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LÚCIA
UM CAFÉ NA TARDE FRIA
Espantou um moleque que, à porta
da rua, gritava para dentro: velho maluco!, depois voltou para a sala
devagar. Mais uma vez olhou, no canto da mesa, a cafeteira suja.
Depois se sentou no banco a um canto, e acendeu o cigarro. O
corpo era pequeno e frágil como o de um adolescente. As mãos
delicadas e leves seguravam o cigarro como se estivessem vazias.
Pelo chão, espalhavam-se os cavacos de cedro.
Fixou os olhos no
piso, em um ponto qualquer. Fora pela porta em frente que ela entrara
naquele fim de tarde. Apressada. Quase correndo a abrigar-se da chuva.
Como um potro assustado.
- Dá licença?
O homem ergueu a cabeça. Ela
transpunha o batente sacudindo a chuva do vestido branco.
Passando as mãos pelos cabelos cacheados.
- A chuva me pegou. - Parecia desculpar-se.
- Pode entrar, fique à vontade.
Ele como que emergiu da sisudez habitual. Sorriu. Só com os
olhos. Como só sabia sorrir. A mulher parecia assustada. Olhava em volta
com olhos de expressão espantada. A sala pequena, as ferramentas
espalhadas, não sei quantas esculturas
povoando o ambiente, desordenadamente, com a mudez da madeira .
Depois, ela ficou olhando o homem. Barbado, o peito nu não muito forte,
cabelos crescidos, grisalhos nas têmporas, parecendo velho.
A mão soltou a goiva em cima da mesa, e Samuel aproximou-se dela.
A silhueta da mulher de branco na moldura da porta, pareceu-lhe um anjo.
Mãos levemente pendidas, o corpo parado, o cabelo curto cacheado. E os
olhos muito abertos fixando seu rosto. Parecia um anjo. Ele tentou
sorrir com seus dentes grandes. E descobriu que ainda sabia. Repetiu.
- Pode entrar, fique à vontade.
Ela tentou um sorriso tímido. Depois sorriu também um sorriso
aberto e livre, como criança.
- Não quero atrapalhar, pode continuar no seu trabalho.
Parecia medrosa. Talvez do escultor excêntrico. Ninguém se
aproximava dele. Calado, sombrio, sozinho, um ar de velho no rosto
grave. Só eventualmente, pessoas estranhas aos vizinhos apareciam de
carro e levavam suas peças. No mais, era
solidão.
Ele retomou as ferramentas e voltou a seu trabalho.
Ela ali ficou, sentada em um banco, até que a chuva passou.
Calada. Só olhando os movimentos de Samuel. Os pedaços de madeira caíam
ao chão, as formas nasciam dos hábeis movimentos das mãos pequenas, e
ela acompanhava sem desviar
os olhos.
Quando a chuva passou a mulher levantou-se e foi embora. Sem
dizer nada. Ele apenas viu seu vulto transpondo a porta e continuou no
trabalho, como se nada houvesse acontecido.
Uma tarde, algum tempo depois, alguns meses, ela voltou. Chegou
devagar, como quem não quer nada, espiou na porta com a antiga timidez,
e perguntou.
- Dá licença?
O homem ergueu a vista para a mulher, que, sem esperar resposta,
entrava devagar. De olhos
ausentes, como se a visse pela primeira vez, ele não a reconheceu de
pronto. Ela sentou-se no mesmo banco, encolhida e perguntou, como
criança
- Posso ficar aqui?
Fez que sim, com a cabeça. Ela sorriu e ficou. Calada. A tarde
inteira. No fim da tarde, foi embora.
Depois dessa vez ela voltou. Outras e outras mais. Não todos os
dias, mas sempre que as tardes eram frias, ou sempre que chovia.
Uma tarde, Samuel perguntou seu nome.
- Lúcia.
- Respondeu lacônica.
- Mora onde, Lúcia?
Ela sorriu.
- Aqui perto.
- Que é que você faz?
- Uma porção de coisas... e você?
- Eu?... - Samuel fixou-a admirado - Não está vendo? Eu corto
madeira, faço uns troços... Faço árvore virar figura de gente. Isso tudo
que está por aqui espalhado, não está vendo? E espanto os pivetes que
vêm a minha porta me amolar. Me chamar de velho... e de maluco.
Não parecia se importar muito com o detalhe.
Depois daquela tarde, ela continuou a vir
como se nada houvesse acontecido. Nunca lhe disse quais eram suas
mágoas e Samuel nunca lhe perguntou. Mas agora, ele lhe passava as mãos
pelos cabelos com carinho mudo, de quem entende que sendo uma mulher e
não um anjo, Lúcia precisava de carinhos. E lhe afagava o rosto e
lhe beijava os olhos porque descobrira que ela era uma mulher. E
uma mulher que se abrigava à sua sombra, tão recluso que era, tão
solitário que sempre fora, era porque ela também não tinha amigos. E
assim, Lúcia descobriu a cafeteira a um canto de uma velha mesa e lhe
fazia café todas as tardes. Porque estavam em um
inverno muito chuvoso e frio, e assim sendo, Lúcia vinha a Samuel
todas as tardes. E se amavam. Naturalmente. Como um homem e uma mulher
se descobrem e se amam, desde que o mundo é mundo.
Ele soltava as ferramentas do trabalho, quando a mulher lhe
estendia a xícara de café, com as mãos delicadas, de pele fina. E Samuel
punha-se a perguntar
a si mesmo, que mulher era aquela? Frágil, quase como uma criança, de
rosto delicado e mãos bem cuidadas, de modos finos e cabelos
encaracolados, que lhe trazia todos os dias um sorriso inocente, nos
lábios rosados. De onde teria vindo aquela mulher nem bem madura, nem
bem menina, que entrara em sua vida de repente pela porta adentro, numa
tarde de chuva? E se tornava indispensável. E mudava toda a sua vida. E
o levava a descobrir que ainda era moço e sabia sorrir e sentia vontade
de viver. E tornava tudo tão diferente à sua volta que até os pivetes
deixaram de vir importuná-lo. Mas suas perguntas ficavam insatisfeitas,
porque Lúcia sempre respondia com gracejos, dizendo qualquer coisa,
menos o que ele ansiava por ouvir.
- Eu? Eu sou uma princesa encantada.
- Eu sou Cinderela.
- Eu sou Rapunzel de cabelos cortados.
Talvez nem mesmo se chamasse Lúcia. Mas, que importava o nome? Se
ela mesma nem se preocupava com o depois? Não lhe fazia perguntas, não
lhe dizia respostas. Apenas
existia. Era só uma presença que ele sabia que se repetia todas as
tardes, sem compromisso. Sem promessas e sem segurança.
Enquanto chovesse, ele soube depois.
Quando o inverno acabou, na primeira tarde de sol, ela não veio.
E não veio nunca mais. Sem adeus, sem despedida. Sem recado e sem
explicação.
O homem pôs-se a esperar. Primeiro com a inquietude e o desespero
dos apaixonados. Depois com a saudade e a dor dos abandonados.
Todas as tardes ele ficava contemplando a cafeteira suja a um
canto da mesa, como Lúcia a deixara pela última vez. Sem tocá-la. Como
um objeto sagrado. E a goiva e o formão descansados sobre a mesa.
O trabalho que iniciara no tempo em que Lúcia lhe vinha, nunca
foi concluído. E no atelier
nunca mais foi ouvido o toc, toc, do formão talhando a madeira. Era só o
silêncio e o homem esperando, com a fronte escorrendo em suor, e o calor
da tarde abrasando tudo com a força do sol que doirava lá fora o céu de
verão.
As têmporas grisalhas de Samuel depressa embranqueceram. Seu
corpo pequeno e magro tornava-se em um corpo de velho baixinho e
mirrado. A barba lhe chegava ao peito como a de um ermitão e os dentes
grandes nunca mais sorriram. Agora os pivetes voltavam à sua porta para
xingá-lo de velho maluco.
- Chova! Que chova
muito! Que chova muito e alague o mundo!
Transpôs a soleira. Olhos para o céu azul e seco. Os braços
erguidos em súplica incompreensível para quem
assistia. Que chova muito!
Começou a andar pela rua. Os pivetes juntaram-se em volta
acompanhando. Velho maluco! Velho maluco! Gritando, assobiando, dizendo
piadas. Samuel indiferente à zombaria,
de olhos agoniados para o céu, prosseguia clamando. Que chova
muito!!! As mãos para o alto, a voz em apelo de comover os passantes.
Alguns paravam para olhar, alguns riam. Louco, está bêbedo, é o velho
que faz esculturas
Sempre teve um parafuso frouxo.
Repentinamente, escureceu. Grossos pingos começaram a cair.
Ribombou o trovão, e o temporal veio abaixo, inundando a rua. A molecada
correu a abrigar-se. Os curiosos dispersaram-se. O homem, perplexo,
demorou-se parado no meio do asfalto, debaixo do aguaceiro. E sorriu.
Primeiro com os olhos,
Depois com os dentes grandes como reaprendera a sorrir no tempo de
Lúcia. Em seguida foi caminhando devagar até a casa. A porta estava
aberta. A chuva respingava nas figuras de madeira.
Samuel entrou. Olhou em volta, não havia ninguém. permanecia o
deserto que torturava
os dias de Samuel havia tanto tempo. A cafeteira suja lá estava
em um canto da mesa, no
fundo da sala, como Lúcia a deixara. E na bancada
do trabalho, em frente, o imenso e pesado bloco de jaqueira,
inacabado, de onde começava a emergir, Deus sabe há quanto tempo, um
torso de mulher, para o qual
Lúcia posava, quando vinha. No mais, o silêncio e o vazio.
Samuel sentou-se frente à mesa e atirou com violência a cabeça
atormentada por cima
dos braços dobrados. A mesa balançou mal aprumada. O trabalho
inacabado, foi lá, veio cá, e despencou-lhe por cima da cabeça
pesadamente.
Lá fora, chovia ainda. No fim da tarde o vento estava frio.
Lúcia veio vindo lá do fundo da sala, devagar, e estendeu ao
homem inerte a xícara de
café. O vestido branco colado ao corpo, encharcado de chuva. Caracóis
molhados nos cabelos curtos. Um sorriso inocente nos lábios pequenos.
Como um anjo.
Não sei se Samuel despertou ou se dormira definitivamente. Lúcia
nunca me contou.
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