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A ALMA
DE TODOS NÓS
Obra de transição de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski
(1821-1881), situada entre os romances e contos da juventude e as obras-primas
da maturidade,
Recordações da casa
dos mortos
não é, a rigor, um romance. Pelo menos, não na definição clássica do
termo: falta-lhe – deixando aqui de lado a concepção contemporânea por demais
aberta do romance como um gênero que engloba todos os gêneros – uma trama e uma
intriga – recursos sem os quais o texto torna-se uma "descrição no tempo", mais
próxima de uma crônica do que de uma obra ficcional.
Ao considerá-la um relato baseado na própria experiência de Dostoiévski,
poder-se-ia entendê-la também como memória, ou como uma grande reportagem, no
melhor estilo do jornalismo literário, não fosse o recurso de colocar a
narrativa na perspectiva de um personagem fictício: o ex-proprietário rural
Alexander Petrovitch Goriantchikov, ex-detento de uma colônia prisional em Omsk,
na Sibéria, onde cumpriu pena por dez anos, acusado de matar a esposa por ciúme.
Seria o alter ego do autor, que esteve preso, no mesmo presídio, durante quatro
anos, acusado de atividades subversivas pelo governo do Czar Nicolau I.
Não se sabe as razões que levaram Dostoiévski a optar por uma obra de ficção
quando todo o texto – como mostra a longa carta, enviada por ele ao irmão
Mikhail, após a saída do presídio, e que faz parte do volume agora editado pela
Nova Alexandria – reforça a idéia de que os fatos e os personagens, retratados
na obra, são todos bem reais, embora com alguns disfarces, e que correspondem à
experiência do autor na colônia prisional.
Parece razoável supor que, após sofrer longos 48 meses de trabalhos forçados,
o autor de
Crime e castigo teria adotado o
anteparo da ficção como uma forma de se preservar. Ou para ampliar o alcance da
narrativa, com o recurso da imaginação, não se restringindo ao meramente
acontecido. A opção é acertada, pois se trata de obra magistral, mas que permite
algumas incoerências. Uma delas é o fato de que o perfil do personagem Alexander
Goriantchikov não se coaduna com as características a ele atribuídas pelo
autor-narrador, na introdução da obra. Isto é, se podemos confiar na tradução,
feita diretamente do russo, por Nicolau S. Peticov.
Análise minuciosa
O narrador, que não é nomeado nem identificado, começa o texto descrevendo as
paisagens, gentes e habitações das "regiões distantes da Sibéria", onde vem a
conhecer Goriantchikov. Após descrever o comportamento retraído e recluso deste,
bem como as tentativas frustradas de travar uma relação mais íntima com ele, tem
acesso, após a sua morte, a "uma cesta velha com papéis dele", dentre os quais
estava "um calhamaço cheio da primeira até a página trezentos e tantos com uma
letra miúda". "Certamente", prossegue o narrador, "o autor não quisera ou não
pudera terminar a narrativa que ali se desenvolvia, abordando justamente a vida
que havia levado no presídio durante dez anos".
E acrescenta:
| Naquele texto incompleto se alinhavam
casos bizarros, recordações por vezes cândidas, redigidas em estilo
nervoso, altamente pessoal, também repletas de paroxismos. Reli uma
porção de vezes aquelas memórias e acabei chegando quase à conclusão de
que tal obra devia ter sido escrita em meio a crises e acessos de
alienação mental.
(DOSTOIÉVSKI,
2006,
p. 13) |
São afirmações bastante estranhas, considerando-se que o texto é concluído,
com perfeição, justamente com a saída de Petrovitch do presídio. E que as
características atribuídas ao personagem,
não conferem com o que é mostrado no relato deste. Não há, de forma alguma, pelo
menos na presente tradução, um "estilo nervoso", repleto de "paroxismos". Ao
contrário: o relato de Goriantchikov é exato, ponderado e minuciosamente
analítico, muito semelhante, aliás, ao do próprio Dostoiévski, na carta por ele
enviada ao irmão, conforme dissemos acima.
Afora alguns trechos mais pessoais nos quais Dostoiévski queixa-se do irmão
por este não ter respondido uma carta enviada anteriormente por ele e de alguns
pedidos eloquentes de livros e dinheiro, lá está, no livro e na carta, a
acuidade impressionante do olhar de um observador arguto da alma humana. E, com
nomes trocados, alguns dos mesmos personagens. Exemplo disso é a descrição que
ele faz do tirano-mor do presídio, o Major Krivtzof, em tudo igual ao Major
descrito por Goriantchikov:
Painel analítico
Na fronteira, portanto, do romance, das memórias, da crônica e da reportagem,
o relato pungente da estada de Dostoiévski/Goriantchikov na colônia correcional
poderia perder as melhores qualidades de cada um desses gêneros: do romance, a
possibilidade de mergulhar mais fundo na psicologia de cada um dos personagens,
como faria o autor nos seus romances posteriores; das memórias, a precisão entre
o ocorrido e o narrado; da crônica e da reportagem, o levantamento de
informações que contextualizassem o drama narrado. No entanto, ocorre justamente
o oposto: a caracterização dos personagens (detentos, soldados, carrascos etc.)
é perfeita a partir do olhar externo de um "nobre", deslocado entre eles; os
dados factuais são colhidos no que têm de essencial à narrativa, preservando sua
densidade dramática e sua perenidade. E, na precisão do relato de Goriantchikov,
nada permite afirmar que não seja um relato preciso das condições reais de vida
dos detentos no presídio.
Tudo isso permite ao autor traçar um amplo painel analítico da colônia
prisional e de todos os elementos que a compunham: as instalações do presídio, a
paliçada sombria, os prisioneiros e seus carcereiros, os procedimentos, a
rotina, as sentenças e as execuções, os castigados e seus carrascos, o tédio
opressivo e a dura impossibilidade de ficar sozinho, as relações entre os presos
e o seu estranho código de ética, as festas, as roupas, a alimentação, as
enfermidades, o hospital e os médicos, a agonia e morte dos enfermos, os loucos,
os animais, os primeiros e os últimos dias no presídio, os habitantes dos
povoados próximos, a fuga e a repressão ― e, envolvendo tudo, a paisagem imensa
da Sibéria com seus ciclos rigorosos de estações: o outono, a primavera, os
verões quentes quando ocorre a marcha dos vagabundos, "a serviço do general
Cuco", e os invernos enregelantes com temperaturas de 40° negativos, difíceis de
suportar.
A experiência de Dostoiévski na "Casa dos mortos" é vista pelos críticos como
fundamental na construção dos seus principais romances – os mais profundos da
sua obra, a exemplo de
O idiota,
Crime e castigo e
Os irmãos Karamázov. Não apenas no sentido de
representar os abismos do ódio e do crime, ou do castigo e da redenção – mas de
identificar o que o próprio autor chama de "alma russa". Como diz em sua carta
ao irmão Mikhail:
|
Mesmo na cadeia, entre os
bandidos, eu acabei por descobrir os homens ao longo desses quatro anos.
Acredite: existem naturezas profundas, fortes, maravilhosas, e como é
bom descobrir ouro sob uma casca rude. E não apenas um ou dois, mas
vários. Há os que não podemos deixar de respeitar, e outros
absolutamente admiráveis. [...]
À propos,
quantos tipos de caracteres eu identifiquei na cadeia! Habituei-me a
eles, pois creio que os conheci razoavelmente. Quantas histórias de
errantes e de bandidos, e toda aquela vida negra e miserável, que
preencheriam volumes. Que povo maravilhoso! Em suma, não perdi meu
tempo. Aprendi a conhecer, senão a Rússia, ao menos o seu povo, a
conhecê-lo bem, como talvez poucos
o conheçam. Eis, pois, o meu pequeno orgulho, perdoável, espero.
(DOSTOIÉVSKI, 2006, p. 324) |
Perdoemos o "orgulho" do autor, mas que nos permita uma correção: na sombria
prisão, nos confins da Sibéria, entre personagens terríveis e admiráveis, como
Sirotkin, Gazin, Aristov, Akim Akimitich, Petrov, Miretski, Luka, Isaías
Fomitch, Mickhailkov, ― e até mesmo como os cães Sharik, Kultiapka, os gansos,
uma águia e o bode Vaska, que merecem um capítulo especial – ele iria conhecer
não apenas a "alma russa", mas a alma de todos nós.
REFERÊNCIAS
Leia também:
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Artigo de Aramis Ribeiro Costa publicado em 10/11/2011 - "Discurso do Rio Cefiso"
Artigo de Cyro de Mattos publicado em 18/11/2011 - "A utopia dos palmares"
Artigo de Gláucia Lemos publicado em 24/11/2011 - "As crianças da legião"
Artigo de Joaci Góes publicado em 02/12/2011 - "Incentivo ao crime"
Artigo de Paulo Costa Lima publicado em 09/12/2011 - "Mas ninguém calou..."
Artigo de Edivaldo Boaventura publicado em 18/12/2011 - "A liderança da educação em Feira de Santana"
Artigo de Cyro de Mattos publicado 23/12/2011 - "Na Academia de Letras de Itabuna"
Artigo de Consuelo Pondé de Sena publicado em 30/12/2011 - "Onde está Cristo no Natal dos nossos dias?"
Artigo de Luis Henrique Dias Tavares publicado em 06/01/2012 - "Barcos, saveiros e canoas"