
Os descobrimentos portugueses, no século
XVI, constituem não só fatos históricos, mas também se tornaram um rico tema
literário. Neste particular, dois contos recentes chamam a atenção pela forma
como reatualizam o imaginário dos descobrimentos lusitanos. O primeiro é
O conto da ilha desconhecida, do português José Saramago,
inicialmente publicado na revista Veja,
de 24 de dezembro de 1997 e, posteriormente, em livro, pela Companhia das
Letras, de São Paulo, em 1998. O segundo é
A história do gato, do poeta baiano Antonio Brasileiro, publicado pelas
Edições Cordel, de Feira de Santana, em 1997, e, mais tarde, na revista
Iararana n. 3, de Salvador, em maio de
2000. Certamente um autor não conhecia o texto do outro, mas ambos têm em comum
o tema e a motivação da data histórica, embora com enfoques diferentes em vários
aspectos e, apesar disso, guardando aproximações interessantes. De permeio aos
dois contos, devemos considerar, como texto conhecido de ambos os escritores, a
Carta de Caminha ao Rei D. Manuel
(1500), dando conta do achamento do Brasil.
O imaginário dos descobrimentos funde
ideia, história e ficção e, como tal, é representado de ângulos diversos, a
depender do ponto de vista e do locus
cultural do narrador. Considerando a Carta de Caminha como referência comum com
a qual dialogam os contos em questão, podem-se estabelecer relações entre estes
si e com a carta histórica, discutindo suas aproximações e distanciamentos, como
retomada crítica do referido imaginário.
José Saramago escreveu seu conto
motivado pela Expo 98 de Lisboa e, na sua primeira divulgação no Brasil, na
revista Veja, oferece-o aos
brasileiros, como um convite para visitarem a Exposição: Diz ele: “Gostaria que
esta minha Ilha Desconhecida fosse igualmente um convite para muitos leitores
brasileiros: o de viajarem até à terra portuguesa, o de participarem no que
será, sem dúvida, a Grande Festa dos Oceanos. A melhor representação do Brasil
será a dos brasileiros. Venham”. (in: Veja)
A
Carta de Caminha é uma referência tácita neste cruzamento de sentidos. Com
sua retórica persuasiva, a missiva concentra seu relato em dois focos: sinaliza
a existência das riquezas que interessariam ao comércio mercantilista e descreve
os índios como seres dóceis e propícios à conversão. No corpo do relato, a
profusão de imagens plásticas e descrições eloqüentes de um paraíso, manobras
estilísticas que constituem as qualidades literárias do documento. O texto de
Caminha reflete uma concepção preestabelecida, firmada na mentalidade
expansionista portuguesa, que justapunha a visão prática, — ou seja, descobrir
territórios, tomar posse deles e explorá-los, subjugando seus habitantes, —
a uma visão idealizada das novas terras, desejadas como verdadeiros
mananciais paradisíacos.
Em
O conto da ilha desconhecida, José Saramago redimensiona esse imaginário,
adensando o sonho e o desejo da viagem, e deslocando os seus aspectos práticos,
através da recusa ao seu estatuto institucional. Para tanto, o escritor elege
personagens do povo, um homem que queria um barco e a mulher da limpeza do
palácio real, como depositários do verdadeiro ideal da viagem e descoberta. No
desencontro entre a vontade popular e a postura da Coroa, mostra-se o
descontentamento social e a burocracia emperrada das instâncias do poder,
simbolizada pelas diversas portas do Palácio, por onde o Rei atendia pouco e
recebia muitos obséquios e homenagens. O conto inicia-se: “Um homem foi bater à
porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco.” O homem do povo, depois de enfrentar
os entraves burocráticos, defronta-se com o próprio Rei, na presença de uma
funcionária, a mulher da limpeza. Insiste que quer um barco para ir à procura de
uma ilha desconhecida.
Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na
sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não
seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem,
Disparte, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não
há ilhas desconhecidas, estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas
conhecidas
(Saramago, p. 17-18).
Esse homem do povo é desafiante em
várias instâncias: da burocracia, do poder real, do saber cartográfico e
histórico estabelecidos. Sua atitude desautoriza a viagem como estratégia de
estado, conquista e empresa comercial e a afirma enquanto aspiração essencial,
sonho e desejo de conhecimento. A ilha a ser descoberta não pertencerá ao rei.
De fato, vencido pela reiterada petição, o rei libera o barco e homem e a
mulher da limpeza preparam a viagem, engajam marinheiros e partem em busca da
ilha desconhecida, para, na verdade, empreenderem a busca de si mesmos, pela
realização da viagem em si e pela mediação do envolvimento amoroso. Eis, pois, o
sentido essencial da ilha procurada:
Depois, mal o sol acabou de nascer, o
homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras
brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a
maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.
(idem,p. 61-62).
O sonho realiza-se no estar no barco, em
viagem de autodescoberta, pelo sonho e pela imaginação. Sua necessidade – ou
seja a necessidade do povo português – era descobrir-se a si mesmo, para
redefinir sua identidade, o que não se resolveu com a política colonial
expansionista. O conto de Saramago questiona o ideário dos descobrimentos de
dentro de sua cultura, do lugar português. Desse modo, dessacraliza o imaginário
prático, através do descentramento do sujeito navegador, um homem do povo em
lugar do comandante nobre, numa viagem simbólica de interesse coletivo e não
subordinada à Coroa. O percurso narrativo, carregado de afetividade pela
valorização da cultura – a viagem em si – destila uma fina ironia no processo
que, na acepção de Linda Hutcheon, seria um mecanismo distanciador, uma vez que
“a reserva distanciadora pode também ser interpretada como um meio para uma nova
perspectiva a partir da qual as coisas
podem ser mostradas e, assim, vistas de maneira diferente. (Hutcheon: 2000, p.
79-80) Neste conto, fala a voz do intelectual português, numa reavaliação de sua
cultura do passado, em busca de nuances interpretativas novas. Seu discurso abre
brechas no registro histórico, para uma dimensão coletiva, simbólica, em torno
de uma reflexão em torno da identidade, que perpassa o imaginário português
desde Bandarra, Camões, Vieira, Fernando Pessoa e, agora, cabe aos escritores
contemporâneos.
O conto de Antonio Brasileiro,
A história do gato, tem uma imantação histórica bastante direta. Em
estado de sonho, à beira-mar, o narrador empreende uma viagem no tempo e
visualiza a chegada das caravelas de Cabral, reinterpretando-a através da
consciência de um gato, personagem operatório por excelência. O gato, como
personagem que o narrador visualiza e, por vezes, encarna, representa a reação
crítica aos invasores. O gato do mato, elemento autóctone marcado pela esperteza
e a insubmissão, funciona como voz crítica reinterpretante dos atos e discursos
dos personagens registrados pela narrativa oficial, vista agora numa posição
invertida, ou seja, a partir do lugar visitado/invadido. O conto assume esse tom
desde o início:
Começou com o gato me olhando. Demorou um tempão — e
eu ali, sei lá!
Absorto?
Gato,
empoleiro-me na cadeira de balanço e fico a ouvir um sonzinho diferente vindo do
mar. Ah, são os navios de Pedro Álvares Cabral. Então não tem importância, já
estiveram aqui antes. Simpáticas gentes, chegam cansadas.
Isto não é mesmo uma bosta, Pero?
pergunta o comandante.
Quiçá, senhor Comandante.
Peguem este gato, deve ser selvagem.
Não é não, senhor Comandante. E ele
quer-vos falar.
É impertinente, hem?
(Brasileiro,
1997, p. 58)
Deixe-me ver o tal navegante.
Um preguiçoso, decerto. Varou mares,
aportou nessas terras e agora ronca como um leitão. Incapaz de discernir, bronco
que é, a fantasia da realidade, pensa talvez que veio aqui para dar uma
olhadinha apenas, pois deve seguir viagem. Capitão é pra isso mesmo. Claro que é
pra isso mesmo, não houve nada de mais. Refiro-me é à sua opacidade ao ver em
mim um gato e não um não-gato. Presentificar-me-ei tão logo acorde.(idem,
p. 59).
A
história do gato estabelece um jogo
dialógico/paródico com o relato de Caminha, engastando nele a sua função
dessacralizadora, sustentada pelo registro jocoso, brincalhão, que quebra
solenidade retórica através da carga de ironia que lhe superpõe. Esse discurso
oscila, de acordo com a tipologia de Hutcheon, entre a ironia lúdica (Hutcheon:
200, p. 78), de caráter afetuoso, benevolente, associada ao humor e à
espirituosidade, em tom de paródia risível e trocadilho; e a ironia de oposição
(idem, p. 83), que subverte o
discurso oficial, transgredindo os seus sentidos, numa função “contradiscursiva”
contestadora dos hábitos mentais e das expressões dominantes. Trata-se de uma
fala extemporânea que se imiscui no discurso da história, por via literária,
para revelar a contradição recalcada pela ausência de voz contestadora na data
do fato. O colonizador outorgou-nos uma história, em sua versão. E como salienta
Edward W. Said (Said: 1995, p. 13) “O poder de narrar, ou de impedir que se
formem e surjam outras narrativas, é muito importante para a cultura e o
imperialismo, e constitui uma das
principais conexões entre ambos.” A história do gato insere-se na série
discursiva que vem enfrentando essa herança. Assim, compulsa a história
protagonizada pelo colonizador, inserindo-se por sobre sua escrita como uma
variante suplementar dessacralizadora. Eis sua conclusão:
Nada deve ser posto de lado — berrou de
repente Cabral. — Esta merda deve prosseguir como aquele maluco quer. Ele não
quer uma nação? Pois terá a nação que quer.
Escreva aí, Pero: a terra é toda maravilhosa, não tem cobras,
não tem muriçocas, não tem onças pintadas… etc
etc. Tudo aqui é muito ótimo.
E apressemo-nos com a descoberta.
Navegar é preciso. Tenho razão, Escatimburo?
(...)
Você está anotando isso aí? perguntei.
Aqui? Hum-hum. Concluo apenas o informe:
Deste Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje — que dia é hoje?
sexta-feira? — sexta-feira, primeiro dia de maio…
Voltei-me para Tzu. Esse cara é um maluco
mesmo, hem? — pensei em perguntar-lhe. Tzu olhava o mar distante, os navios
sumindo. Rapidamente. O gato afiava de leve suas unhas em minhas canelas.
Abaixei-me para acariciá-lo.
Você falava sozinho? perguntou-me.
Ahn?
Olhei em torno, Pero não estava mais. Nem
Tzu. Nem os navios.
Gato!- exclamei. — Gato! Gato!
Na minha mão, apenas a areia fria da
praia. Finíssima, escorria-me por entre os dedos. Alguns grãos brilhavam,
momentaneamente, mais que o sol. (p.
A
Carta de Caminha é parte do discurso colonial. Descreve, qual inventário, a
gente, a terra e tudo que nela contém, num ato de apropriação do lugar e suas
riquezas, destituindo seus primeiros habitantes e tornando-os objeto da expansão
colonialista. Esse ideário é questionado em
O conto da ilha desconhecida, uma vez
que é no plano do sonho e do autoconhecimento que estaria a verdadeira viagem e
conquista a empreender. A História do gato
dialoga diretamente com a Carta
através de um discurso que questiona a sua condição de verdadade absoluta,
transformando-a em versão. O conto, já
pelo título, se apresenta como história, num campo semântico ambíguo para o qual
arrasta a Carta de Caminha,
relativizando o seu estatuto histórico oficial. O gato, o poeta Tzu e o narrador
representam a consciência do lugar invadido que se contrapõe ao discurso
invasor.
Ambos os contos questionam a história,
num diálogo tenso travado no terreno da ficção. Saramago propõe um novo olhar
interpretante, que abre espaços para que a cultura portuguesa possa refletir sua
imagem e, assim, possa redimensionar o seu lugar e sua identidade no conjunto de
territórios que se aglutinam numa Europa unificada. Antonio Brasileiro propõe
uma intertextualidade crítica, mediada pela ironia corrosiva sobre a
Carta e pela dessacralização lúdica da
versão oficial, como ponto de partida para uma reflexão sobre o país, em busca
de uma autodefinição histórica.
Em José Saramago, com o navegante/
contestador, e em Antonio Brasileiro, com o narrador/crítico, esse discurso
reinterpretante se traduz e se imanta na imagem de um sonho. Esse sonho é,
talvez, o mesmo barco que navega no conto de Saramago, e que é avistado na
praia, no conto de Antonio Brasileiro.
Referências:
CASTRO, Silvio.
A Carta de Pero Vaz de Caminha. Porto
Alegre: L & PM, 1996.
SAID, Edward W.
Cultura e imperialismo. Trad. Denise
Bottmam: Companhia das Letras,
1995.
BRASILEIRO
Antonio. A história do gato. Feira de
Santana: Edições Cordel, 1997.
BRASILEIRO
Antonio. A história do gato.
Iararana 3. Salvador, n.3, mai. 2000.
HUTCHEON,
Linda. Teoria e política da ironia.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.
SARAMAGO, José.
O conto da ilha desconhecida.
Veja. São Paulo, 24.dez.1997.
SARAMAGO, José. O conto da ilha
desconhecida. São Paulo, Companhia das Letras,1998.
________________________
Aleilton
Fonseca é escritor, Doutor em Letras (USP), professor Pleno (Titular) da UEFS.
Publicou vários livros, inclusive o romance
O pêndulo de Euclides, pela Editora
Bertrand Brasil, em 2009. Pertence à Academia de Letras da Bahia e ao PEN Clube
do Brasil.
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