Certo dia encontrou uma obra que o interessou. Tratava-se
de uma edição do centenário de Almeida Garret , que mandou reservar para
si. No outro dia, passou para buscar a encomenda, tendo sido informado de que um
poeta baiano, Eugênio Gomes, quis adquirir o livro, tendo
manifestado interesse em saber
quem o havia adquirido. Esse encontro propiciou-lhe uma grande amizade
literária, firme até os últimos dias de E.Gomes, que lhe abriu os olhos para a
crítica inglesa, vez que lhe disse Afrânio Coutinho só conhecer a francesa. Foi
Eugênio Gomes seu grande orientador naquele instante de definição profissional.
Heron de Alencar era, para
mim, uma figura familiar porque, sendo um jovem médico, convivia com meu pai,
Edistío Pondé, àquela altura assistente do Prof Alfredo Brito, na Clinica
Neurológica, além de à noitinha namorar com Wanda Amorim, filha do Dr. Alfredo
Amorim. Era o Dr.Amorim, conceituado advogado baiano, residente na mesma rua do
Desterro, onde morávamos. Cearense do Crato, Heron nasceu em 1921, vindo estudar
na Bahia, tendo se formado na mesma faculdade em que se diplomara Coutinho.
Impossível esquecer as provas públicas de Herón, tanto a leitura da
escrita quanto a defesa de tese.
Eram Herón e Coutinho eram dois “gigantes” a se defrontar diante de uma
assistência atenta e entusiasmada.
Afrânio Coutinho era um
espírito combativo, um temperamento instigador e argüiu, com vigor, o jovem
estreante. Não menos vibrante foi a defesa de Alencar. Duelo de titãs.
Minhas lembranças são as de uma jovem estudante do Curso de
Geografia e História, deslumbrada com os debates acirrados ocorridos no Salão
Nobre do velho sobrado onde funcionara a Escola Normal da Bahia, ao Caquende.
Concurso memorável , assistido por uma assistência seleta, constituída
de professores, alunos e amigos do candidato, que
apresentava uma tese de
título instigante: “Literatura , um conceito em crise “.
A certa altura, lembro-me bem, o examinador baiano dirigiu-se a Heron de
Alencar, dizendo-lhe, mais ou menos, assim: “não se preocupe com a literatura,
senhor candidato, ela não está em crise, aliás, vai muito bem, obrigado”. E os
presentes sorriram com a tirada do mestre irreverente.
Numa das vezes em que com ele estive, declarou-me que resolvera
deixar a Bahia quando percebeu que aqui não cresceria, a cidade era muito
acanhada para as suas pretensões: Para gracejar comigo, disse-me: sabe por que
fui morar no Rio? Respondendo
à própria indagação, declarou sorrindo: “fui embora, porque a diretoria do IGHB
me incumbiu de fazer o discurso do Dois de Julho, no Panteón da Lapinha. Aquela
tarefa era demais para mim.”
Brincadeira à parte, o ambiente baiano era muito limitado para as
aspirações do futuro crítico literário. Ademais disso, a rivalidade profissional
entre os médicos era tão acirrada
que somente os “apadrinhados” tinham condição
de vencer na cidade da Bahia.
Afrânio descortinou a possibilidade de sair para a capital da
República. Foi-se para o Rio de Janeiro e, de lá, seguiu para os Estados Unidos,
onde seu padrinho de casamento, Otávio Mangabeira, arranjou-lhe serviço no
Readers Digest, sendo-lhe possível viajar para os Estados Unidos e estudar, de
1942 a 1947, na Universidade de Columbia, onde completou seus estudos literários
.
A.Coutinho é considerado o renovador da crítica literária no
Brasil. Homem independente, jamais participou das “panelinhas literárias do
Distrito Federal, tendo defendido, ardorosamente, a independência
da “língua brasileira”.
Entrevistado pela
jornalista, Beatriz Marinho, “sobre a critica ao crítico”, declarou:
“Ressentimento pelo que desestabilizei e também ao fato de que no Brasil ninguém
analisa nada e, ainda, ao fato do brasileiro ser um homem de breves críticas, de
não haver profundidade em nada do que se faz aqui”.
Eleito para a Academia
Brasileira de Letras passou a ocupar a cadeira número 33, no dia 17 de abril de
1962.
Estive com Afrânio Coutinho mais algumas vezes. Visitei-o em sua
residência no Leblon , quando , muito gentilmente, levou-me conhecer e apreciar
sua extraordinária biblioteca.
Biblioteca que se constituiu no germe da Oficina Literária Afrânio Coutinho
(OLAC), local onde se reuniam estudiosos da nossa literatura, realizavam-se
cursos, debates, e hoje pertence à UFRJ.
Quando aqui esteve no Natal de 1900, para uma permanência de alguns
dias, ofereci-lhe e à sua segunda esposa, Sonia, um cozido baiano, em minha
casa, um almoço no sítio de Maryvonne e Jorge Malbouisson de Mello, além de ter
coordenado um almoço em sua homenagem no Hotel da Bahia, do qual participaram
inúmeros intelectuais amigos.
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