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O ÁSPERO OFÍCIO
Tomo por empréstimo ao escritor Almeida Fischer, um
dos introdutores do conto fantástico no Brasil, a expressão “áspero
ofício” com que ele designou a sua atividade de crítico literário
reunida em seis ou sete volumes publicados. Tempos bons, aqueles em que
havia espaço nos jornais e revistas para a crítica, seja o simples
book review, seja o ensaio de análise mais densa. Hoje em dia,
subsiste este último, notadamente em revistas de pouca circulação e,
sobretudo, vinculados a departamentos de letras das universidades.
Decerto a crítica era um “áspero ofício”, tanto
assim que seus cultores principais foram desaparecendo um a um. Mas eu
me pergunto muitas vezes se o ofício de fato áspero, o mais áspero de
todos esses que têm a ver com a escrita, não será o do escritor. Por
escritor eu me refiro — e me referirei doravante — ao criador, ou seja,
ao ficcionista, ao prosador.
Há razões para assim pensar.
Segundo Flannery O´Connor, ficcionista do sul dos
Estados Unidos, daquele deep south em que William Faulkner,
Carson McCullers e outros mergulharam até o pescoço, o escritor deverá
escrever sobre o que conhece — e mais exatamente sobre o que viu e
sentiu, sobre fatos, acontecimentos, ideias e tormentos de espírito que
lhe feriram a sensibilidade. Isso me leva a concluir que o escritor está
aberto de forma permanente a dores, sejam suas, sejam dores alheias. Ele
é um sismógrafo que mede todos os tremores pessoais, familiares e
comunitários; recolhe tudo, registra tudo. É um receptáculo feroz de
ânsias e contratempos, e porventura de êxtases, e também um transmissor,
através da sua escrita.
Quero dizer: o escritor estaria fadado a um
sofrimento duplo. Aliás, o grande crítico americano Edmund Wilson
expôs essa idéia, no livro The Wound and the Bow (A Ferida e o
Arco). Partiu ele da afirmação de Sigmund Freud, pela qual todos nós,
seres humanos, somos mais ou menos enfermos, com a diferença de que o
artista encontra na obra de imaginação o bálsamo com que aliviar a sua
neurose. Já é um consolo.
Wilson ilustrou a sua tese, se assim podemos
denominá-la, com a exumação do herói grego Filoctetes, que tinha uma
ferida no tornozelo, resultado da picada de uma serpente, ao que consta.
A ferida era incurável, por desígnio dos maus fados, exalava odor
purulento e, por isso, os combatentes gregos abandonaram Filoctetes numa
ilha deserta. Ainda bem que Héracles, ou Hércules, deixou-lhe o seu arco
mágico. Com ele, o exilado abatia aves que passavam em voo rasante sobre
a ilha. Teria durado anos a sua reclusão, inteiramente a sós com a
ferida aberta, se não o resgatassem e o levassem à guerra. Desconfio que
ele jamais curou a ferida; o mais certo é que tenha feito muitas feridas
letais nos guerreiros adversários.
Essa metáfora da ferida sempre a sangrar me
fascina. Ela teria levado Franz Kafka — precursor, no século 20, da
insegurança e desespero que hoje sentimos — a confessar num dos seus
vários Diários: “Ninguém pode fazer nada por mim. Ninguém.
Absolutamente ninguém”. E quem o leu haverá de lembrar a fábula sobre
aquele homem inerte, o homem do século 20, o homem do século 21,
desamparado, incapaz de uma reação, que vê uma ave de rapina
aproximar-se, bicar-lhe os pés, subir pelo corpo e, enfiando-se boca a
baixo, sugar-lhe enfim todo o hálito vital.
A julgar por esta terrível imagem kafkiana, o homem
contemporâneo é um Prometeu acorrentado que jamais se livrará das
correntes e terá o fígado feito em pedaços.
Mas não vim aqui endeusar o escritor. Sou um deles,
por sinal bastante inquieto e atormentado. O escritor que se preza cuida
da sua ferida com os bálsamos e unguentos de que dispõe. Não pede
piedade nem misericórdia. Talvez deseje secretamente ou abertamente
reconhecimento. No entanto, se este não vier, e raras vezes vem, pouco
se lhe dá, pois o que ele quer mesmo, com todas as fibras, é ser lido.
Dêem-lhe um trono e quinhentos leitores; os
leitores imaginados por Anton Tchékhov. Ou os cem leitores a que se
referiu Stendhal. Ou, melhor ainda, os cinco leitores, se tanto,
visualizados por Brás Cubas, personagem de Machado de Assis. O escritor
de verdade preferirá os leitores ao trono. Porque esse escritor escreve
basicamente, fundamentalmente, visceralmente para um leitor vago, de
feições indistintas — que provavelmente é ele próprio.
Um escritor legítimo, desses que, como dizia
Ernest Hemingway, andam à caça, não de leões, senão da verdade — aquela
verdade refratada no ficcionismo — dificilmente escreverá à toa, por
gosto. Escreve sempre por impulso, por necessidade de buscar-se, de se
rever, de se encontrar, quer em si mesmo, quer nos outros. Está à
procura de um lugar no mundo, onde, em relativa paz, possa meditar
acerca do sentido da vida, se tal sentido existe ou não, sobre a
finitude dos corpos e das crenças.
Quando penso nas asperezas do ofício de escrever
ficções, entro a dialogar com os fantasmas das minhas paixões
literárias. No Brasil, elas são Machado de Assis e Graciliano Ramos. Na
America Latina, Julio Cortázar, García Márquez e Juan Rulfo; nos Estados
Unidos, Wiliam Faulkner e aquela Sra. McCullers que tinha o “coração
hipotecado”. Se considerar a literatura de todos os tempos, o numero de
mestres cresce. Sei que posso me expor ao riso, mas acreditem que também
fugi de casa, de Iasnaia Poliana, com Liev Tolstói octogenário, a buscar
um canto sossegado para pensar e porventura ainda escrever, sem a
tempestade doméstica provocada pela condessa. Saibam que, de certa
forma, guardadas as naturais diferenças e distâncias de talento, que são
abismais, também levo a vida a escrever, não apenas livros — mas
escrever para jornais e por encomenda, como escritor de aluguel
empenhado em manter a família.
Não há desdouro nisso. O nosso Machado também foi
escritor de aluguel. Desde o início, no entanto, soube conciliar os
deveres de locatário com as artes da escrita que dele fizeram locador
eterno.
E o que me dizem de Flaubert? Este, apesar de ser
“un homme-plume”, como se descreveu em uma de suas cartas, teve o
conforto de contar com propícias condições de trabalho: a mansão paterna
em Croisset, o patrocínio da mãe endinheirada, o pequeno círculo de
amigos fieis. Ainda assim, escreveu, em parte, para livrar-se da doença,
para asfixiar o tédio, para arreliar a estúpida sociedade burguesa de
sua época. Escreveu ficção com o máximo de densidade humana, na
tentativa de não soçobrar, embora levado a tomar arsênico quando sua
personagem Emma envenenou-se.
Explico-me. Há escritores que se isolam
completamente, que criam as suas próprias catacumbas, movidos pela
paixão de escrever, em princípio, para si mesmos e para o seu deleitável
martírio.
Paixão idêntica atormentou Flaubert. Alguns
críticos admitem que ele teria adquirido a sua doença (epilepsia ou algo
parecido) apenas para se pôr à sombra protetora da mãe viúva, e tentar a
aventura do romance “científico” – aquele que o autor escreve sem, nas
aparências, dele participar. A obra impessoal, a criação desenraizada
da formação psiconeurológica de seus autores. Flaubert confessou em
carta a uma amiga: “O único meio de suportar a existência é se atordoar
na literatura como em uma orgia perpétua”. O peruano Mario Vargas Llosa,
há pouco galardoado com o Nobel de Literatura, tirou daí o título (A
Orgia Perpétua) de uma notável e fremente interpretação de Madame
Bovary – um livro inteiro, com cerca de duzentas páginas, e
muito mais esclarecedor e apaixonante do que os três grossos volumes (L´Idiot
de la famille) em que Sartre tentou aproximar Flaubert da ideologia
do existencialismo.
A declaração famosa de Flaubert, “Madame Bovary,
c´est moi”, empalidece diante de outra: sua empatia com Emma era tal
que, ao descrever a cena do envenenamento, ele sentiu o gosto amargo do
arsênico, o fogo devorador, e teve ânsias de vômito. As
excentricidades vão além. Em carta a um amigo poeta, pregou a castidade
durante a escrita: convinha-lhe poupar energias que a obra reclamava.
Nas agonias de sua criação torturante, Flaubert evitava encontros em
Rouen com Louise Colet; preferia masturbar-se. É receita que não
recomendo.
Havia em Croisset uma alameda em que ele
experimentava na língua o sabor das frases escritas na noite anterior.
Era a “allée des gueulades” (alameda ou aleia dos garganteios). Entoava
palavras, uma a uma, em busca de dissonâncias, à procura de musicalidade
mais intensa. E se notasse alguma dissonância, o mais leve desconchavo
na fluência da dicção, ele se punha a reescrever. Esta aplicação
obsessiva, se não introduziu a questão do estilo, que é tão velha quanto
o ofício de escrever, acentuou-lhe pelo menos a importância vital. A
obra literária se realiza e permanece por meio da linguagem – e quem não
entra na zona transfiguradora da realidade vulgar, mediante metamorfoses
de narrativa e expressão, ficará a reboque da arte de escrever – como
aconteceu de algum modo a Balzac, apesar de toda a sua enorme capacidade
ficcional.
Vargas Llosa, no seu ensaio, demonstra mais uma
vez, à suficiência, que a boa literatura exige dedicação integral. É uma
senhora exigente, dominadora. Insiste que lhe beijem os pés.
Ultimamente, ela assiste, desolada, ao menosprezo dos seus possíveis
vassalos, tal a indiferença de muitos autores por um aprendizado árduo,
pela abertura de um canal próprio de expressão, por um ponto de vista —
por um estilo, em suma. A língua se abastarda, a comunicação se
vulgariza e perde a identidade. E por que motivo? Ora, porque
falta paixão aos seus praticantes. Paixão avassaladora, paixão de
entrega, de amor bandido — isso que justificou a existência de Flaubert.
O mito do artista enfermo vem dos primórdios do
Romantismo. O americano Lionel Trilling retoma a metáfora de Edmund
Wilson no ensaio Art and Neurosis, incluído no livro The
Liberal Imagination. O artista de qualidade superior almeja atingir
altas esferas, quem sabe equiparar-se a um deus — e o faria pressionado
pelo sofrimento, que pode ser físico ou moral.
Mas Trilling, e este parece ser também o pensamento
de Freud, acha que o escritor convive com a neurose na medida em que
reduz o conflito, mediante a derrota do ego. “Está na natureza do
trabalho do escritor que ele exiba o seu inconsciente”, afirma Trilling.
O escritor — e, por extensão, o artista — poderá disfarçar, mas não
esconder. Stendhal admitiu um amor edipiano pela mãe, que ele
adorava, cortejava e de quem não queria separar-se, e ocultou pelo pai
um amor “que o assustava”. Henry James sofreu de complexo de castração.
No entanto, qualquer pessoa pode ter um desses complexos, recalcados ou
não, sem adquirir o literary power, ou seja, sem tentar manejar
o arco de Filoctetes. “O que notabiliza o artista”, diz Lionel Trilling,
“é sua capacidade de dar forma à matéria de sofrimento que todos nós
carregamos”. Segundo ele, o artista se realiza por força da bem
sucedida objetivação da sua neurose, pela forma que lhe dá e por
torná-la acessível a outros, de maneira a criar efeitos, em geral
prazerosos, sobre seus egos em luta.
O estilo de cada um, ou seja, a sua maneira de
expressão, e o uso que fizer do seu poder de criar, sempre poderá ser
discutido em relação à sua neurose particular, no entanto a essência do
seu gênio será irredutível. A parte saudável do artista, segundo uma
definição convencional, é o que lhe dá “o poder de conceber, planejar,
executar e levar sua obra a uma conclusão”. E aqui estou novamente a
citar Trilling.
Bem, melhor ficar por aqui, quanto a esses
mergulhos afoitos em águas turvas da psicanálise. O assunto transborda
um simpósio e exigiria vários simpósios. Limito-me, no caso, a fazer
profissão de fé na literatura. E, no âmbito desta, a manifestar a minha
crença profunda no ficcionismo, que não somente traz lógica à minha vida
como justifica a minha maneira de ser, oblíqua e evasiva em relação a
esta sociedade globalizada. Não corro atrás da notoriedade, embora não
lhe seja adverso, e muito menos do hedonismo e do dinheiro —
especialmente do sedutor dinheiro público. Estes seriam decerto
sinais da minha neurose. Confesso-lhes que, por mais sozinho que me
vejam, estou cercado e em diálogo com interlocutores especiais: os
personagens de ficção, que me cercam, me seguem, me consolam e às vezes
me arrastam para os abismos — ou, pacientes, se deixam importunar.
Por ser grapiúna, de nascimento e formação, eu
estava mesmo fadado a imaginações. Esta terra, que os ficcionistas
Adonias Filho e Jorge Amado alçaram ao patamar de “nação” e
“civilização”, quando a lavoura cacaueira estava no pique, está pejada
de memórias de violência, exploração do trabalho, expropriação, mitos,
mistérios que refluem da antiga mata fechada. Ainda hoje sua paisagem
deslumbra. Como esquecê-la? A ela, nós, escritores da terra, estamos
emocionalmente atados, nosso imaginário se deixa banhar pelo rio
subterrâneo das lembranças, pela moldura psicossocial do meio que, de
maneira direta ou indireta, nos plasmou — e, portanto, influencia a
nossa escrita. Em minhas ficções, como, segundo creio, nas demais dos
meus companheiros de geração, há uma leve moldura ambiental. É a
vertente que o contista Moreira Campos, em artigo a respeito de um dos
meus livros, considerou “sertanista”. Mas, paralelamente, há outros
paredões, outros desfiladeiros, quando se faz do homem o protagonista
maior dessas ficções, dando-lhe o que o poeta amazonense Thiago de Mello
chamou de “rolo de mistérios” — os mistérios da personalidade, o terreno
que continua a seduzir os ficcionistas ditos pós-modernos. E, ademais,
as ficções não se criam por si sós, puramente nos domínios da fantasia;
elas são projeções da realidade introjetada e argamassada na memória
pelo tempo, esse grande oleiro, esse incansável escultor de cerâmica
tosca ou louça fina. Eu diria mais, pensando em Diderot, que as ficções
nos acompanham, talvez, por isso, sempre nos pareçam incompletas. “Mon
ami, faisons toujours des contes... Le temps se passe, et le conte de la
vie s´achève, sans qu´on s´en aperçoive”. (Meu amigo, façamos contos. O
tempo passa, e o conto da vida se completa sem disso darmos conta. Estas
palavras Machado de Assis pôs em epígrafe no volume Várias Histórias,
de 1896.
O argentino Jorge Luís Borges também pensava
assim. “O conto, por sua índole sucessiva, corresponde intimamente ao
nosso ser, que se desenvolve no tempo”. Em lugar de conto, ponham
romance, novela, poema — é tudo a mesma coisa. As ficções se transmudam,
são metamorfoses em constante migração celular. Henry James foi mais
longe, ao sentenciar: “Jamais confie no artista. Confie no conto.
A função primordial de um critico consiste em salvar o conto do artista
que o criou”.
Avesso que sempre fui à anedota, e insatisfeito
com a realidade factual, sempre me propus, nos livros marcadamente
grapiúnas, a escalar mais um ou dois degraus, em busca daquela
perspectiva a que chamam universalismo, ou, pelo menos, àquele
regionalismo que o crítico Antonio Cândido considera “superior”, isto é,
de corte prioritariamente humano. Na realidade, como observou Eduardo
Portella, a região é agora o mundo, localismos e regionalismos
diluíram-se, da mesma forma que outras ideologias, já não há aquela
“tipicidade evidente” (a expressão é de Adonias Filho) que caracterizava
ora o romance baiano, ora o romance sul baiano. Tais romances
entraram na corrente uniforme do gênero literário. Restam certas nuanças
de cenário, de expressão, de recursos do imaginário que traduzem uma
maneira de viver, de ser e de sentir aqui do sul da Bahia.
O romance moderno e pós-moderno acompanhou, na
história brasileira, aquela busca, ainda que inconsistente e vaga, de
independência econômica, independência política e, por conseguinte, de
expressão nacional. Em outras palavras, uma inquirição profunda do
corpo e da alma nacionais, como forma de chegar-se a uma identidade;
como passaporte, em suma, para o autoconhecimento. Nesse sentido, a
pauta de temas literários sul baianos sempre se mostrou rica: as
histórias em geral trágicas do povoamento da terra somam-se a um
caldeamento cultural formado por negros do Recôncavo, esgotados que
foram os ciclos econômicos canavieiro e fumageiro, e de
trabalhadores agrícolas vindos de várias regiões brasileiras,
notadamente de Sergipe, sem falar nos estrangeiros que aqui aportaram
atraídos pelos frutos de ouro do cacau: poloneses, alemães, libaneses,
suíços, sírios.
Nesse caso, seria ocorrido fatalmente, e de maneira
até mesmo imperceptível, um aconchego cultural. Mistura de sangues,
também de temperamentos, pendores espirituais, sonhos e ambições — algo
que se plasma à sombra e no silêncio das percepções, e que o ficcionista
herda. Cresci em meio rude, de entrechoques às vezes traumáticos, porém
de entranhado amor à terra, de sensibilidade exposta a uma paisagem que
parecia, como ainda parece, refletir o palor místico dos vitrais.
Saí do ventre dos cacauais para a luz crua de histórias, muitas
histórias típicas de região de fronteira agreste, e para as leituras que
opuseram ternura à violência, fraternidade à indiferença, amor à
competitividade do ódio. Ser sul baiano ou grapiúna, se retrocedermos a
épocas distanciadas, é diferente de ser soteropolitano ou natural
do Recôncavo. Não chegamos a ser totalmente tristes ou deprimidos,
tampouco vulgarmente alegres sem motivo plausível. Somos uns
ciclotímicos. Minha geração, ao menos, oscilou, qual pêndula fatalista,
nas altas e baixas da cotação internacional do cacau em amêndoas, nos
desesperos e êxtases das estações chuvosas ou secas. Haverá, portanto,
em nossas ficções, o pendor para a tragicidade, que não chega a ser uma
escolha premeditada, da mesma forma que não caracteriza, conforme
acentuei, a literatura aqui praticada.
O regionalismo na ficção brasileira, ou sertanismo,
como quiserem, surgiu por exigências de metodologia didática e em razão
da expansão da temática, quando o país, auscultando-se, quis investigar
os seus limites, medir a sua densidade, pesar as suas potencialidades.
Expandiam-se, por um lado, as fronteiras agrícolas, o litoral deixava de
ser a faixa privilegiada da ocupação demográfica, o interior povoava-se.
Expandiram-se, por outro lado, na esteira da interiorização geográfica,
os temas ficcionais gerados e argamassados no processo coletivo de
crescimento e afirmação.
Um dos propugnadores da regionalidade foi, como
todos sabem, Franklin Távora. Em prefácio ao romance O Cabeleira,
ele propõe um ficcionismo provincial e, com uma dose de radicalismo que
não falta aos pioneiros, chama a nova veia de “literatura do Norte”,
como se pudessem coexistir num mesmo país de uma só língua e etnias
caldeadas, variadas expressões literárias. “As regiões”, como bem
observou Afrânio Coutinho, “não dão lugar a literaturas isoladas”.
Com efeito, região geográfica é uma coisa, região
cultural é algo distinto. Nem sempre a região geográfica adquire
foros de região cultural. E quando logra emitir voz própria, será com
base num ficcionismo que faça do homem sujeito e predicado, ao mesmo
tempo, do meio e das condições de vida. Se o escritor, debruçado sobre
essa realidade regional, que lhe tocou a sensibilidade, que ele conhece
com os olhos e com a memória, que lhe é sugerida pelo inconsciente
coletivo, conseguir transfigurá-la, revestindo-a de valores universais
assentes e canonizados, essa regionalidade entrará decerto no fluxo do
ficcionismo abrangente, “de validade total” (vão estas palavras entre
aspas por pertencerem a Adonias Filho, em critica a Noites Vivas,
um dos meus volumes de contos).
Diluídos, pois os ciclos regionais do cacau, das
boiadas, da cata de pedras preciosas, das barrancas do São Francisco,
dos engenhos do Recôncavo, e do marinismo introduzido por Xavier
Marques, esmaecida a cor local dessas ficções, resta ao ficcionista
escrever com a maior paixão possível, com a maior densidade. Se quiser
preservar o gênero romance, no qual foi passado um falso atestado de
óbito, esse ficiconista se empenhará em elevar a qualidade e
originalidade da expressão ao valor que antes tinham os cenários e os
enredos. Para ele, tão importante do que a historia que deseja
narrar será a maneira de narrá-la, de forma a cooptar o leitor e, desde
o início, fazê-lo cúmplice da dicção e da narração, atento ao fato de
que um romance, para ser verdadeiro, não brota do nada; ao contrário,
ele será sempre, se não produto direto do meio social, pelo menos
influenciado por circunstâncias e contingências do meio.
Cenário, personagem, plot, conflito, pendor
para a solução ou agravamento do conflito são partes de variado peso na
balança, ao sabor do gosto de quem assina o texto — mas, no meu
entender, poder-se-ia sacrificar tudo numa ficção curta ou larga, menos
o personagem. Porque sem este não haveria ficcionismo possível.
Palavras, por si só, sem associação de ideias que
as fazem reproduzir situações existenciais, não substituem a veia
ficcional. Palavras são condutos apenas capazes de vibrar e compor
quando acionadas sob forma de composição lógica pelo Imaginário.
Acabo de publicar um romance, Inúteis Luas
Obscenas, em que procuro agir como um carpinteiro que vai aos poucos
lavrando e montando peças, de modo a formar um artefato aprazível aos
olhos e ouvidos. Há nele um personagem enigmático. É chamado Surdo,
porque o consideram surdo ou ele se diz surdo. Mas não sei,
honestamente, ate que ponto ele ouve o estridor do mundo e as pancadas
abafadas da sua maré interior. Se, em Dom Casmurro, do mestre
Machado de Assis, o leitor é levado até o fim a duvidar se Capitu de
fato traiu Bentinho, temos aqui, sem a intenção de estabelecer
comparações e paralelos, alguém que é surdo de verdade ou surdo
fingidor. Sendo surdo, leva a vantagem de não ouvir impropérios e
perguntas despropositadas — e o que lhe será melhor, não ter de
respondê-las. Se não for de todo surdo, ele entupirá os ouvidos, como
Jean-Jacques Rousseau, com os embates do seu tumulto interior.
A sugestão é um recurso precioso no ficcionismo
moderno. Robert Louis Stevenson dizia que a sugestão poderia transformar
a leitura de um jornal diário em nova Ilíada. Hemingway seguiu o
conselho: apenas a quarta parte dos seus contos está visível, à flor das
águas; o restante fica submerso. Quanto a Machado, este fez da sugestão
o aspecto mais aliciante e traiçoeiro de seus romances e historias
curtas.
Creio que o meu personagem surdo quer somente se
comunicar. Comunicar-se de peito aberto, comunicar-se a fundo — tarefa
quase impossível neste mundo massificado. Isso o desilude e deprime. Se
a sua vida já é por si mesma baça e tediosa, a solidão acaba por fechar
o cerco e condená-lo ao solilóquio.
Se me permitem destacar outro aspecto em Inúteis
Luas Obscenas, eu mencionaria o uso aleatório do tempo cronológico,
que faz a narração avançar e retroceder, aos arrancos, como uma onda que
se quebra na praia e, em mar alto, volta a formar-se. Os
personagens se narram, narram os outros e são por estes narrados.
E há um narrador invisível, onisciente e onipresente, que intervém
com os seus pontos de visa críticos.
E mais não digo. Já os cansei com essas teorias de
quem acredita num ficcionismo renovado, capaz de justificar, pelas artes
do coração humano, este mundo de valores banalizados que a ficção
clássica soube transplantar, receita que a ficção moderna deveria haurir
em largos sorvos.
Não me perguntem o que é criação literária. Eu não
saberia dizer. Penso, como Henry James, que somos cegos, todos nós,
criadores. Andamos às apalpadelas. “O mais é a loucura da arte”.
Referências bibliográficas:
ADONIAS Filho; AMADO, Jorge. A nação grapiúna.
Tempo Brasileiro, Rio de Jneiro, 1961.
COUTINHO, Afrânio (Ed.). A literatura no Brasil.
“O regionalismo na ficção”, vol. 3. Editora Americana S/A, Rio de
Janeiro, 1968
LLOSA, Mario Vargas. La Orgía Perpétua.
(Flaubert et Madame Bovary), Alfaguara, Lima,1975
O´CONNOR, Flannery. Mystery and Manners. Farrar, Straus & Giroux,
New York, 1957.
PÓLVORA, Hélio. O espaço interior. Editora
da Universidade Livre do Mar e da Mata. Ilhéus, 1999.
----------------------- .
Itinerários do conto: interfaces críticas e teóricas da moderna
short-story.
Editora da UESC, Ilhéus-Itabuna, 2002.
TRILLING. Lionel. The Liberal Imagination. Charles Scribner´s &
Sons, New York, 1940.
WILSON, Edmund. The Wound and The Bow. Houghton Mifflin Company,
New York, 1941.
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Conto de Gláucia Lemos publicado em 07/02/2011 - "Sim senhora"
Artigo de Ruy Espinheira Filho publicado em 14/02/2011 - "Editores e Escritores"
Artigo de Carlos Ribeiro publicado em 21/02/2011 - "Riqueza sob escombros"
Artigo de Hélio Pólvora publicado em 01/03/2011 - "O romance de Herberto"
Artigo de Edivaldo Boaventura publicado em 18/03/2011 - "A volta de Góes Calmon"
Artigo de Aramis Ribeiro Costa publicado em 26/03/2011 - "Bráulio Xavier Filho"
Artigo de Consuelo Pondé de Sena publicado em 01/04/2011 - "Edivaldo Boaventura, presidente exemplar"
Conto de Waldir Oliveira Freitas publicado em 08/04/2011 - "De quem - Da Holanda"
Conto de Gláucia Lemos publicado em 18/04/2011 - "Lúcia - Um café na tarde fria"
Artigo de Paulo Costa Lima publicado em 22/04/2011 - "O problema, o sistema e a mão na massa"
Artigo de Aleilton Fonseca publicado em 30/04/2011 - "Yêda Schmaltz: Cor e sabor na poesia brasileira"
Artigo de Carlos Ribeiro publicado em 12/05/2011 - "Muito mais que mera coincidência"
Artigo de Ruy Espinheira Filho publicado em 27/05/2011 - "Ernesto e Osman"
Artigo de Florisvaldo Mattos publicado em 03/06/2011 - "Presença do humanismo militante na poesia de Jacinta Passos"
Artigo de Consuelo Novais Sampaio publicado em 10/06/2011 - "José Calasans, conselheiro intelectual"
Artigo de Edivaldo Boaventura publicado em 17/06/2011 - "Academia de Ciências da Bahia"
Artigo de Waldir Freitas Oliveira publicado em 24/06/2011 - "Ao alcance distante dos meus olhos"
Arttigo de Evelina Hoisel publicado em 01/07/2011 - "O cenário da inconfidência revisitado por Ildásio Tavares"
Conto de Paulo Costa Lima publicado em 08/07/2011 - "As aventuras de um tamanduá voador"