A TERCEIRA MARGEM DO RIO - NA CANOA COM ROSA   

Evelina Hoisel

                                                                                                        

 Como ler este conto de João Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”[1], que nos propõe a vivência do paradoxo? Que deslocamentos devo mobilizar, na minha condição de leitora, para me aproximar dessa canoa que, na sua terceira margem, atravessa rio abaixo - rio afora - e rio adentro, fazendo transitar entre as duas bordas esse “nosso pai,” homem insensato, que não desiste da sua “tristonha teima” e abandona a família para viver o rio? Como ler este pequeno texto de apenas cinco páginas e meia sem pensar na sua relação com os demais textos de João Guimarães Rosa?

            Leio a “A terceira margem do rio” como um texto síntese que congrega na sua tessitura alguns dos principais processos de construção dos textos rosianos. Inicialmente, observa-se que vários temas disseminados na vasta produção de Guimarães Rosa estão aí desenvolvidos de maneira primorosa – travessia, medo e coragem, identidade e diferença, razão e desrazão, esquecimento e rememoração.

            Por outro lado, o conto faz do paradoxo o principal procedimento construtor da trama narrativa, confirmando a predileção de Rosa pelas descontinuidades, pelo apagamento das oposições binárias, pelo deslocamento dos sentidos e das verdades fixas, pelo atravessamento de fronteiras, pela combinação contínua e múltipla das diferenças, em um lugar neutro e “terceiro” que não é nem uma coisa nem outra e é duas coisas ao mesmo tempo, como o sertão, no Grande sertão: veredas, que é espaço geográfico localizável no mapa do Brasil, porém, em decorrência dos incessantes deslocamentos operados pela narrativa, o sertão “está em toda parte” e está  também “dentro da gente”,  como  diz o protagonista Riobaldo.

            “A terceira margem do rio” tem como narrador um filho que se apresenta como uma espécie de guardião da memória do pai, “homem cumpridor, ordeiro, positivo” ( p.32), como é caracterizado logo no início do relato, mas que um dia resolveu encomendar uma canoa especial, de pau de vinhático, e “saiu se indo” e não voltou: “só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais” (p.33). E, dessa maneira, “não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim.” (p.34)        

            Durante toda a narrativa, o filho vive a perplexidade diante desse tresloucado gesto do pai, rememorando os acontecimentos passados que envolvem a figura paterna e a desordem familiar que se instalou depois da sua partida, incompreensível para os familiares, amigos e todos os demais habitantes da localidade, representantes do senso comum. Alguns personagens são convocados a interferir na atitude do pai no sentido de trazê-lo de volta da sua “doideira” – padre, soldados, jornalistas.

O conto é também a rememoração do passado, que procura tirar o pai do esquecimento, tornando-o sempre presente na sua estranheza e na sua indecifrável diferença: “E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.” (p. 32) “Não, de nosso pai, não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.” (p.35)  Através dessa figura  estranha e quase monstruosa, que atravessa os deslimites de sua própria diferença, o filho, ao tempo em que rememora a teia de recordações que tece a figura do pai, com o intuito de dar sentido à sua experiência,  pode também compreender-se nos seus limites fixados entre o medo e a culpa, bem como defrontar-se com o seu “falimento”, ao recusar o chamado do pai para assumir o seu lugar na canoa.

            Se o texto é construído como um paradoxo, cabe ao leitor, em primeira instância, abrir mão das formas convencionais de pensar e aderir aos deslocamentos de sentidos já inscritos no próprio título “A terceira margem do rio”. Convidado a atravessar esta terceira margem, que é simultaneamente localizável e não localizável, é e não é, existe e não existe, o leitor terá que abrir mão das formas dicotômicas de pensar e de compreender. Terá que reordenar o seu saber e as suas expectativas em relação aos sentidos já estabelecidos. Afinal, o que sabemos é que um rio tem duas margens, a da esquerda e a da direita. Onde se situa a terceira margem do rio? Se ela existe e não existe como podemos defini-la? E será que podemos defini-la?

            O conto incita o leitor a transgredir os limites, ultrapassar as margens, vivenciar o imprevisto e o incomunicável dessa terceira margem, que o lança nas imponderáveis travessias, nos sucessivos deslocamentos, nas incertezas das descontinuidades de sentido. A experiência do leitor, sob certos aspectos, recupera a perplexidade do filho diante da estranha decisão do pai de viver o inominável, viver o entrelugar da razão e da desrazão, da sanidade e da loucura, da identidade e da diferença, do medo e da coragem, da ação e da contemplação, da fixidez e do fluir.  

Embora o conto estabeleça uma identidade entre o pai e o filho-narrador, uma vez que é ele, e não os outros dois irmãos, o guardião da memória do pai, e é também ele, filho, que alimenta o pai na sua canoa, o pai dele também se distancia vez que é, por excelência, a diferença: aquele que rompe com os padrões estabelecidos, que desordena o senso comum, que instaura outros espaços onde os sentidos flutuam entre o que é e o que não é. Apesar da identidade, o filho, por medo, não realiza este gesto quando o pai acena para que ele o substitua na condução da canoa – daí a sensação de “falimento” do filho.

            Então, podemos afirmar que a terceira margem é – será? - essa possante maquinaria de produzir sentidos, este (não)-lugar atravessado por todos aqueles que realizam o gesto precípuo – e corajoso – de instaurar outras ordens de valores existenciais, desordenando uma ordem estabelecida. Lugar da literatura, da arte. Lugar de João Guimarães Rosa que nos oferta a possibilidade de renovadas travessias.



[1] ROSA, João Guimarães. A terceira margem do rio. In: ____ . Primeiras estórias. 4. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1968. p 32- 37.

 

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