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Bráulio Xavier Filho
Quando
nasci tive um problema de saúde e fui levado às pressas ao Dr. Bráulio
Xavier. O prognóstico era dos mais sombrios — ele foi muito franco a
esse respeito —, mas conseguiu infundir, logo de saída, nos meus pais,
uma confiança ilimitada. Formulou e, graças a essa fórmula — guardada
durante muito tempo com muito carinho por meu pai —, eu me saí bem desse
que poderia ter sido o primeiro e o último entrave da minha vida.
Depois disto, tornou-se o pediatra da
família, meu e das minhas duas irmãs, procurado sempre com ansiedade
todas as vezes que havia desde a menor suspeita de doença até os nossos
mais graves problemas de saúde. Curioso que foi ele quem, sem querer,
deu o nome à minha irmã mais moça. Na hora de escrever uma receita para
Araíma, ainda de meses, por engano escreveu Arimaia. Cientificado do
erro, ia corrigi-lo, quando meu pai teve a ideia:
Dessa forma — coisa inédita —, a futura
cliente teve o nome escrito numa receita pelo pediatra, antes mesmo de
existir.
Seu consultório era no Edifício
Piedade, numa época em que, ao longo da comprida Avenida Sete,
notadamente na Rua Chile, se concentravam os consultórios elegantes da
cidade, e não apenas os consultórios médicos, também os odontológicos e
os escritórios de advocacia. O dele, no mesmo andar do consultório de
outro famoso pediatra, o Dr. Fernando Chagas, possuía três salas e era
muito bem montado. Da janela da sala de espera, guardada por sua fiel
atendente Lúcia, verdadeiro cão de guarda que não deixava passar um
único paciente sem pagar a consulta, nem mesmo para entregar resultado
de exame, eu me divertia em ver, lá embaixo, o bem cuidado jardim do
Largo da Piedade, com suas estátuas e sua fonte, os prédios do Instituto
Geográfico e Histórico, do antigo Senado, do Gabinete Português, da
Igreja de Nossa Senhora da Piedade, da Secretaria de Segurança Pública,
da Escola de Música dos irmãos Jatobá, da Faculdade de Ciências
Econômicas, da Igreja de São Pedro; e ver principalmente os carros e as
pessoas que passavam, como se fossem carros e pessoas de brinquedo, de
tão pequenos que me pareciam de lá do alto.
Um dia um
amigo muito querido, que morreu prematuramente aos quarenta e sete anos
de idade, e que também era cliente do Dr. Bráulio, jogou por brincadeira
um pedaço pontiagudo de louça de vaso sanitário em minha direção e o
objeto veio com sua ponta perigosa diretamente ao meu joelho esquerdo,
fazendo uma ferida lácero-contusa profunda sob a rótula, que
imediatamente me levou ao chão, banhado de sangue, transido de dor, sem
poder movimentar a perna. Foi uma das maiores dores físicas que já
senti. Parecia que a ponta da louça havia penetrado até o osso e afetado
as estruturas ósseas. Não havia, naquele tempo, além do hospital público
de emergência geral, o extinto Hospital Getúlio Vargas, sempre
sobrecarregado, serviços de emergência pediátrica na Cidade do Salvador.
Levado na mesma hora às pressas para o consultório do Dr. Bráulio
Xavier, ele colocou sobre a minha perna atingida um radioscópio. Com
aquele seu aparelho, o pediatra pôde, naquele momento, garantir aos meus
pais pela integridade das estruturas ósseas do meu joelho, passando a
cuidar unicamente da ferida. Isso, que aconteceu nos anos cinquenta do
século passado, é algo notável, porque ainda hoje, com a enorme evolução
técnica alcançada pela medicina, não sei de nenhum consultório
pediátrico que possua um radioscópio, e possa fazer um diagnóstico tão
imediato e tão preciso sobre uma contusão seguida de ferimento com a
possibilidade de dano de estrutura óssea.
De outra
feita, fui atingido por uma pedra na cabeça. Também levado ao
consultório do Dr. Bráulio, lá mesmo ele fez o curativo necessário e deu
um “ponto falso”, como se dizia na época, com esparadrapo, resolvendo a
dramática situação sem necessidade de sutura. Estes exemplos, que talvez
surpreendam os pediatras de hoje, que não costumam fazer tais
procedimentos em seus consultórios, encaminhando essas ocorrências para
os inúmeros serviços de emergência de pediatria da cidade, demonstram
como era bem equipado o consultório do Dr. Bráulio Xavier, naqueles
distantes anos cinquenta do século do século XX. Na terceira sala, que
era a da enfermagem, ele fazia, com a ajuda de uma enfermeira de nome
Mariá, alguns procedimentos que também hoje poucos pediatras realizam em
seus consultórios, como nebulizações, aplicações de injeção, curativos e
aplicações de infravermelho, esta última uma terapia que, naqueles
tempos ainda muito empíricos e de menos recursos farmacológicos, era
largamente empregada. Era, sem dúvida, um dos mais bem equipados senão o
mais bem equipado consultório de pediatria da Cidade do Salvador. Não
era à toa, portanto, que para ali acorresse grande parte da clientela
rica da cidade, num tempo em que não havia planos de saúde, e todas as
consultas eram particulares. Um dia, muito tempo depois, ele me disse:
— Eu posso
não ter tido a maior clientela da Bahia. Mas tive, com certeza, a maior
clientela pagante.
E me afirmou
ter tido, no seu consultório, mais de cinquenta mil clientes, ainda hoje
uma marca significativa para qualquer pediatra.
Tento vê-lo
neste momento como eu o via quando menino. Guardo, por exemplo, a imagem
das suas chegadas ao consultório, impecavelmente vestido em traje
completo, em geral azul-marinho, logo cercado pelos representantes de
laboratório, que um dia iriam lhe conferir uma placa em reconhecimento
ao atendimento sempre cortês e amigo que ele lhes dispensava. Entrava
com eles por uma porta do seu conjunto de salas sem passar pela sala de
espera. Mas lembro principalmente dele dentro do consultório, de gravata
e comprido jaleco branco, exercendo com atenção, competência e zelo as
suas funções de pediatra.
Vou
descrevê-lo como eu o via naquela época. Era alvo, um pouco avermelhado,
de baixa estatura, atarracado, os ombros muito largos, os cabelos lisos
alourados, os olhos muito vivos e penetrantes e a voz pausada, um pouco
anasalada e forte, uma voz que, apesar de me parecer vir muito do nariz,
me parecia também vir de longe, muito longe. Examinava com atenção e
cuidado, sem nenhuma pressa, obedecendo rigorosamente a um método de
exame que avaliava, parte por parte, a criança inteira. Depois, quando
voltava para a sua mesa-secretária, dava as explicações necessárias
sobre a doença com clareza e segurança e, antes mesmo de prescrever a
receita, destrancava e abria as gavetas da mesa, onde guardava as
amostras-grátis dos remédios, em busca do que pudesse oferecer ao
cliente.
Era sempre
muito educado e risonho. Gostava de rir e fazer rir. Contava casos. Ria
inclusive do pai que, tendo sido rico, tinha sido também muito sovina, a
ponto de mandar o empregado colher cajás assoviando, para, desta forma,
ter certeza de que o molecote não o estava roubando, chupando as frutas
às escondidas. Recordo que Dr. Bráulio contou isto ao meu pai no final
de uma consulta e soltou a sua gargalhada sonora, de quem se divertia à
larga com o episódio. Uma vez, também muito tempo depois, ele me disse,
após um de seus ditos de espírito que, na verdade, não magoavam ninguém:
— Perco um
amigo, mas não perco uma piada.
Lembro-me
também que, certa vez, ele disse ao meu pai que praticara boxe quando
jovem, daí a força dos seus músculos. Em seguida, após a declaração,
arregaçou as mangas do jaleco e da camisa e exibiu o bíceps direito
contraído, um braço efetivamente muito forte. Aliás, fazia questão de
mostrar sua força nos apertos de mão, e divertia-se quando o
cumprimentado — ou torturado — não suportava o aperto. Então vinha
aquela gargalhada tão simpática e que era também um modo de ser diante
da vida e das pessoas. Mas tinha um vício, do qual não conseguia se
livrar: entre um cliente e outro, refugiava-se numa salinha secreta do
consultório — seria uma quarta sala no complexo que ocupava — para
fumar.
Mesmo
não havendo emergências pediátricas disponíveis na cidade, não se
costumava, naquele tempo, incomodar o pediatra em casa por qualquer
motivo, nem mesmo havia o hábito de se telefonar — ah, os celulares! —
com a frequência e a naturalidade dos dias atuais para o médico dos
filhos. Pelo menos não se fazia isto na minha casa. Abaixava-se a
temperatura, se fosse o caso, dava-se um analgésico, um antiespasmódico,
um antiemético ou o que se julgasse necessário, medicações que eram do
conhecimento de todos, e aguardava-se o horário do consultório. Gripe e
diarréia, por exemplo, tratavam-se
Verifico
hoje, fazendo as contas, que o Dr. Bráulio Xavier ainda não havia
completado quarenta e cinco anos de idade, quando fui levado a ele pela
primeira vez. Mas era um experimentado profissional de vinte e três anos
de formado, com vasta e fiel clientela, e um bom conceito entre os seus
próprios colegas.
Seu nome
completo era Bráulio Xavier da Silva Pereira Filho. O pai, o conselheiro
e desembargador Bráulio Xavier da Silva Pereira, foi presidente do
Tribunal de Apelação e Revista e assumiu o governo da Bahia em
substituição a Aurélio Viana após o nefasto bombardeio da Cidade do
Salvador, no início do século passado. Um homem famoso, poderoso e rico.
Por isso mesmo, para diferenciar um do outro, enquanto o pai existiu,
ele foi conhecido como Bráulio Xavier Filho ou simplesmente Braulito.
Mas, foi como Dr. Bráulio Xavier que se tornou conhecido e respeitado na
Bahia a partir da década de trinta, exercendo a sua especialidade, a
pediatria, tornando-se um dos três ou quatro pediatras baianos de maior
conceito da sua geração, uma geração de pediatras notáveis.
Bráulio Xavier Filho nasceu em 27 de outubro de 1905. Seguindo a própria
vocação, sem se deixar influenciar pela atuação do pai na magistratura e
na política, decidiu ser médico, entrando para a tradicional Faculdade
de Medicina da Bahia, já com a atenção direcionada para a pediatria que,
naquele tempo, tinha, no professor Martagão Gesteira o nome baiano mais
respeitado nessa especialidade. Formou-se em 1927 numa famosa turma de
futuros médicos baianos célebres, como José Silveira, Hosannah de
Oliveira, Alício Peltier de Queiroz, Thales de Azevedo, Jorge Valente e
vários outros. Logo no ano seguinte, valendo-se da boa situação
financeira do pai, partiu para estudar em Paris no
Hospital des Enfants Malades com o
professor Antoine Bernard-Jean Marfan, considerado à época a maior
autoridade mundial em pediatria.
Era o tempo
das primeiras experiências com a amidalectomia, e um caso de morte do
paciente em pleno ato cirúrgico presenciado pelo jovem médico logo ao
chegar, fizeram-no, para o resto da vida, extremamente cauteloso no
recomendar a retirada das amídalas dos seus pequenos pacientes, fazendo
tudo para tratá-las antes da condenação à cirurgia, exatamente como
hoje, tanto tempo depois e passado o modismo da intervenção cirúrgica
nas amídalas, costumam agir os pediatras.
Voltando ao
Brasil, passou a trabalhar no Asilo dos Expostos, na Pupileira, sob o
comando do professor Martagão Gesteira, tomando conta de uma enfermaria.
Daí passou para o Hospital Santa Isabel e, nessa fase, dedicou-se mais à
radiologia. Mas continuava tomando parte de congressos e simpósios
médicos de pediatria, fazendo palestras e apresentando trabalhos na
especialidade. Foi um dos fundadores da Sociedade de Pediatria da Bahia.
Em 1934 fez concurso de docência em pediatria, pela Faculdade de
Medicina da Bahia, sendo aprovado em primeiro lugar. Com a fundação da
Escola Baiana de Medicina, tornou-se o seu titular de pediatria
Tendo
sido seu cliente, voltei a encontrar o Dr. Bráulio muitos anos depois,
agora como estudante de medicina, participando do seu serviço de
pediatria no Hospital Santa Isabel já a partir do terceiro ano, e sendo
seu aluno de pediatria no quinto ano do curso médico da Escola Baiana de
Medicina e Saúde Pública. Nessa fase, convivemos quase diariamente
durante quatro anos, de
Para
ser fiel à verdade, não posso dizer que Bráulio Xavier fosse um
professor brilhante, no sentido que se dava ainda no meu tempo de
estudante a um determinado tipo de professor, aquele que conseguia
arrancar aplausos dos alunos após suas aulas. Falava baixo, não
explanava com grande fluência, não prendia a atenção da turma, na
verdade não possuía nem o dom da oratória nem da didática de auditório.
Mas sua atuação como professor de pediatria da Escola Baiana foi longa e
eficiente. Cercou-se de auxiliares valiosos, como Antônio Carlos
Barbosa, meu mestre e meu amigo — este sim, um didata e um orador
brilhante —, Maria Alice Firpo, Maria Piedade e, mais adiante, seu
próprio filho, no qual manteve a tradição do seu nome, Bráulio Xavier da
Silva Pereira Júnior — conhecido por todos como Braulinho, também um
pediatra de ampla clientela e uma extraordinária figura humana —, e a
equipe era uma das mais atuantes e mais organizadas da escola de Nazaré,
trabalhando principalmente nas enfermarias e nos ambulatórios do velho
Hospital Santa Isabel. Longe das salas de aula, nas enfermarias, lidando
diretamente com o paciente, é que o Dr. Bráulio mostrava o seu vasto
conhecimento de pediatria e o muito que acumulara de experiência na
prática diária na profissão. À cabeceira dos enfermos discorria com
amplitude e profundidade sobre a doença do pequeno paciente, ensinando
sem reservas a quem quisesse aprender, alertando para as situações
equívocas e, sobretudo, chamando a atenção para o perigo da vaidade no
exercício da medicina. Costumava dizer que um paciente pediátrico deve
sempre ser examinado da cabeça aos pés, independentemente da queixa ou
da doença, e que a experiência de um médico se avalia como a experiência
de um piloto de avião. A do piloto pelas horas de vôo, a do médico pelas
horas passadas diante dos leitos dos pacientes.
Possuidor de uma sólida cultura geral, de certa forma o Dr. Bráulio
seguiu a tradição dos médicos baianos até a primeira metade do século
XX, ao se dedicar também à literatura. Lia muito, gostava de conversar
sobre literatura. O seu alentado romance
Vidas
em Tumulto, de quatrocentas e nove
páginas, editado pela Pongetti, Rio de Janeiro, em 1941, surpreende pelo
estilo, pela fluência da narrativa, pela estrutura e pelo
desenvolvimento, como se o seu autor fosse um escritor experimentado, e
não alguém que estava realizando a sua única experiência de ficcionista.
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