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AO ALCANCE DISTANTE DOS MEUS BRAÇOS

Waldir Freitas Oliveira

Je me souviens...  eu estava de pé, sobre o rochedo, com o mar a estender-se sem fim, até o horizonte, e abaixo, aos pés da rocha, ao alcance, embora distante, dos meus braços, agitado  em vagas que fortes se atiravam, levadas pelo ímpeto dos ventos, contra o dorso do penhasco. Era um mar profundamente azul e com águas revoltas que se elevavam e se tornavam enormes, parecendo quererem escalar a rocha onde eu estava; e quando a alcançavam se transformavam, após o baque ruidoso, em magníficas nuvens de espumas.

Já o vira assim muitas vezes; tantos haviam sido os instantes em que ali estivera, em claras manhãs, ou em sombrios finais de tarde, ou em noites com a luz da lua a compor o quadro fantástico do oceano em fúria, abaixo dos meus pés, muito em baixo.

 Gostava de vê-lo assim. Ele enchia então meus olhos de beleza, meus ouvidos, de cantos encantados, e eu estendia para frente os meus braços, desejando abraçá-lo. Embora tivesse medo de vir a perder-me entre as suas águas.

Certa vez eu o vi transformar-se num gigante, com sua cabeça coberta por algas verdes e com, braços que tentavam alcançar-me e castigar-me: − o farol era cercado por pedras escuras e enormes, sobre as quais fora um dia erguido por homens do passado. Amontoadas formavam uma imensa platéia, na qual apareciam, vez por outra, lugares que permitiam neles aconchegar-se os que, deles, sozinhos, quisessem deslumbrar-se com a paisagem; ou amantes em busca de um refugio seguro, distante de olhares curiosos, para se beijarem e se abraçarem.

Nem deles estive, uma vez, com Cacilda. Se havia frio nos ventos, queimava os nossos corpos, um calor de fogo. E os nossos lábios se uniam, se esmagavam; nossas bocas se abriam e eram penetradas; e era como se quiséssemos devorar-nos em fome insaciável de amor.  E as minhas mãos apertavam os seus seios; e ela arqueava o corpo, cada vez mais se unindo ao meu, e me pedia, quase em desespero, que eu a penetrasse.

Ouvimos, então, um grito forte e rouco a erguer-se do oceano.  Dele se elevava um rosto com a raiva estampada em seus traços, com olhos lançando raios e mãos com múltiplos dedos que se assemelhavam a garras gigantescas;e o seu dorso alçou-se acima das ondas e pude vê-lo, forte e musculoso, numa aparição fantástica, quando uma onda imensa se quebrou quase aos pés do lugar onde estávamos.

Só então percebi que o ciúme o empolgara; que se excitara, ao ver, de longe, os nossos abraços; e desejara também beijar Cacilda, do mesmo modo como eu a beijava, pretendendo castigar-me pela ousadia de macho e levá-la em seus braços para um leito de areia, no fundo das águas.

Numa outra vez, vi o mar furioso: eu havia construído, em um barranco perto do ponto onde ele costumava chegar, um banco, com tábuas que encontrara, soltas na praia, restos talvez de barcos naufragados. Nele sentávamos, eu e Regina, todas as tardes, a fim de assistir  s lenta chegada da maré de enchente e o também vagaroso escoar das águas da maré de  vazante.

Num mês de março, porém, essas águas avançaram demais. Com um furor imenso, elas se lançaram sobre a costa e destruiram o banco que eu havia ali erguido para vê-las e admirá-las. Não sei se os deuses que as habitam se sentem frustrados com sua condição de sombras sem bocas e braços de verdade; se sofrem não sendo humanos e por desejarem agir como homens; nem se as suas deusas desejariam também ser possuídas, ter os seus corpos etéreos tornados realidade a permitirem que sejam beijados, abraçados e afinal penetrados de verdade. Não sei se são os homens que invejam os deuses; ou se são os deuses que invejam os homens.

Da espécie de cais que havíamos construído, somente haviam restado as pedras sobre as quais fixamos o nosso banco, espalhadas, agora, sobre a areia da praia. E Zeferino, um velho pescador da ilha, ao ver-nos desolados pelo estrago causado pelo mar, aconselhou-nos a construir outro banco, dessa vez mais distante terra a dentro, nos dizendo – “olha bem, doutor, tenha cuidado; o que a maré de março não leva, a de setembro vem buscar! ” Não construímos, porém,  outro banco.  Preferimos, desde então, ir olhar o mar, quando tivéssemos vontade, sentados na areia da praia, em pontos onde as águas das marés nunca haviam chegado.

Agora eu estava, de pé, sobre a rocha, vendo as ondas se desfazerem em espumas sobre o dorso da rocha. A única praia que existia por perto, ficava a cerca de 100 metros de distância. Para alcançá-la, se me atirasse às águas, teria que vencê-la a nado. E sabia que era um mau nadador. Não havia, contudo, qualquer possibilidade de daquelas águas agitadas alguém, regressar à terra, senão buscando aquela praia. Seria impossível aproximar-se dos rochedos sobre os quais as vagas se despedaçavam sem que o corpo de quem tentasse também fosse também feito em pedaços.

Sempre invejara os bons nadadores, aqueles que com braços fortes e corpos lépidos varavam as ondas e pelo mar se iam até lugares distantes onde bem quisessem ir e eu sempre desejei chegar, vencendo o mar. Afugentei, então, de mim, o medo. E me atirei, do alto do rochedo, nas águas embaixo. 

Desci até o fundo, no mergulho ousado. E quando voltei à tona, reconheci o perigo que estava correndo, mas que me dispusera a enfrentar. Havia uma única possibilidade de sobreviver – nadar até a praia. Foi o que comecei a fazer.

A correnteza junto à costa era forte e tornava-se necessário empregar mais esforço para vencê-la, que o por mim esperado. E nadei, então; para fora, o quanto pude, para dela escapar. Meus braços, porém, cansaram. Deixei, então, que o meu corpo boiasse sobre as águas E ao sentir-me mais forte, recomecei a nadar na direção da praia.

Passaram-se horas desde o instane em que me atirei do alto do rochedo, até quando senti sob os pés, a areia do fundo do mar. Lutara contra águas que se me encantavam com a sua beleza, me amedrontavam com a sua força de destruição. Eu já aws vencera, uma vez, enquanto beijava Cacilda, sentados que estávamos sobre as pedras que cercam o farol. Fora, em outra ocasião, por elas vencido, quando o mar destruíu o banco que eu construíra, para nele sentar-me com Regina. Agora, porém, eu o vencera. Eu lhe mostrara que o fraco pode vencer o forte, que o final da luta entre um pigmeu e um gigante não está previamente marcado. David vencera Golias, um homem derrotara um deus; fizera com que ele se curvasse aos seus pés.

Meses depois, o mar veio à forra − Regina levara nos braços um ramo de rosas brancas para atirá-lo nas águas; Chegou ao fim da coroa e parou por um instante. Sentiu algo estranho e deixou-se encantar. Uma onda imensa ergueu-se, envolveu o seu corpo e o carregou para o fundo. Jamais o mar o devolveu; ficou com ele para sempre. O mar levou o que de mais caro eu possuía. Não me considero, porém, um derrotado.

E comecei a construir um barco.

Nele irei navegar, com dois panos suspensos dos seus mastros; e com ele irei desafiar o mar. Quero que, na hora maior da luta, estejam soprando ventos fortes e as ondas da maré de enchente a avançar, imensas, seja em março ou setembro. Desejo, firmemente, encontrá-lo forte, pois a minha vitória visará curvá-lo; vencê-lo. Mesmo sabendo que se não sou mais forte que ele, sou maior que ele em minha vontade. Irei castigá-lo, ferindo o seu orgulho, pelo mal que me fez, destruindo meu banco e por ter levado em seus braços, a minha amada. E se as ondas tragarem, afinal, o meu barco e meu corpo, sobreviverei, com certeza, como duende a pairar sobre as suas águas, continuando a desafiá-las, como alma valente de um náufrago afogado.

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