
A poesia como expressão do
cotidiano
A
poesia está em tudo,
tanto nos amores, como nos chinelos.
Manuel
Bandeira, Itinerário de Pasárgada
O avesso da retórica
Paris, fins do século XVIII. Madame
Guilhotina corta cabeças coroadas. Na praça lavada de sangue, as terríveis
megeras param de tricotar e, enfiando os novelos de lã nas bolsas ensebadas,
retiram-se em silêncio. O mundo se estilhaça varrido pelos ventos que sopram da
Bastilha.
Enquanto isso, nas eternas e verdejantes
encostas do monte Parnaso, ao abrigo das paixões humanas, a Musa sente a pele
fina arrepiar-se num pressentimento. Deixando a lira e o arco, inclina-se
pensativa sobre os bordos de uma fonte onde a estátua de um menino molha a ponta
de suas setas e contempla por instantes a própria radiante formosura: um rosto
grave e gentil e a ondulada cabeleira coroada de mirtos e de rosas. Tudo parece
tão sereno. Mas uma súbita aragem sopra por entre as folhas, encrespando de leve
a superfície das águas. Nada mais poderia ser igual ao que era antes... Três
palavras mágicas, — liberdade, igualdade, fraternidade —, um barrete vermelho, e
eis o mundo virado pelo avesso.
Século XIX: novas idéias, progresso
material, ascensão da burguesia, inquietação, pluralismo. A Revolução Francesa
não foi apenas um acontecimento circunscrito aos limites dos seus próprios
horizontes, foi um marco decisivo na história da humanidade. As transformações
que se operaram a partir deste movimento tiveram o poder de reformular conceitos
e teorias, ensejando novas maneiras de ver-se o mundo e, conseqüentemente, novos
procedimentos nas artes e na literatura.
Se, do ponto de vista político, o século
XIX, para o mundo ocidental, caracterizou-se por uma ruptura em relação aos
modelos do passado, no campo literário também foi palco de uma mudança
consideravelmente assinalável.
Foi em meados do século XIX que algumas
correntes de pensamento começaram a contestar o
belo como atributo primordial da obra
de arte e a poesia como o veículo sublime de sentimentos elevados.
Se Victor Hugo já ameaçara colocar um
barrete vermelho no dicionário, foi com Charles Baudelaire, profundamente
influenciado por Edgar Alan Poe, que a poesia toma consciência de que, do outro
lado do espelho, Apolo e Calibã teriam a mesma face.
“Beleza! monstro horrendo”,
exclama o poeta das Flores do mal em
seu “Hino à beleza”.[1]
Mais além, extasia-se com o putrefato esplendor de uma carniça e entoa versos à
dissolução da carne e aos vermes que a devoram, escandalizando o público pela
escolha de temas e palavras considerados, até então, indignos de figurar nas
estrofes de um poema.[2]
De Baudelaire, Rimbaud, Verlaine,
Mallarmé, podemos afirmar que prepararam o caminho das vanguardas literárias
cujo aparecimento fez-se sentir a partir da segunda metade do século XIX,
multiplicando-se em -ismos e tendências que se espraiaram no estuário
farto dos experimentalismos que marcaram o início do século XX, cujos reflexos
podem ser vistos nas literaturas de Portugal e do Brasil.
Aqui não nos propomos fazer história e
muito menos história literária. O tema escolhido não deixa margem a outras
intenções: poesia como expressão do cotidiano, poesia como tradução de uma experiência fundada no real, testemunho
inequívoco da militância no dia-a-dia.
Se acrescentamos, como preâmbulo, este
recorte no tempo, este esboço tão rápido e impreciso como uma paisagem vista do
alto de um aeroplano, foi para assinalar que, a partir do século XIX, algo mudou
no modus vivendi/operandi dos poetas.
Até o advento do Romantismo, a poesia esteve sempre a serviço de alguma causa. A
partir de então, instaura-se o descompromisso com tudo que não seja a própria
poesia. O poema deixa de ser objeto, para assumir a posição de sujeito, a
refletir sobre si mesmo, Narciso sem pudor.
Nesse momento, os poetas adquirem
consciência de que o poema não deve servir apenas de veículo ao sublime, mas
também pode expressar as coisas simples da vida, instaurando a poética do
cotidiano na prática de uma linguagem que não busca o
enobrecimento artificial do tema, mas
procura conservar o frescor e o brilho da simplicidade. Na estrofe final de sua
“Art poétique”, poema datado de 1874, mas publicado dez anos depois, Paul
Verlaine já define esta procura:
Seja teu verso a boa aventura
Solta ao vento vivaz da manhã
Que recende a erva-doce e hortelã...
E
tudo mais é literatura.[3]
A poesia de chinelos
Esparsa
“ao vento vivaz da manhã”,
“a poesia está em tudo
¾
tanto nos amores como nos chinelos, tanto
nas coisas lógicas como nas disparatadas”, afirma Manuel Bandeira, no
Itinerário de Pasárgada.[4]
A poesia está no “jardim da pensãozinha burguesa” com
“gatos espapaçados ao sol”[5]
ou, como afirma Carlos Drummond de Andrade,
“[n]aquele girassol no jardim público de Palmira”.[6]
A poesia está na descrição da vida burguesa familiar com
Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A
cozinheira preta, a copeira mulata,
o
papagaio, o gato, o cachorro,
as
galinhas gordas no palmo de horta
e
a mulher que trata de tudo.[7]
Mesmo no século passado, Mallarmé não
hesita em deixar o som de suas “flautas raras” para compor a quadra “O Vendedor de alho e cebola”:
A insipidez da visita
Com alho posso depô-la
A elegia ao choro hesita
Pouco se eu corto a cebola.[8]
A cebola, esse prosaico objeto, também
serve de inspiração a Pablo Neruda, que, numa ode,[9]
consegue sintetizar a beleza transparente e luminosa do bulbo:
Tudo que existe celebrei, cebola;
mas para mim és
mais formosa que uma ave
de penas cegadoras, és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina, dança imóvel
de anêmona nevada
e vive a fragrância da terra
na
tua natureza cristalina.
Pablo Neruda tinha o dom de transformar
em poesia os objetos que o cercavam:
Prodigiosa
tesoura
(parecida
com os pássaros
e os peixes),
polida és como as armaduras
da
cavalaria.[10]
Em “Ode à tesoura” vemos, quase por
artes mágicas, o objeto prosaico transmudar-se em assunto para a mais alta
poesia
¾ a
lírica lembrança da “Tesoura / cheirosa /
na mão / da tia / costureira”,[11]
companheira doméstica cumprindo seus usos; imagem épica, a tesoura, cortando
bandeiras; a simbólica intersecção a separar o filho de sua mãe, no corte
umbilical. Para Neruda,“tudo foi pano /
para a tesoura”.[12]
Tudo será objeto para a poesia.
Tudo, até mesmo um simples comprimido.
Em “Num monumento à aspirina”,[13]
poema recortado à maneira de duas estrofes de doze versos, João Cabral de Melo
Neto inventa sua ode a esse “cristal /
polido a esmeril e repolido a lima”, panacéia diária e universal, milagre a
curar as dores do corpo, como a poesia tenta curar as dores da alma:
Claramente: o mais prático dos sóis,
o
sol de um comprimido de aspirina:
de
emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a
toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.
A poesia como missão
O poeta, no século XX, assiste ao
eclodir de todos os acontecimentos. Já não há tantos mistérios entre os céus e a
terra, e a nossa vã filosofia mal consegue acompanhar a vertigem das mudanças
que se sucedem. No processo de individuação o homem é um animal que se reconhece
no espelho. O poeta no espelho não vê a própria face, mas a face do mundo.
Resistindo à tentação de cantar o próprio ego, busca exprimir as angústias do
seu tempo e o difuso semblante da entidade a quem genérica e vagamente chama “o
povo”.
No poema “A flor e a náusea”, diz o
poeta Drummond: “Preso à minha classe e a
algumas roupas, / vou de branco pela rua cinzenta”. Dividido entre o ser e o
mundo, pergunta-se estupefato: “Devo
seguir até o enjôo? / Posso, sem
armas, revoltar-me?”.[14]
E, recusando a torre de marfim, reafirma-se solidário:
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
[...]
O tempo é a minha matéria, o
tempo presente, os homens presentes,
a
vida presente.[15]
Se o poema não é um
“campo de flores”,[16]
é desnecessário rimar “a palavra sono /
com a incorrespondente palavra outono”.[17]
Assim, o poeta (des)monta a própria
emoção/razão de criar, como Affonso Romano de Sant’Anna em “O poeta se confessa
enfastiado de sua profissão”, onde repete até à exaustão a prática da
metalinguagem, o poema a explicar o próprio poema:
Por profissão, cansaço e nojo
quebro os diques, ainda que deles guardião,
deserto meus oásis por muito usá-los
como operário que se explode com a mina.[18]
Carlos Drummond de Andrade e João Cabral
de Melo Neto são mestres absolutos nestas composições que refletem sobre si
mesmas, que, como a aranha, tecem o que vomitam, fabricando suas teias e
capturando o leitor com o fascínio destes jogos onde se encaixam as palavras
como mosaicos transparentes. Como exemplos, citaríamos os poemas “Nudez”
e “Procura da poesia”, de Carlos Drummond de Andrade, e “Catar feijão”, de
João Cabral de Melo Neto.
Em “Nudez”,[19]
o poeta deseja-se apenas receptáculo, lira tangida pelo vento. Como a
vidraça, atravessada pela luz, o poeta é transpassado pelos acontecimentos.
“Procura da poesia”[20]
é, com certeza, um dos mais célebres poemas da literatura brasileira, verdadeira
arte poética, exemplar lição de poesia, valendo por toda uma teoria literária.
No entanto, a verdadeira poética do
cotidiano, delineia-se nos versos de “Catar feijão”,[21] onde a
simplicidade da doméstica tarefa define o ato de escolher as palavras, pesá-las
e ordená-las, frente às funções primordiais do poema: expressão correta,
equilíbrio, comunicação. Pedra angular de uma atitude diante da poesia, esta
composição define o limite preciso de um artesanato que aspira à exatidão, ao
fio seco das navalhas, aos descampados batidos pelos ventos,
uma
faca só lâmina,[22] aparando
toda gordura, reduzindo o verso ao esqueleto essencial, lavado e seco como as
ossadas das caatingas sertanejas.
A cidade como expressão do real
Na obra de todo poeta está presente uma
cidade. Real ou imaginada. Reminiscência ou projeção de um desejo de fuga.
Cidade como regaço de mãe, como seio de amante. Cidades onde se morre e se vive.
Onde se ama e perdoa. Cidades como matéria de recriação estética ou apenas
cenário. Jerusalém ou Babilônia.
No caso presente, o que nos interessa é
a recriação poética da cidade a partir de elementos do cotidiano. Escolhemos
três poetas, afastados cronológica e espacialmente, que nos parecem exprimir em
seus poemas uma relação que, embora diversa no sentimento, guarda uma
proximidade no que tange à percepção da cidade como espaço real, palmilhado
diuturnamente e intensamente vivenciado: Cesário Verde, Manuel Bandeira e Mário
de Andrade. O primeiro, português, vivendo em Lisboa em fins do século passado.
Os outros dois, brasileiros, protagonistas da grande aventura literária de 22.
A relação de Cesário Verde com Lisboa é
uma relação penosa. A cidade o incomoda:
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há
tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
Nada escapa ao poeta em sua visão da
cidade: os edifícios, a multidão, as ruas, praças, igrejas... Um cenário
depressivo onde o poeta sente-se encurralado. Com aguda e ferina sensibilidade
ele anota cada detalhe, cada atitude de transeunte, cada nódoa na fachada. O
poema “O sentimento de um ocidental”[23]
é a síntese desta vivência citadina, ponto alto da obra do poeta. Grande painel
cinematográfico onde as figuras movem-se contra um fundo acinzentado,
“Num trem de praça arengam dois dentistas”
e, ao mesmo tempo, “Saltam de viga em viga
os mestres carpinteiros”. Enquanto isso, numa intersecção de planos, passam
costureiras, floristas, burguesinhas, varinas. Cesário Verde é um desterrado, a
percorrer sempre, neuroticamente, os mesmos atalhos de uma cidade que o atrai e
repele com o mesmo fascínio das “impuras”, das “imorais”
que, “nos seus
roupões ligeiros, / Tossem,
fumando, sobre a pedra das sacadas”. Nesta
cidade turva, fantástica como uma visão de febre, num arrojo de
audácia criativa, o poeta ousa uma imagem insólita, quase inacreditável para os
padrões estéticos da época: “E sujos, sem
ladrar, ósseos, febris, errantes / Amareladamente, os cães parecem lobos”.
Bem diversa é a relação de Mário de
Andrade com a sua cidade bem amada: “São
Paulo! comoção de minha vida... / Galicismo a berrar nos desertos da América!”.[24]
E ainda: “Minha Londres das neblinas finas!”[25]
Toda a obra poética deste autor é
permeada por essa explosão dionisíaca, desejo pânico de possuir a cidade, roçar
seus edifícios, cantar “o arranha-céu cor de rosa / Mexendo asas azuis dentro da tarde”.[26]
Como num sonho, ele vê a cidade a girar
com a velocidade de um caleidoscópio:
Os
caminhões rodando, as carroças rodando,
rápidas as ruas se desenrolando,
rumor surdo e rouco, estrépitos, estalidos...
E
o largo coro de ouro dos sacos de café!...[27]
Sempre pronto a encordoar sua lira
paulistana em cantigas de bem-querer:
Minha viola quebrada,
Raiva, anseios, lutas, vida.
Miséria, tudo passou-se
Em
São Paulo.[28]
Embora afirme que
“Deus recortou a alma da Paulicéia / num
cor de cinzas sem odor...”,[29]
sua visão é sempre uma visão luminosa. Sol brilhante entre a garoa. Cidade
“mulher feita de asfalto e de lamas de
várzea, / toda insultos nos olhos, / toda convites nessa boca louca de
rubores!”.[30]
Desmesurada, desmedida paixão que se
projeta além da vida:
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.[31]
A Recife de Manuel Bandeira tem gosto de
chá com madeleine. Restaurada pela imaginação do poeta, a cidade de sua
infância vive “suspensa no ar”,
por um artifício da memória:
[32]
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois —
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância.
Doce Recife pequeno-burguesa, de
cadeiras nas calçadas, vendedores de roletes de cana e de amendoim, sem livros
nem jornais, só as notícias chegando pela boca do povo: as cheias dos rios, os
incêndios da mata. A sensação dos primeiros namoros...
Em “Evocação do Recife”, pode-se fazer
uma lista de imagens/signos que remetem ao cotidiano da infância: o
chicote-queimado, as vidraças quebradas, o pincenê, as brincadeiras de roda, o
nome das ruas, os banheiros de palha onde um dia o Poeta viu
“uma
moça nuinha no banho” e teve o
“primeiro alumbramento”. A enchente, o boi morto, as cavalhadas, a preta das
bananas, ovos frescos e baratos. E a vida, com a força das coisas simples que
pareciam eternas.
A nódoa no brim
No livro
Libertinagem, Manuel Bandeira explode
a comportada arquitetura de seus poemas anteriores:
Estou farto do lirismo comedido
do
lirismo bem comportado
Do
lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
[protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
[o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas[33]
Já no século passado, em sua “Arte
poética”, o poeta Paul Verlaine exclamava imperativo:
“Toma a eloqüência e torce-lhe o
pescoço!”.[34]
Desde então, porta aberta a todos os
desvarios, a poesia tornou-se libertação, fragmentação,
non sense, piada. Todos os caminhos
estavam abertos. Tudo era permitido ao poeta nos limites da página em branco. A
Poesia descabelava-se, descia aos infernos do inconsciente, virava panfleto,
comício, fazia e desfazia.
Deste mosaico ainda por mapear,
extraímos mais uma pedra que traz a marca de uma tendência
¾ a do poema sujo. E aqui nos
socorremos novamente de Bandeira, citando “Nova poética”,[35]
título do poema de 1949 em que ele lança a possibilidade de o poema incorporar
não apenas elementos insólitos do cotidiano, mas também o lixo, o que deve ficar
oculto, a poeira empurrada para baixo do tapete:
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito.
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem
[engomada, e na primeira esquina passa um caminhão,
[salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É
a vida.
O
poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e
as amadas que envelheceram sem maldade.
O gosto, ou necessidade, do poeta em
cantar o sórdido já encontrávamos em Pablo Neruda em um fragmento intitulado
“Sobre a poesia sem pureza” (1935):
Uma poesia impura como um traje, como um corpo, com manchas de nutrição, e
atitudes vergonhosas, com pregas, observações, sonhos, vigília, profecias,
declarações de amor e de ódio, bestas, sacudidas, idílios, credos políticos,
negações, dúvidas, afirmações, impostos.[36]
O poeta de
Memorial de Ilha Negra deseja o
produto poesia com marcas de dentes e
pêlo, roído talvez pelo suor e pelo uso.
As últimas conseqüências desta poética
vão desaguar na poesia dita marginal,
nos anos 70, particularmente no movimento pornô. Uma poesia do cotidiano que, às
vezes, ao privilegiar o cotidiano, esquece a poesia.
Como lição maior da
“nódoa no brim” ficou-nos o
“Poema sujo” de Ferreira Gullar: “[...] Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas balcões
de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas cobertos de limo muros de
musgos palavras ditas à mesa do jantar [...]”.[37]
O espaço feminino
Aqui vou amarrar meu cavalo em pasto
limitado. Falar sobre mulher às vezes pode ser muito perigoso, porque todo o
conceito de feminino ainda está em discussão. Tudo que se falar sobre mulher tem
que ser bem medido e pesado. Assim, vou com infinita cautela. Neste vôo de
pássaro-rápido, talvez distante, arrebatado, não pude perceber senão o que mais
evidente se impunha. Convém não esquecer que aqui me apresento com algumas
intuições e a prática insuficiente de um aprendiz de poeta que se quer também
leitor apaixonado.
Não estou bem certa do que afirmo agora,
por me faltarem elementos que se fazem necessários para uma afirmação
definitiva, mas me parece que raramente as mulheres mostraram-se dispostas a
expressar em poesia o seu cotidiano. Talvez porque este cotidiano se
configurasse em espaço de confinamento, mais de perdas que de realizações.
Considerada por muito tempo um cidadão
de segunda classe, à mulher restava o sonho, o devaneio e a fuga de uma
realidade onde se sentia prisioneira ou rejeitada. O espaço de sua liberdade era
o pensamento e a imaginação. Daí buscar na poesia a transcendência que lhe era
negada.
Duas vozes na literatura brasileira
deste século desmentem esta possível afirmação — Adélia Prado e Cora Coralina —,
expressando em sua criação poética a marca do dia-a-dia, o sabor de uma
existência vivida nos limites da simplicidade.
Interessante notar que o aparecimento
dessas duas poetisas na cena literária foi acompanhado de certo
frisson. Aparentemente, por surgirem
de súbito, com uma obra pronta, habitarem cidades do interior, e não
freqüentarem as rodas literárias. Cora Coralina acrescentando a isso a idade
avançada. Mas, embora não explicitamente, havia uma novidade a mais: eram
mulheres que escreviam sobre as realidades do seu cotidiano, um tema que a
maioria das mulheres, sem dúvida, parecia, ou queria esquecer. Cora Coralina de
maneira mais direta, menos literária,
depoimento de mulher que reconhece: “Tudo
em mim foi espontâneo, natural e meu. Só tive na vida uma escola primária de uma
antiga mestra que já tinha sido mestra de minha mãe, mestra Silvina”.[38]
Sua poesia corre leve, sem artifícios, a inspiração pousando como pássaro sobre
imagens perdidas no passado e sobre a realidade das pessoas humildes:
Essa mulher
tem quarentanos de lavadeira.
Doze filhos
crescidos e crescendo.
Viúva naturalmente.
Tranqüila, exata, corajosa.
Temente dos castigos do céu.
Enrodilhada no seu mundo pobre.[39]
Já o cotidiano de Adélia Prado tem
simplicidades muito especiais. Adélia é feiticeira, maga, transformadora. Ah! Os
bules azuis, os peixes no tempero! A sua poesia é como ela mesma que se quer
“mulher do povo, mãe de filhos, Adélia”,
mas é “requintada e esquisita como uma
dama”.[40]
Adélia possui uma varinha mágica:
transforma abóboras em carruagens e o marido nosso-de-todo-dia num eterno
príncipe encantado. Adélia possui também a ironia, a graça de ver as coisas onde
os outros enxergam apenas o vazio. Sua poesia é o prazer da descoberta das
coisas menos escondidas. A gente passa todo dia e nem vê. Adélia esconde a
poesia sob panos de prato e, quando alguém se aproxima, diz matreira: está
quente!
Compreendendo que a poesia não é prato
para todas as fomes, Adélia, com a mais fina ironia, se permite brincar com o
que de mais sério existe em sua/nossa vida: a prática do poema, esta lavoura
secreta, escavar das próprias entranhas, isto que chamam talvez literatura.
O
mais são as mal-traçadas linhas.[41]
[1]
“O Beauté! Monstre énorme.” BAUDELAIRE, Charles. Hymne à la beauté apud
ALMEIDA, Guilherme de. Hino à beleza.
Flores das Flores do mal
de Charles Baudelaire. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1944. p.30-33.
Edição bilíngüe.
[2]
Cf. BAUDELAIRE, Charles. Une charogne apud ALMEIDA, op. cit., p.44-49.
[3]
“Que ton vers soit la bonne aventure / Éparse au vent crispé du matin /
Qui va fleurant la menthe et le thim... / Et tout le reste est
littérature.” VERLAINE, Paul. Art poétique
apud VEIGA, Cláudio (Org.).
Antologia da poesia francesa: do século IX ao século XX. 2. ed.
ampl. Rio de Janeiro; Record; Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo,
1999. p.242-245. Edição bilíngüe. Tradução de Cláudio Veiga.
[4]
BANDEIRA, Itinerário de Pasárgada. In: ______.
Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1974. p.34.
[5]
BANDEIRA, Manuel. Pensão familiar. Ibid., p.204-205.
[6]
ANDRADE, Carlos Drummond de. Girassol. In: ______.
Obra completa. Rio de Janeiro:
Aguilar, 1964. p.91.
[7]
ANDRADE, Carlos Drummond de.
Família. Ibid., p.69.
[8]
“L’ennui d’aller en visite / Avec l’ail nous l’éloignons. / L’élegie au
pleur hésite / Peu si je fends des oignons.” MALLARMÉ, Stéphane.
Le marchand d’ail et d’oignons. In: ______.
Poésies. Paris: Nouvelle Revue
Française, 1913. A tradução é de Augusto de Campos.
[9]
“Yo cuanto existe celebré, cebolla, / pero para mí eres / más hermosa
que un ave / de plumas cegadoras, / eres para mis ojos / globo celeste,
copa de platino, / baile inmóvil / de anémona nevada / y vive la
fragancia de la tierra / en tu naturaleza cristalina.”
NERUDA, Pablo. Oda a la cebolla. In: ______.
Antologia poética. Rio de Janeiro: Sabiá, 1968. p.171-174. Edição
bilíngüe. Tradução de Eliane Zagury.
[10]
“Prodigiosas / tijeras / (parecidas / a pájaros, / a peces), / bruñidas
sois como las armaduras / de la caballería.”
NERUDA, Pablo. Oda a las
tijeras. Ibid., p.205.
[11]
“Tijeras / olorosas / a / mano / de la tía / costurera.” In: NERUDA,
loc. cit.
[12]
“todo fué paño / para las tijeras.”
In: NERUDA, op. cit., p.207.
[13]
MELO NETO, João Cabral de. Num monumento à aspirina. In: ______.
Obra completa. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1994. p.360-361.
[14]
ANDRADE, Carlos Drummond de. A flor e a náusea.
In: ANDRADE, C. D., op. cit.,
p.140.
[15]
ANDRADE, Carlos Drummond de. Mãos dadas.
Ibid., p.111.
[16]
Cf. ANDRADE, Carlos Drummond de. Campo de
flores. Ibid., p.250-251.
[17]
ANDRADE, Carlos Drummond de. Consideração do poema.
Ibid., p.137.
[18]
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Poesia Reunida: 1965-1999. Porto Alegre:
L&PM, 2004, p.159.
[19]
Cf. ANDRADE, Carlos Drummond de.
Nudez. In: ANDRADE, C. D., op.
cit., p.295-296.
[20]
Cf. ANDRADE, Carlos Drummond de. Procura da
poesia. Ibid., p.138-139.
[21]
Cf. MELO NETO, João Cabral. Catar feijão. In: MELO NETO, op. cit.,
p.346-347.
[22]
Cf. MELO NETO, João Cabral. Uma
faca só lâmina. Ibid., p.203-215.
[23]
VERDE, Cesário. O sentimento de um ocidental. In: ______. Obra
completa de Cesário Verde. Lisboa: Portugália, 1964.
[24]
ANDRADE, Mário de. Inspiração. In:______.
Poesias completas. São Paulo: Martins Fontes, 1966. p.32 (Obras
completas de Mário de Andrade, II).
[25]
ANDRADE, Mário de. Paisagem n. 1. Ibid., p.37.
[26]
ANDRADE, Mário de. Poemas da amiga. Ibid., p.208.
[27]
ANDRADE, Mário de. Paisagem n. 4. Ibid., p.51.
[28]
ANDRADE, Mário de. Minha viola bonita. Ibid., p.281.
[29]
ANDRADE, Mário de. Paisagem n. 2.
Ibid., p.46.
[30]
ANDRADE, Mário de.
Tu. Ibid., p.47.
[31]
ANDRADE, Mário de. Quando eu morrer. Ibid., p.300.
[32]
BANDEIRA, Manuel. Evocação do Recife. In: BANDEIRA, op. cit., p.212-214.
[33]
BANDEIRA, Manuel. Poética. Ibid., p.207.
[34]
“Prens l’éloquence et tords-lui son cou!” VERLAINE, Paul. Art poétique
apud VEIGA, op. cit., p.245.
[35]
BANDEIRA, Manuel. Nova poética. In: BANDEIRA, op. cit., p.287.
[36]
“Una poesía impura como un traje, como un cuerpo, con manchas de
nutrición, y actitudes vergonzosas, con arrugas, observaciones, sueños,
vigilia, profecías, declaraciones de amor y de odio, bestias, sacudidas,
idilios, creencias políticas, negaciones, dudas, afirmaciones,
impuestos.” NERUDA, Pablo. Sobre una poesía sin pureza. In: NERUDA, op.
cit., p.90.
[37]
GULLAR, Ferreira. Poema sujo. In: ______.
Toda poesia (1950-1980). Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. p.295-389.
[38]
CORALINA, Cora. Cora Coralina: depoimento e antologia.
Revista Goiana de Artes, UFG,
v.2, n.2, jul./dez. 1981. p.139-177.
[39]
CORALINA, Cora. A lavadeira. In: ______.
Poemas dos becos de Goiás e
estórias mais. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1965.
[40]
PRADO, Adélia. Grande desejo. In: ______.
Bagagem. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979. p.20 (Col.
Poiesis).
[41]
PRADO, Adélia. O que a musa eterna canta. Ibid., p.48.
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