
"VOLÚPIAS" DO COLCHÃO
Certo dia, Marisa se deu conta de que
tinha necessidade de comprar um colchão. Estava perto de uma loja na Boca do
Rio, que vendia colchões de qualidade. Acercou-se do vendedor, belo e
corpulento, moreno e sensual, como é do seu agrado.
Ficou deslumbrada com tamanha simpatia e
arriscou saber o preço das mercadorias expostas. Não que estivesse tão
necessitada de adquirir bens de consumo, pois a “crise financeira” está deixando
a classe média sem sono. A compra poderia ser protelada para ocasião mais
conveniente. Afinal, não se tratava de “sangria desatada”. Todavia, como há
muito, não sentia o hálito abafado de um homem, o cheiro de corpo de um macho,
não recebia carícias estimulantes, pensou que aquele galante vendedor poderia
representar uma saída para a sua insatisfação.
Há muito tempo estava sem “assistência técnica”, “sem manutenção” de
qualquer natureza.
Assim imaginando, fantasiou um encontro
amoroso com o sedutor cavalheiro. Estimulada pela lábia do “finório”, decidiu
endividar-se e adquirir um colchão às pressas. Pensou
assim: mais vale um gosto do que dois vinténs.
Continuava embalada pelos elogios do
galã, que ressaltou a beleza e o aspecto jovial do seu rosto, sua aparência
jovem e distinta e partiu para cometer um desatino. Seu único objetivo era
conquistar Alfredo, de olhos mornos e sedutores, que a fizera arder de desejo e
incrementara a vontade de saciar-se.
Por sua vez, o astuto vendedor soube
“dourar a pílula”, elogiando a não mais poder a qualidade do produto que a nova
freguesa queria adquirir. A conversa transcorreu tão animada que, a certa
altura, tomado de entusiasmo, declarou à nova cliente: “se a madame comprar o
colchão, faço questão de levá-lo pessoalmente, colocá-lo sobre a sua cama
solitária e vê-la saciada, vaporosa
e bela.
Não dispondo de talão de cheque, no
momento, Marisa argumentou que preferia comprar o colchão em vários pagamentos,
pois adquiri-lo de uma vez onerava o seu modesto orçamento.
O que está me dizendo, D. Marisa?
Nem pense num disparate desse. Faço-lhe um abatimento razoável e a
senhora não fica nessa agonia de todo mês pagar o débito. Aconselho-a a ir logo
adiante, onde há um caixa rápido, sacar o dinheiro e
efetuar o pagamento à vista,
aproveitando o grande desconto que lhe
concedi.
Convencida de que estava “curtindo uma
nice”, ansiosa compradora, animada com a
“promessa”, dirigiu-se ao tal caixa
eletrônico, dele retirando R$650,00
em dinheiro. Compra que seria
acrescida de umas boas horas de amor, de deleite para o seu insaciado coração.
Sr Alfredo, galante conhecedor de
mulheres, continuou a dizer-lhe palavras amáveis, elogiando-lhe a “frescura da
pele” e a aparência juvenil. Apesar de
já contar com 60 anos, ouviu do vendedor, que lhe fizera a indiscrição de saber
quanto janeiro tinha, que parecia ter
apenas 40 anos. Diante de tal afirmativa, foi aumentando sua auto-estima,
convencendo-se dos seus reais atrativos e da possibilidade de entreter um
tórrido romance dali por diante.
O vendedor que, por sinal, era
proprietário da loja, ofereceu-se para ele próprio fazer a entrega da compra, na
residência da cliente,
porque desejava vê-la, deitar-se no
colchão, com roupas leves e confortáveis .Declarou, sestroso, que queria
vê-la delirar
nas suas
fantasias de mulher romântica e carente
de amor.
No dia seguinte, Marisa faltou ao
trabalho, ansiosa para receber a visita do galante vendedor. Convocou a diarista
para preparar a sua casa, como se fora para um dia de noivado. Foi a salão de
beleza, onde se preparou caprichosamente, fazendo escova no cabelo, burilando as
unhas de esmalte cintilante, depilando-se totalmente, na expectativa do desejado
encontro. Afinal, a aquisição do colchão tinha tudo para
transformar o seu destino solitário.
Para sua surpresa e frustração no dia
seguinte à compra, eis que chega um estranho à sua porta, abraçado ao colchão.
Era um esquálido ancião, desdentado e maltrapilho o encarregado da
“sonhada” entrega.
– Estou aqui a mando de Sr. Alfredo,
para fazer a entrega do colchão de D. Marisa. Faço pequenos “selviços “ para o
Sr. Alfredo, que me deu
“dez real” para eu vir aqui. Oh! disse
Marisa insatisfeita: por que ele mesmo não venho trazer o colchão? Prometeu que
ele mesmo colocaria a mercadoria na minha cama! Ao que o ancião respondeu
categórico: ele disse que eu não entrasse para conversar. Disse que não me
demorasse muito, pois a “velha “ é muito
depressiva e gosta de encompridar a conversa.
Diante desse veredicto, Marisa explodiu
num choro convulso, percebendo que se esvaiam suas esperanças de manter um caso
amoroso com o Sr. Alfredo.
Ludibriada nos seus anseios de mulher,
revoltada com a própria ingenuidade, ainda assim, teve coragem de telefonar para
o sedutor, a fim de manifestar-lhe a sua grande indignação! .
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