
APRENDENDO A LER
Completei, há relativamente
pouco tempo, oitenta anos. Aprendi a ler e escrever, em 1933, aos quatro
anos; e se hoje sou capaz de entender o que outros escrevem, por esse
mundo afora, em cinco línguas diferentes, isto devo aos que me ensinaram
a reconhecer muito cedo a significação das letras e das palavras.
Foi em casa, cobrindo letras
minúsculas e maiúsculas desenhadas a lápis, com cuidado, sobre um papel
pautado, por minha madrinha de batismo e mãe de criação, que fui
iniciado no mundo fascinante da escrita; e foi com a
Cartilha Ensino Rápido da Leitura,
do Prof.Mariano de Oliveira, que aprendi a reconhecer
minhas cinco primeiras palavras
escritas –
asa,
ema,
ímã,
ovo e
uva; cada uma delas começando
com uma das vogais;
dali tendo partido para a
leitura plena.
Lembro que nesta
Cartilha, ao seu final, havia
uma longa estória, na qual os principais personagens eram alguns
pintinhos. Esforço-me para lembrar o que ela contava; mas mesmo
vasculhando a memória, não consigo ir além das figuras meio azuladas dos
pintinhos que a ilustravam.
A primeira edição dessa
Cartilha circulou
Quanto ao seu autor, era natural
de Piracicaba, onde nasceu a 26 de maio de 1869, havendo se completado,
portanto, no ano de 2009, 140 anos desde o seu nascimento. Esperávamos,
então, que, ao menos os paulistas, se lembrassem de homenageá-lo nessa
data. Tal, infelizmente, não aconteceu.
Um ano antes da edição do
Ensino Rápido, em 1916, havia
ele publicado, pela mesma editora, a
Nova Cartilha
analytico-synthetica, que continuou sendo publicada até 1955, quando
alcançou sua l85.ª edição, sem que tivesse, no entanto, obtido a mesma
aceitação da Cartilha Ensino
Rápido, da qual foi considerada uma seqüência natural.
Permitindo-nos, no entanto, o autor, saber, pela dedicatória que
colocou na folha de rosto da
Cartilha analytico-synthetica, o nome e a profissão de sua mãe –
Corina Eugênia de Oliveira, professora.
Mariano de Oliveira diplomou-se
em 1888, pela Escola Normal de São Paulo; exerceu, a seguir, a partir de
data que não consegui apurar, o cargo de Inspetor Escolar, havendo
redigido e publicado, em 1911, em parceria com Miguel Carneiro, J. Pinto
e Silva e Theodoro de Morais, em edição de Siqueira, Nagel & Cia., a
monografia Como ensinar leitura e
linguagem nos diversos annos do curso preliminar; e em 1914,
publicou, em parceria com Ramon Roca Dordal e Arnaldo de Oliveira
Barreto o trabalho Instrucções
praticas para o ensino da leitura pelo methodo analytico - Modelos de
lições, na
Revista do Ensino, periódico
que figurou, em sua primeira fase (1902-1910), como “Órgão da Associação
Beneficente do Professorado Público”, e passou a constituir-se, a partir
de 1911, como órgão oficial da Diretoria da Instrução Pública do Estado
de São Paulo, então sob a
direção de Oscar Thompson; havendo sido esse trabalho acrescentado, em
linguagem adaptada, como anexo, a uma das edições subseqüentes
da
Cartilha Analytica de autoria
de Arnaldo de Oliveira Barreto, publicada, pela primeira vez, no Rio de
Janeiro, provavelmente em 1909, pela Livraria Francisco Alves.
Em 1916, portanto, como registramos, já publicara Mariano de
Oliveira, pela Weiszflog Irmãos, sua
Nova Cartilha
analytico-synthetica e em 1917, sua famosa
Cartilha Ensino Rápido da Leitura;
mas dentre as publicações dessa editora, que já então se transformara em
“Companhia Melhoramentos de São Paulo”, figura, como informa
registro acrescentado ao final
do livro Leitura III,
de Erasmo Braga, em sua edição de 1934, ao lado do anúncio
desses dois livros, o de um outro, também
de autoria de Mariano de
Oliveira – Páginas Infantis,
ali anunciado como – “uma
série de lições muito bem graduadas e coordenadas que facilitam
sobremaneira o desenvolvimento da leitura corrente e encerra eficazmente
os primeiros passos da infância na leitura”. Não conseguimos, contudo,
obter um seu exemplar nem identificar o ano de sua publicação.
Em maio de 1917, foi Mariano de Oliveira nomeado Diretor da
Escola Normal de São Carlos, em cuja direção permaneceu até abril de
1922, quando requereu sua aposentadoria; sem termos, contudo, encontrado
referências que nos permitissem identificar a data do seu falecimento.
As suas duas cartilhas podem ser
consideradas como as de maior notoriedade no país, na primeira metade do
século passado; ainda que disputando a primazia, com a
Cartilha Analytica, de
Arnaldo de Oliveira Barreto, que teria sido o seu maior concorrente como
autor, neste campo de atividade; acreditando, no entanto, terem sido as
cartilhas de Mariano de Oliveira, os principais instrumentos de
aprendizagem da leitura, por gerações contínuas
da classe média urbana em vários
estados do Brasil.
Faz-nos falta, na Bahia, terra
notabilizada pela presença e atuação de professores primários renomados,
atuando, principalmente em sua capital, um centro de documentação
semelhante ao “Centro de Referência
BIBLIOGRAFIA
BERNARDES, Vanessa Cuba. “Um
estudo sobre Cartilha Analytica
(190?) de Arnaldo de Oliveira Barreto”. Download disponível in
vanessa_cubabernardes@yahoo.com.br (
Resumo de Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia).-
Faculdade de Filosofia e Ciências. Campus de Marília.
Universidade Estadual Paulista,
Marília, SP)
BUFFA, Ester e NOSELLA, Paolo.
Schola Mater
– a antiga Escola Normal de São
Carlos. EdUFSCar: São Carlos, SP, 2002.
CALMON, Pedro.
A Bala de ouro. Rio de
Janeiro: José Olympio Editora, 1947.
NOSELLA, Paolo e BUFFA, Ester.
Opus cit..
SOBRAL, Patrícia de Oliveira.
“Um estudo sobre Cartilha
Analytico-Synthetica (1916), de Mariano de Oliveira”. Download
disponível in
posobral@yahoo.com.br. (Resumo de Trabalho de Conclusão de Curso
(Licenciatura em Pedagogia – Faculdade de Filosofia e Ciências. Campus
de Marília. Universidade Estadual Paulista. Marília, SP).
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