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DISCURSO DO RIO CEFISO
(Na Instalação da Academia de Letras
de Itabuna)
.
Senhores Fundadores da Academia de Letras de Itabuna:
Não era a primeira academia dos tempos modernos. O poderoso cardeal e
primeiro-ministro, com sua Académie
Française, praticamente dava
continuidade a duas outras, ambas criadas em Paris: a
Académie de Poésie et de Musique, em
1570, e a Académie
du Palais, em 1576, esta última para
cuidar da língua e da literatura francesas. E houvera também, na Itália, entre
1582 e 1583, certa Accademia della Crusca,
instituída por cinco florentinos para proteger e purificar o idioma italiano.
Mas a iniciativa do Cardeal de Richelieu em 1635 seria tão importante e tão
prestigiosa que passaria a inspirar as demais academias de letras, sempre com o
objetivo de cultuar a língua e a literatura, além de definir o vocabulário.
Só após essas duas visitas, à Grécia de Platão e à França de Richelieu, é que
voltaríamos ao Brasil, onde a inspiração da
Académie Française foi decisiva para
o sodalício que Machado, o admirável Bruxo do Cosme Velho, fundaria com seus
ilustres pares no ofício de escrever e amar a cultura.
Era
no apagar das luzes do século XIX, na Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro,
porém capital da República e referência cultural da nação brasileira. Fundada em
1897, quando a humanidade jamais poderia vislumbrar, nem mesmo com a exorbitante
imaginação de um Jules Verne, os maravilhosos avanços da ciência e da tecnologia
do século seguinte, a Academia Brasileira de Letras, longe de apagar-se no
obsoletismo e no desprestígio, cresceu em importância e consideração, a ponto de
tornar-se um objetivo glorioso dos que aspiram à imortalidade literária no
Brasil.
Como na
França a Académie Française,
entretanto, não foi a ilustre Academia Brasileira a primeira a ser instituída em
nosso país. Esse privilégio coube à Bahia. Chamou-se Academia Brasílica dos
Esquecidos, e foi fundada em Salvador, em 7 de março de 1724, reunindo quarenta
e quatro poetas e prosadores, uma iniciativa do vice-rei dom Vasco Fernandes
César de Meneses, Conde de Sabugosa. A esta se seguiram a Academia dos Felizes,
no Rio de Janeiro, em 1736, e a Academia dos Renascidos, outra vez em Salvador,
em 1759, agora com quarenta acadêmicos, no modelo da
Académie Française. Todas de vida
curta. Como de vida curta, curtíssima, foi certa Academia Baiana de Letras,
agremiação literária formada por vinte e cinco jovens escritores em nosso
estado, pouco antes da fundação da Academia de Letras da Bahia.
A data de
fundação da Academia de Letras da Bahia, 7 de março de 1917, não foi um acaso,
porém propositadamente escolhida para lembrar a Academia Brasílica dos
Esquecidos. Isso levou o quase perpétuo presidente da Academia Brasileira de
Letras, Austregésilo de Athayde, que via na concordância das datas de fundação
um propósito de continuidade, a nos recomendar que inscrevêssemos no brasão de
nosso sodalício: “Primeira Academia de Letras do Brasil”. Não o fizemos, não o
faríamos, preferindo a recomendação histórica e altamente louvável de nossos
fundadores: “Servir à Pátria honrando as Letras”. E não fazemos mal, quando
também honramos a Pátria, servindo às letras.
É
justamente o que me parece tenham se transformado as modernas academias de
letras, a começar pela nossa, a Academia de Letras da Bahia, uma instituição
permanentemente a serviço das letras. A velha concepção de uma agremiação
fechada, a reunir quase secretamente quarenta idosos acadêmicos, que entre um
gole de chá e uma fatia de bolo discutem a chave de um soneto, ficou
definitivamente no passado, se é que, em algum lugar e em alguma época, alguma
academia de homens de letras tenha se resumido a tão inúteis reuniões. O fato é
que, hoje, não se pode conceber uma academia de letras que não seja um núcleo
disseminador de cultura, aberto ao público e muitas vezes voltado para esse
público.
A Academia
de Letras da Bahia possui uma intensa programação cultural, e por que não dizer
educativa, que abrange cursos, seminários, colóquios e encontros de literatura,
concursos literários, publicações, exposições, palestras, conferências,
lançamentos de livros, além das atividades acadêmicas, como sessões ordinárias,
reuniões de diretoria, eleições de novos membros, posses, sessões de saudade,
comemorações de centenários e outras sessões especiais comemorativas. A nossa
biblioteca, cada vez mais especializada no livro baiano, e nosso arquivo, que
guarda a memória da instituição e de seus membros, encontram-se permanentemente
à disposição dos pesquisadores, além de atuarem em programas educativos e
re-socializantes, por meio do sistema de estágios com orientação e fiscalização
de nossos funcionários. Nosso site e nossa sala de informática nos colocam na
linha de frente na informação da cultura e na pesquisa.
Entendemos que
já não cabem, e principalmente não cabem em nossa realidade baiana
contemporânea, instituições culturais isoladas, que as iniciativas culturais se
fortalecem com as parcerias, e hoje temos, na Academia de Letras da Bahia,
parceiros importantes para as nossas realizações, como a Secretaria de Cultura
da Bahia, a Fundação Pedro Calmon, a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia,
a Fundação Casa de Jorge Amado, a Universidade Federal da Bahia, a Universidade
Estadual da Bahia, a Universidade Estadual de Feira de Santana, a Brasken, a
Eletrogóes, e o Goethe Institut.
Então, senhores
fundadores da Academia de Letras de Itabuna, o que fazeis nesta noite solene, e
esperamos todos que de fato assim seja, é inaugurar não uma agremiação reservada
aos seus eleitos, mas instituir, por meio de vosso compromisso acadêmico, um
poderoso instrumento de disseminação das letras, da literatura e da cultura em
seu sentido mais amplo, a favorecer não apenas a vossa encantadora cidade de
Itabuna, mas toda a vossa ampla, bela e fecunda Região do Cacau, a beneficiar a
própria Bahia e o próprio Brasil, já tão enriquecidos ambos por vossa
preciosíssima literatura.
A vossa academia — se
me permitis, a nossa academia, já que me concedeis o privilégio e a honra de me
tornar vosso membro correspondente — herda a tradição de uma literatura
poderosa, tão poderosa que valeria, ela isolada, por toda uma literatura
nacional. Bem mais que pelo poder econômico do cacau, tantas vezes assolado pela
devastadora praga da vassoura-de-bruxa, terá sido a força impressionante e a
excepcional qualidade da vossa literatura a inspirar Adonias a proclamar estas
terras sul-baianas de Nação Grapiúna. Cedesse eu, neste momento, à tentação de
citar, um por um, todos os grandes escritores e poetas, mortos e vivos, que
nasceram nestas terras cacaueiras do Sul da Bahia, os chamados grapiúnas, e
certamente transformaria estas breves palavras de abertura de vossa solenidade,
numa interminável proclamação de nomes notáveis. Permiti-me, entretanto, citar
apenas quatro dos que partiram e jamais partirão, e que se encontram entre os
patronos desta nova academia: o próprio Adonias Filho, Jorge Amado, Sosígenes
Costa e Jorge Medauar. Por meio deles, homenageio todos os outros, inclusive e
principalmente os que estão vivos e produtivos, a nos surpreender a cada
instante com o vigor do seu talento. Permiti também, e eu o reivindico como um
favor pessoal, que eu agradeça à minha editora e amiga Maria Luiza Nora, e ao
meu amigo e confrade, poeta e escritor Cyro de Mattos, e por extensão a todos
vós por vossa generosa concordância, o privilégio do título que esta noite me é
concedido.
Ditas estas palavras,
só me resta vos desejar que vosso Rio Cachoeira vos inspire, como inspirava o
Rio Cefiso a Platão e seus discípulos, e que possais realizar com vossa
academia, com nossa academia, todos os altos desígnios que honram a vossa
tradição literária.
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