
ARTE DO EFEITO ÚNICO
Gênero de difícil
definição, o conto tem sofrido grandes transformações, mas mantém o interesse
dos leitores neste início do século 21.
Não
poucos autores dedicaram-se à ingrata tarefa de definir o conto, esse
gênero multifacetado, capaz de adotar, com familiaridade, os disfarces
da crônica, da novela, da fábula, da poesia, das memórias e até do
romance. Sherwood Anderson disse, de forma perspicaz, que o mais
importante, no conto, não é o que as personagens estão a dizer, senão o
que estão a pensar – o que aponta para a introspecção que se aguçou a
partir dos primeiros 25 anos do século passado. O uruguaio Horacio
Quiroga contribuiu para a definição do gênero com seu Decálogo do
perfeito contista, no qual destaca o ardor (jamais a emoção)
necessário ao contista para o sucesso nesta arte, vista como um cume
inacessível. Machado de Assis, não menos genial contista do que
romancista, assinalou com habitual ironia a principal vantagem de um
conto medíocre sobre um romance medíocre: sua brevidade.
Para Hélio Pólvora, autor de
Itinerários
do conto: interfaces críticas e teóricas da moderna short-story,
do qual tirei as citações acima, um conto "pode ter meia página, uma
página ou trinta mil palavras, como
Julio Cortázar, no ensaio Alguns aspectos do
conto, diz que este parte da
noção de
limite, "a ponto de passar a receber na França, quando passa
de vinte páginas, o nome de nouvelle, gênero equilibrado entre
o conto e o romance propriamente dito". O que não o impede de incluir,
em sua coleção de preferidos,
A morte de
Ivan Ilitch, de Tolstói, na nossa modesta opinião
mais precisamente uma novela, aliás, uma das grandes da literatura
ocidental, ao lado, por exemplo, de
Bartleby, o escrivão, de Melville, e
A metamorfose, de Kafka. Tenho em mãos uma edição da
editora Alhambra, de 1981, com 77 páginas,
Noção de limite
Mais do que o tamanho do texto, embora
inevitavelmente associado a este, as duas marcas principais do gênero
são a intensidade e a densidade. Linguagem que prima pela concisão. A
idéia de "tomada" da realidade converge para o conceito cortazariano do
conto como fotografia, em relação ao do romance como filme. O romance e
o conto, diz Cortázar,
| [...] podem ser comparados analogicamente com
o cinema e a fotografia, posto que um filme é em princípio uma
‘ordem aberta', romanesca, ao passo que uma fotografia
bem-sucedida pressupõe uma rígida limitação prévia, imposta em
parte pelo reduzido campo que a câmara abarca e pela maneira
como o fotógrafo utiliza esteticamente tal limitação. (CORTÁZAR,
1999) |
Moldado pela "noção de limite", o conto, tal como
a fotografia, cede a esse limite para encontrar, adiante, a síntese que
possibilita uma transcendência e, portanto, a expressão de uma realidade
muito mais ampla do que a captada pela câmera ou pela cena refletida
no texto. Um bom conto não se esgota em si mesmo como simples registro
factual ou naturalista de um acontecimento. Ou como mera conceituação da
realidade. Antes, ilumina a realidade, como síntese desta. Diz Cortázar:
|
É preciso chegar a uma idéia viva do que é o conto, e isso é
sempre difícil na medida em que as idéias tendem ao abstrato, a
desvitalizar seu conteúdo, ao passo que a vida rejeita
angustiada o laço que a conceituação quer lhe colocar para
fixá-la e categorizá-la. Mas, se não possuirmos uma idéia viva
do que é o conto, teremos perdido nosso tempo, pois um conto, em
última instância, se desloca no plano humano em que a vida e a
expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me
permitem o termo; e o resultado desta batalha é o próprio conto,
uma síntese viva e ao mesmo tempo uma vida sintetizada, algo
como o tremor de água dentro de um cristal, a fugacidade numa
permanência. Somente com imagens pode-se transmitir a alquimia
secreta que explica a ressonância profunda que um grande conto
tem em nós, assim como explica por que existem muito poucos
contos verdadeiramente grandes. (CORTÁZAR,
1999, p. 350) |
A definição do gênero, portanto, está intimamente
associada à sua excelência. Para entendê-lo há de se procurar suas
características definidoras nos textos que se destacam entre os
melhores. Para se compreender bem as noções de densidade e de
intensidade, que lhe fazem jus, há de se ler um Bábel, um Hoffman, um
Borges, um Bradbury, um Tolstói, um Maupassant, um Kafka, um Machado, um
Graciliano, um Kipling, um Hesse, um Guimarães, um London, uma Clarice,
um Merimée. Além, é claro, do próprio Cortázar, e dos grandes mestres
definidores do gênero: Edgar Allan Poe e Anton Tchekhov. Mas podemos
também encontrar essas características em nomes que, embora consagrados,
ainda permanecem vivos ou com memória recente entre nós, portanto, mais
sensíveis às oscilações do gosto e dos critérios valorativos da crítica.
De cabeça, posso citar meia-dúzia de obras modelares do gênero, tais
como Os cavalinhos de Platiplanto, de José J. Veiga; Venha
ver o pôr-do-sol, de Lygia Fagundes Telles; Mar de Azov,
de Hélio Pólvora; A maior ponte do mundo, de Domingos
Pellegrini; Cação da areia, de Vasconcelos Maia; Fazendo a
barba, de Luiz Vilela. Ou, mesmo, tomando como referência a idéia
do anti-conto, construído sobre a perspectiva da falta de assunto, mas
que, mesmo assim, mantém, paradoxalmente, a intensidade necessária, o
Conto (não-conto), de Sérgio Sant'Anna.
Tensão e unidade
Vale lembrar, aqui, o conceito poundiano de
literatura como "linguagem carregada de significado" e de grande
literatura como "linguagem carregada de significado até o máximo grau
possível". Neste caso, mais próxima da poesia, sobretudo da poesia
lírica, por suas características metafóricas polivalentes. Mas que pode
alcançar, também, na prosa, amplitudes memoráveis. O contista, diz
Alfredo Bosi, "é um pescador de momentos singulares cheios de
significação".
Para Cortázar, um conto é tanto mais significativo
quanto mantenha a tensão necessária à história curta ― tensão esta que
resulta do tratamento que é dado ao tema. Um conto, diz ele:
| Não é ruim pelo tema, porque em literatura não há temas bons ou temas
ruins, há apenas um tratamento bom ou ruim do tema. Tampouco é
ruim porque os personagens careçam de interesse, já que até uma
pedra é interessante quando dela se ocupam um Henry James ou um
Franz Kafka. Um conto é ruim quando é escrito sem a tensão que
deve se manifestar desde as primeiras palavras ou as primeiras
cenas. E assim podemos adiantar que as noções de significado, de
intensidade e de tensão irão nos permitir [...] abordar melhor a
estrutura mesma do conto.
(CORTAZAR, 1999, p. 353) |
Aqui se encontra a noção de tensão com a nem
sempre considerada, como vimos anteriormente, necessidade de um reduzido
número de páginas. Vamos convir que seja mais fácil manter a tensão numa
história (ou não-história) de meia, dez ou vinte páginas, do que num
calhamaço de oitocentas; que a mantenha com três ou quatro personagens,
num determinado espaço, do que com as centenas que povoam, por exemplo,
os romances de Balzac, com diversos núcleos de conflito, que se
desdobram em outros e outros, em numerosos cenários (exteriores ou
interiores; reais ou imaginários). Daí decorre, portanto, a
definição de Edgar Allan Poe, do efeito único proporcionado pela
história curta, que deve ser lida de uma só sentada; e a de Cortázar, na
conhecida analogia do conto com o boxe:
|
Um escritor argentino muito amigo do boxe me diz que, no combate
que se dá entre um texto apaixonante e seu leitor, o romance
sempre ganha por pontos, ao passo que o conto precisa ganhar por
nocaute. Isto é verdade, pois o romance acumula progressivamente
seus efeitos no leitor, enquanto um bom conto é incisivo,
mordaz, sem quartel desde as primeiras frases.
(CORTAZAR, 1999, p. 351) |
Mas, adverte o autor, não se deve entender isso
demasiado literalmente, "porque o bom contista é um boxeador muito
astuto e vários dos seus golpes iniciais podem parecer pouco eficazes
quando, na realidade, já estão minando as resistências mais sólidas do
adversário".
Daí se infere outra característica marcante do
gênero, sua pedra de toque: a introdução. Introdução esta que já
condiciona o desfecho. De onde nasce a concepção tchekhoviana do conto
como um sistema "fechado", tal como um soneto. A isto se aliando uma
total economia de meios e uma rigorosa necessidade funcional de todos os
seus elementos. Diz Tchekhov, não sem algum exagero, que "se, no
primeiro capítulo, se disser que da parede pende uma espingarda, no
capítulo segundo ou terceiro alguém terá que dispará-la".
Tal unidade é também destacada por Poe:
|
Um escritor hábil construiu um conto. Se foi sábio, não afeiçoou
os seus pensamentos para acomodar os seus incidentes, mas, tendo
concebido com zelo deliberado um certo efeito único ou singular
para manifestá-lo, ele inventará incidentes tais e combinará
eventos tais que melhor o ajudem a estabelecer esse efeito
preconcebido. Se a sua primeira frase não tender à exposição
desse efeito, ele já falhou no primeiro passo. Na composição
toda, não deve estar escrita nenhuma palavra cuja tendência,
direta ou indireta, não se ponha em função de um desígnio
preestabelecido.
(GRAHAM'S
MAGAZINE, 1842 apud BOSI, 1975) |
Uma definição instigante é dada pelo escritor argentino
Ricardo Piglia, que também se debruçou sobre o
gênero, para analisá-lo. Para ele,
a intriga do conto deve se oferecer como um paradoxo que se instaura na
tensão entre duas histórias: uma visível apresentada em primeiro plano e
uma outra, secreta, narrada sempre de um modo elíptico e fragmentário. "O efeito de surpresa se produz quando a história secreta
aparece na superfície". E acrescenta, mais adiante:
| O conto é um relato que encerra um relato secreto. Não se trata de um
sentido oculto que dependa de uma interpretação: o enigma não é
outra coisa senão uma história contada de um modo enigmático. A
estratégia do relato é posta a serviço dessa narração cifrada.
Como contar uma história enquanto se conta outra? Essa pergunta
sintetiza os problemas técnicos do conto.
(PIGLIA, 2000, p. 90-91) |
Relativização
Mesmo considerando todas essas definições, há de
se abrir espaço para o insight, para uma execução do conto
menos condicionada a regras e amarras racionalistas. É óbvio que, por
limitações de tamanho e por exigência de uma maior intensidade, o gênero
é menos afeito que o romance ao fluxo da consciência tão ao gosto dos
surrealistas. Mas Virgínia Woolf e Clarice Lispector, James Joyce e
Katherine Mansfield descortinaram, também no conto, novas paisagens e
atmosferas poéticas, operando um deslocamento que, desde o século 19,
vem ocorrendo do realismo, com a descrição pretensamente objetiva de
fatos que acontecem lá fora, no mundo externo, material,
testemunhados por um observador imparcial, para o mundo interior, de
acontecimentos que ocorrem ou se refletem na consciência – e, mais além,
no inconsciente: no universo rarefeito dos sonhos, dos delírios, das
alucinações, da fragmentação da personalidade.
Tomando como balizas a contística de Maupassant
(linear, anedótica e episódica) e de Tchekhov (de atmosfera, na qual o
silêncio, o que não é dito, tem função essencial no efeito pretendido),
o conto moderno ganhou, no século 20, um tom intimista, um encantamento
verbal, também devedor da prosa poética de Rimbaud. Dessas vertentes,
muitas vezes cruzadas e amalgamadas, desenvolveram-se estilos diversos,
aos quais se agregam nomes como os de Hemingway, Juan Rulfo, Raymond
Carver, O. Henry, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Lygia Fagundes
Telles.
À relativização da história e da realidade, a
partir de múltiplos pontos de vista, soma-se o
desenraizamento transcendental,
a perda da busca de um sentido e de uma utopia, o que se reflete no tom
de paródia, na negação de grandes projetos políticos, sociais e
estéticos do modernismo; na preferência por pequenas questões do
cotidiano; na aproximação com outras linguagens, a exemplo do cinema,
dos quadrinhos, da publicidade. A supervalorização da linguagem leva,
nos extremos do pós-estruturalismo, à quebra da ligação original entre o
signo e seu objeto, dando-se as costas, conforme diz Jacques Derrida,
"ao exterior referencial da linguagem", ao mundo das coisas. É quando a
linguagem se posiciona como realidade autônoma, e as possibilidades de
interpretação se multiplicam no vazio criado pela ausência da autoridade
– inclusive a do próprio autor em relação à sua obra.
A consequência disso é um distanciamento ainda
maior do conto episódico, segundo o modelo maupassantiano, da história
com começo, meio e fim, com tensão crescente, estrutura fechada e final
inusitado. Exageros nesse sentido têm provocado uma limitação do gênero,
considerando que existem grandes contos em qualquer vertente, não
havendo, necessariamente, a superioridade de uma em relação à outra. O
que importa realmente é o talento do escritor. Aliás, vale assinalar,
entre muitos dos que pretendem estar na vanguarda do gênero, a produção
enfadonha de rococós lingüísticos sem transcendência, sem epifania, sem
raízes, sem verticalidade, que compõem quase sempre uma escrita anêmica,
narcisista, um cinismo pseudotransgressor, um experimentalismo verbal
inconsistente, voltado para o próprio umbigo.
De certa forma, o mesmo ocorre com outra vertente:
a da literatura urbana neonaturalista, limitada pelo registro factual,
documental e jornalístico, mas carente das raízes profundas que
possibilitaram, num passado não muito distante, a representação de uma
realidade humana densa. Falta, hoje, não apenas no Brasil,
"o subsolo humano comum onde a criação artística mergulha suas
raízes à procura do alimento vitalizante", como escreveu Aníbal Machado
a respeito do conto russo do século 19.
Mas o conto resiste e mostra vigor, conforme
demonstram as inúmeras coletâneas e antologias que vêm sendo editadas.
Já se pode enumerar uma dezena de bons e, mesmo, excelentes contistas,
dentre autores surgidos nas últimas duas décadas, de norte a sul do
país, conforme têm demonstrado antologias organizadas por Nelson de
Oliveira, Luiz Ruffato, Rosel Soares e Rinaldo de Fernandes.
Numa época de extremo relativismo, talvez seja
anacrônico esperar grandeza nas artes e na literatura, quando os
próprios parâmetros de avaliação são desconstruídos irremediavelmente.
Talvez estejamos caminhando para critérios individuais do que é
efetivamente o melhor. Com o desenvolvimento das tecnologias digitais,
cada leitor poderá editar suas próprias antologias. Se me for
possibilitado tal privilégio, não deixarei de reverenciar títulos que
marcaram profundamente a minha formação de leitor, a exemplo de O
duelo, de Tchekhov; O escaravelho de ouro, de Poe; O
homem da areia, de Hoffmann; O sinaleiro, de Dickens;
Terra de cego, de H. G. Wells; A vênus de Ille, de Prósper
Merimée; Os construtores de pontes, de Kipling; A morte do
leão, de Henry James; Um artista da fome, de Kafka; As
ruínas circulares, de Borges; A ilha ao meio-dia, de
Cortázar; O planalto em chamas, de Juan Rulfo; Chuva,
de Somerset Maugham; Os sete
enforcados, de Leonid Andrêiev;
Vinte e seis e uma, de Máximo
Gorki; A sirene no nevoeiro, de Ray Bradbury....
No Brasil, limitando-me a autores já mortos, não
poderia esquecer títulos como: A missa do galo, de Machado de
Assis; Vestida de preto, de Mário de Andrade; Acudiram três
cavalheiros, de Marques Rebelo; Cheia grande, de D.
Martins de Oliveira; A hora e a vez de Augusto Matraga, de
Guimarães Rosa; Flor, telefone, moça, de Carlos Drummond de
Andrade; Viagem aos seios de Duília, de Alcântara Machado;
Baleia, de Graciliano Ramos; O pirotécnico Zacarias, de
Murilo Rubião; Laços de família, de Clarice Lispector;
Armado cavaleiro o audaz motoqueiro, de Herberto Sales;
Afinação da arte de chutar tampinhas, de João Antônio; Sargento
Garcia, de Caio Fernando Abreu...
A lista se estenderia muito mais se não tomássemos
aqui o modelo de conto como gênero autônomo, formado a partir do século
19. Nesse caso, não deixaria de citar, sob a rubrica de apólogos,
fábulas, novelas e alegorias, as histórias das
Mil e uma
noites, das
Novelas exemplares, de
Cervantes, dos Irmãos Grimm, de Voltaire (Zadig,
Micrômegas) e tantos outros textos que enobrecem a arte de contar.
"Façamos sempre contos",
escreveu Diderot, pois, "o tempo
passa e o conto da vida se completa sem disso darmos conta".
Rascunho,
mar. 2007
REFERÊNCIAS
BOSI, Alfredo (Org.). O conto brasileiro contemporâneo. São
Paulo: Cultrix, 1975.
BRAGA, Rubem (Org.). O livro de ouro dos
contos russos. Rio de Janeiro: Ediouro, [19--].
COMPAGNON, Antoine. O demônio da teoria:
literatura e
senso comum. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
CORTÁZAR, Julio.
Obra crítica 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1999.
CUNHA, Fausto. Situações da ficção brasileira.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
MOISÉS,
Massaud. Dicionário de termos literários. 7. ed. São Paulo:
Cultrix, 1995.
PIGLIA, Ricardo. ,
Formas breves. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000
PÓLVORA, Hélio. Itinerários do conto:
interfaces
críticas e teóricas da moderna short story. Ilhéus: Editus,
2002.
POUND, Ezra. ABC da literatura. São
Paulo: Cultrix, 1970.
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