
VENTOS QUE CHEGAM E SE VÃO
Por que escrever ainda mais sobre
o vento? Talvez por estar ele sempre ligado a todos os que, de mais ou
menos perto, viveram ou ainda vivem sentindo, em torno de si, a
natureza.
Encarcerados, este é o termo, em
apartamentos grandes ou pequenos, o homem comum das cidades
dos nossos dias, procura ignorá-lo – dele se protege e chega a
considerá-lo um intruso em
seu cotidiano. Incomoda-lhe o barulho que faz, a assobiar quando se
esgueira pelas frestas das janelas ou lhes força as vidraças; e tenta
impedir-lhe, de todos os jeitos, a entrada em suas casas, casulos de
pedra e cal por ele escolhidos como moradas. Não abandona, contudo, a
vontade de senti-lo, quando, quase sempre com grande sacrifício,
consegue adquirir um refúgio que irá, pomposamente, intitular de “casa
de campo” ou “casa de praia”, levado, talvez,
pela saudade que sente do vento, do ar fresco soprando do mar, a
revolver-lhe as ondas, de um céu estrelado,
vazio, no entanto,
de estrelas, nas cidades
fartamente iluminadas.
De íntimo que foi dos homens, em
longínquo passado, passou o vento a ser,então,
considerado coisa incômoda,
que perturba o dia-a-dia monótono dos moradores dessas cidades –
aglomerações imensas de
prédios que se estendem, metros a fio, ladeando ruas e avenidas, com
escassas praças, em baixo,
negras, cobertas de
asfalto, no alto,
brilhantes, com focos de luz fosforescente
presos nas extremidades de postes altos; ou se empilham,
céu acima, blocos enormes de concreto,
como espectros
sombrios dos quais nem mesmo a arquitetura moderna lhes
consegue tirar o
ar sombreado, por alguns chamados “torres”, “vilas” ou “mansões”,
em tentativa vã de conseguir que lhes seja
restituído o caráter ameno
perdido das antigas moradas.
Os que convivem, porém, com a
natureza, convivem com os ventos e os conhecem bem. Sua presença é
temida quando chegam, por vezes, de forma inesperada, com fúria
desabrida, varando os ares, e tudo destruindo
sobre a terra ou
o mar; sendo, no entanto, por outros aguardados com extremo
carinho, como rescaldo a um
calor que maltrata, carícia
branda, o que lhes dá um ar sagrado; capazes, portanto, de inspirarem
medo ou serem
considerados como um gesto
de amor ou de afago.
Vento é coisa de Deus, dizem os
antigos; assim como o sol, a lua, a chuva; o céu ou o mar. É força que
anima ou castiga, acaricia ou maltrata; que chega para dar vida ou
conduzir à morte; para fazer o bem ou o mal. Amado e ainda
respeitado pelos homens do mar – os que restaram
dos que estendiam, à sua espera, as velas de seus barcos,
para que fossem
levados a transpor
distâncias incríveis, lhes
permitindo alcançarem novos
mundos, talvez encantados; pelos que
viram, também, seus panos rasgados nos naufrágios, por suas
garras afiadas de gigantes, por elas desfeitos como barreiras colocadas
à frente dos seus rumos, sem quererem os ventos
se sentir escravos
dos que pretendessem domá-los.
Os dos tempos de antanho
imaginaram os ventos como deuses.
Principalmente os gregos, aqueles
que nos legaram quase tudo que hoje sabemos sobre nós mesmos, em
um mundo hoje impropriamente chamado de Ocidente –
que veio a ser depois entendido como Europa e América, excluídas,
de modo preconceituoso, por ser consideradas
bárbaras, as terras da África. Quanto aos gregos, não os de hoje,
mas os de outro tempo, os entenderam, levados por sua imaginação
prodigiosa, como estando sob a guarda de um dos deuses nos quais
acreditavam – Eolo, que aparece na Odisséia, como o
senhor dos ventos, e
teria recebido de
Zeus, a incumbência de guardá-los.
Eolo
vivia numa ilha flutuante, com seus filhos e filhas.
Mantinha os ventos encarcerados em um antro profundo, dele os
libertando somente quando julgasse necessário, sendo por eles obedecido,
quando os livrava dos ferros que os aprisionavam; pois fortes como eram,
seria preciso que alguém mais forte os dominasse, impedindo-os de
causarem danos em suas caminhadas.
Desse modo, com o controle que
exercia sobre os ventos, Eolo tinha em suas mãos, os do bom tempo
e os das tempestades. Por isso, os outros deuses e os heróis lhe
solicitaram, muitas vezes, ajuda, como fez Hera, quando lhe pediu
que os ventos impedissem o desembarque nas praias de Tróia,
dos soldados que
chegavam, comandados por
Eneas, em seu socorro; ou quando se dispôs a
atender ao pedido que lhe fez
Ulisses, que o foi visitar em sua ilha da Eólia, para
que os ventos o ajudassem, em sua viagem de volta, a alcançar
Ítaca, sua terra natal. Acontecendo, porém, dessa vez, que lhe
havendo Eolo entregue um odre onde estavam trancados todos os
ventos, alertou-o
para o perigo que correria se os libertasse; o que foi feito, no
entanto, de modo
imprudente, pela tripulação do seu barco, supondo
estar o odre a
guardar tesouros,
provocando, com isso, a
chegada de uma grande tempestade que
ameaçou as
embarcações com o naufrágio.
Por nomes diversos eram os
ventos então chamados. Em seu conjunto, eram os Anemoi, vindos de
cada um dos pontos cardeais, também dos colaterais, e recebiam por isso,
nomes particulares: Boreas
era o que vinha do norte, trazendo consigo o frio do inverno; Notos,
o que chegava do sul, conduzindo as tormentas do fim do verão; Zéfiro,
o do oeste, que vinha acompanhado pelas brisas suaves da primavera;
Euros, o do leste, o único não associado, na Teogonia de
Hesíodo, a alguma das estações do ano. E quando chegaram os latinos, os
Anemoi passaram a ser chamados Venti (ventus);
mas não mudaram seus feitios
nem modos de ação.
Em vários pontos das obras dos
escritores gregos e romanos, os ventos aparecem. Foram citados por
Homero e Hesíodo, este registrando, dos quatro mais importantes, por ele
considerados benéficos, a presença de Tífon
ou Tifeu,
por ele apontado como um vento destrutivo, mas que não
era, propriamente,
um vento, mas um monstro, um ser intermediário entre um homem e
uma fera, filho de Hera, que possuía um corpo alado e olhos que lançavam
chamas, sendo capaz de
desencadear tempestades;
também por Aristóteles; e,
a seguir, também por Ovídio e
Filóstrato, Aristófanes e
Virgílio, em suas obras literárias.
Andronicus, de Ciros, natural da
Macedônia, construiu, em Atenas, na primeira metade do século I a.C., o
edifício que ficou conhecido como “a Torre dos Ventos”, e resiste, ainda
hoje, ao desgaste do tempo. Possuindo cerca de 12m. de altura,
construída em mármore branco pentélico, tendo forma octogonal, erguida
sobre uma base com
três degraus,
apresenta gravadas em relevo sobre a
frisa que no alto a contorna,
em cada uma de suas
oito faces, as figuras dos oito principais ventos, identificados por
seus nomes e atributos – Boreas, o vento do norte, Kaikias,
o do nordeste, Apeliotes, o do leste, Euros, o do sudeste,
Notos, o do sul, Lips, o do sudoeste, Zefiros, o do
oeste e Skiron, o do noroeste (o mesmo Siroco, que
sopra da África) .
Todas essas figuras trazem asas nos ombros e ostentam em suas
vestes e rostos, os atributos de cada um deles. Boreas aparece
coberto por um manto pesado, mostrando-se prestes a soprar atravessando
uma longa
concha encaracolada;
Kaikias traz um
cesto cheio com pequenos
objetos redondos; Apeliotes surge como um jovem coberto por
espécie de cesto cm frutos
e grãos; Euros, como um ancião, fortemente agasalhado,
assim protegido contra os
elementos; Notus
derrama de um vaso que
conduz, chuvas copiosas; Lips aparece como um rapaz
a empurrar pela popa, uma embarcação, parecendo anunciar com esse
gesto, a esperança da chegada de bons ventos para a navegação;
Zefiros surge
também como um jovem,
carregando flores, e, finalmente, Skiros como um homem com
longas barbas,
trazendo nos braços, um
vaso cheio de cinzas e carvões.
Em tempos passados possuiu essa
“torre dos ventos”, em seu interior, um relógio de água (clepsidra),
movido pela água que descia da Acrópole, e ao centro do seu teto,
em formato cônico, a
figura móvel de Tritão,
em bronze, a indicar, ao
apontar, a cada momento, com uma longa vara, para um certo ponto,
a direção em que
estava o vento a soprar.
O hábito de serem, então, os
ventos representados por figuras humanas com asas nos ombros deverá ter
inspirado Ovídio, quando
Madidis
Notus evolat alis,
terribilem
picea tectus caligine vultum:
barba gravis nimbis, canis fluit
unda capillis;
fronte sedent nebulae, rorant
pennaque sinusque.
(Metamorphosis, I, 265-267).
De todos esses ventos, o que
melhor conservou a identidade, foi Zefiro, o vento do oeste, cujo
nome sobreviveu graças à sua aceitação como símbolo amoroso, pelos
autores românticos dos séculos posteriores, por suas características de
aragem, vento suave e brando, sem aspectos trágicos.
Os ventos surgem, freqüentemente, como tema, cenário ou mesmo
como personagem, a partir da literatura européia do século XIX;
incluídos, entre outros, nos “romances do mar”. Victor Hugo, na França,
Joseph Conrad, na Ingalaterra, Henry Melville, nos Estados Unidos,
souberam bem valorizá-los; e, ainda
na prosa inglesa, Emily Brontë,
Não devemos, porém, esquecer
que, antes deles, Camões,
Já, no entanto, a partir do século XVII, haviam os ventos
encontrado na tradição popular dos povos europeus, um novo guardião que
mesmo sem possuir poderes
divinos, teve os da
santidade – Lourenço, diácono
em Roma, transformado em santo pela Igreja de Roma,
após o seu martírio,
em começos da era cristã.
Sobre o seu culto nos países europeus e no Brasil, já escrevemos
várias vezes, pelo
que não voltaremos a ele
referir-nos. Desejo, porém, lembrar, guardar o vento, entre nós, outro
mistério – o da crença popular de que os redemoinhos que se formam sobre
o chão limpo, forçando a se enrolarem,
girando velozmente sobre si mesmas, folhas secas e poeira, são
causados por um ser fantástico
– o saci pererê, que pulando e girando sobre sua única
perna, faz com que eles
apareçam. Sem poder
esquecer haver .Monteiro
Lobato permitido que seu
grande herói infantil –
Pedrinho, aprisionasse um saci, enquanto dançava, invisível, num
redemoinho, cobrindo-o com
uma peneira que
possuía suas duas taquaras mais largas,
trançadas, ao
centro, em forma de cruz.
Dessa captura havendo
nascido uma grande amizade
entre o saci e o menino, tão bela e forte que transformou seu
livro – O Saci (São Paulo: Comp. Editora Nacional, 1934),
num autêntico
poema, nos quadros da literatura infantil brasileira.
________________________
Waldir Freitas Oliveira é
escritor e pertence à Academia de Letras da Bahia.
LEGENDAS
1)
Zéfiro e Flora
(1875). Adolphe-William Bouguereau (
2)
A “Torre dos Ventos”,
Agora Romana (Atenas). Andrônico de Khyrros (Sec. I a.C).
3)
Boreas,
o vento do Norte. Detalhe da “Torre dos Ventos”
4)
Zéfiro,
o vento do Oeste. Detalhe da “Torre dos Ventos”.
5)
Da composição do
célebre quadro de Boticelli – “O nascimento de Venus”
(cerca de 1485), participa Zéfiro, que aparece, ao alto,
à esquerda, abraçado pela ninfa Clori, enviando à deusa seu sopro
fecundador, fazendo com que balancem para um lado, os seus cabelos,
enquanto surge a ninfa, como símbolo do ato físico do amor.
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