
A VOLTA DE ANÍSIO TEIXEIRA
Com muito senso de
oportunidade, a revista
Muito
festejou os 60 anos da Escola Parque. Quanto mais me detive conscientemente
na educação, mais me aproximei do
pensamento de Anísio Spínola Teixeira, de sua inteligência questionadora
e de sua exemplar
humildade. Era impressionante
não somente a sua capacidade de indagação como também de realização. Dizia Jaime
Junqueira Aires que Anísio tinha um braço preso no cérebro.
Na
companhia de Carmen Teixeira, no
Conselho de Educação, intensifiquei
mais ainda a admiração pelas referências constantes às ideias do
irmão.
Pude sentir de perto a capacidade de
questionamento de Anísio quando
falávamos dos dados e dos números do
Plano de Educação da Bahia, na gestão Luiz Navarro de Brito. Muito ao seu modo,
destruindo e ao mesmo tempo reconstruindo, ponderou Anísio, muito criticamente,
sobre o uso relativo que a estatística deveria ter no ensino. Argumentava que
essa disciplina tinha muito mais a ver com a física e outras ciências do que
mesmo com a educação. Chegou mesmo a afirmar, polemicamente, que a estatística
da escola nada dizia da escola. Para tanto argumentou com a incerteza da
natureza, plena como é de curvas, saliências, anfractuosidades, irregularidades,
terminando por afirmar que a natureza é sempre meio peluda. Assim se expressava
e apontava para extremidade da mesa de reunião, mostrando e gesticulando com os
dedos, tentando materializar as irregularidades com as saliências do móvel.
Contrastou o corte reto na madeira com as incertezas do comportamento humano. E
repetia – a natureza é meio peluda, incerta, para permitir uma regularidade
absoluta.
Indo ao Rio
de Janeiro, fui visitá-lo, no seu escritório. Com outros conselheiros de
educação, conversamos largamente sobre o que se passava na Bahia. Indagou como
ia o reitor Roberto Santos à frente da Universidade Federal da Bahia.
Respondemos que estava às voltas com a implantação da reestruturação e mais com
passeatas e protestos dos estudantes, ao tempo em que se
ocupava com a construção das novas instalações,
na Federação. O reitor executava o primeiro acordo do Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID) e ocupava-se com a implantação das novas
unidades acadêmicas, como a Faculdade de Educação. Pois bem, ouvindo tudo e
considerando a proliferação das
Faculdades de Educação pelo Brasil a fora, de repente, sem que esperássemos,
saiu-se Anísio com essa exclamação: “ É outra loucura nacional.”
Atinente às
construções, completou: “ Construir é o que há de mais simples em educação.”
Com esta afirmação, aparentemente
chocante, foi discorrendo, polemizando, contraditando, demolindo e
reedificando com a força gigantesca de sua privilegiada inteligência.Como
querendo dizer que o difícil é organizar e reorganizar escolas e currículos,
formar e habilitar bem os professores.
Naquela
oportunidade, apreciação elogiosa fez ao ensino médico
brasileiro, para ele, o único que alcançou padrão internacional. Saímos
daquele encontro sobejamente impressionados com o poder de sua argumentação.
Em face de
um pedido de apreciação sobre o racionalismo versus o empirismo saxônico,
respondeu-me: “ A lógica não é a de
premissas, mas a de problemas, o pensamento é
problem-solving ... “
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