
DOM HÉLDER CÂMARA: PASTOR BONDOSO E AMIGO DOS POBRES
Este artigo foi publicado em 2009 no Jornal “A Tarde” de Salvador no
Centenário do nascimento de Dom Hélder Câmara.
Estamos celebrando no próximo dia 7 de
fevereiro o centenário de nascimento de Dom Hélder Pessoa Câmara. Ao
lado de alguns dados históricos sobre sua vida quero tecer também
algumas observações sobre sua pessoa, sobre a primeira vez que o
encontrei e sobre alguns testemunhos de pessoas que conviveram com ele.
Dom Hélder é o
“nordestino” por
excelência. Nascido na cidade de Fortaleza, no Ceará, em 7 de fevereiro
de 1909, foi o décimo primeiro filho de João Eduardo. Foi ordenado
sacerdote em 15 de agosto de 1931 com apenas 22 anos, tendo autorização
especial da Santa Sé.
Sempre teve uma preocupação com os
pobres e nesse mesmo ano de sua ordenação fundou a Legião Cearense do
Trabalho e em 1933 a Sindicalização Operária Feminina Católica que
congregava as lavadeiras, passadeiras e empregadas domésticas. O
interesse pelos pobres e excluídos da sociedade sempre marcou sua vida.
Dom Hélder foi ainda jovem para o Rio de
Janeiro, com 27 anos, em 1936. Continuou no Rio sua atuação na área da
educação e no ensino da religião. Sempre muito dinâmico e querido pelos
padres e fiéis, foi nomeado bispo em 3 de março de 1952. Foi sagrado no
dia 20 de abril do mesmo ano pelo Cardeal Dom Jaime de Barros Câmara.
Como jovem bispo continuou no Rio seu
trabalho com os pobres e excluídos.
Fundou em 1956 a “Cruzada São Sebastião”, cuja finalidade era dar
moradia decente aos favelados. Por essa iniciativa surgiram alguns
conjuntos habitacionais na cidade. Em 1959 fundou o Banco da
Providência, cuja atuação se desenvolveu no atendimento a pessoas que
viviam em condições miseráveis.
Sendo um bispo dinâmico e zeloso teve
uma profunda experiência da Igreja antes do Concílio Vaticano II.
Participou ativamente da pastoral e dos diversos movimentos eclesiais,
sendo muito apreciado e querido
por sacerdotes e fiéis.
Teve singular participação no Concílio
Vaticano II e na fundação da CNBB e do CELAM. Foi um grande promotor do
colegiado dos bispos e da renovação da Igreja Católica, fortalecendo a
dimensão do compromisso social.
Sua atuação como bispo não passou
despercebida pelos papas João XXIII e Paulo VI. Dom Hélder era um bispo
de pequena estatura física, porém um gigante na fé, na cultura e na
pregação da Palavra. Tinha um carisma todo especial. Possuía uma voz
agradável e era profundamente expressivo. Quando pregava tinha belos
gestos. Como o Papa Pio XII, gesticulava de forma ímpar. Parecia que
estava abraçando as pessoas para falar aos seus ouvidos.
Certa vez, quando ainda adolescente,
estava conversando com Dom Clemente Maria da Silva Nigra OSB, monge do
Mosteiro de São Bento da Bahia e fundador do Museu de Arte Sacra de
Salvador. Recordo-me que falávamos sobre Dom Hélder e num determinado
momento Dom Clemente me confidenciou que o Papa Paulo VI quis nomear Dom
Hélder para arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. Tudo se
encaminhava para isso. Porém havia um problema: o Cardeal Dom Augusto
Álvaro da Silva, não queria
renunciar ao cargo e por isso Dom Hélder foi enviado para Olinda e
Recife.
A Bahia perdeu e Pernambuco ganhou muito
com a nomeação de Dom Hélder em 12 de março de 1964. Exerceu seu múnus
como pastor até o dia 2 de abril de 1985. Na arquidiocese de Olinda e
Recife instituiu um governo colegiado, organizou os setores pastorais,
criou o Movimento Encontro de Irmãos, fundou o Banco da Providência, a
Comissão de Justiça e Paz e fortaleceu as comunidades eclesiais de base.
Em 1974 quando eu tinha 16 anos fui do Rio para passar férias com meus
tios e primos em Recife e pude perceber como as comunidades católicas
eram alegres e dinâmicas. Meus parentes eram católicos e todos o
elogiavam e manifestavam grande admiração por seu pastor. Todos o
apresentavam como um homem simples e profundamente solidário. Era muito
querido não somente pelos católicos, mas também pelos intelectuais. Pude
perceber quem era Dom Hélder: homem bom, simples, solidário, corajoso,
culto, poeta e “místico”.
A primeira fez que encontrei com Dom Hélder Câmara foi em janeiro
de 1981, durante um encontro de beneditinos em Olinda. Num dos dias do
encontro ele apareceu para uma visita e para nos falar como pastor.
Realmente era um homem impressionante.
Com sua batina cor de creme
e sua pequena estatura parecia um pároco do interior. Isso por si
mesmo já cativava. Em nosso país os mais idosos conhecem os antigos
vigários que viviam em paróquias das cidadezinhas e que eram
profundamente amados por seus paroquianos. Quando esse homem começou a
falar, houve um profundo silencio e para nós ouvintes uma grande
admiração. Como falava bem: a voz cativante e simpática, os gestos
amplos dos braços, parecia que quisesse abraçar todos e os temas eram
atuais naqueles dias: a participação dos afro-descendentes na vida da
igreja e na vida monástica e as multinacionais que poderiam gerar
pobreza e desigualdades sociais. Lembro-me que naquele dia falou sobre a
produção de álcool no nordeste.
Pude perceber que os monges do mosteiro de Olinda também o
admiravam e um irmão me havia dito que Dom Hélder era de uma grande
solidariedade com o povo. Dizia que se houvesse uma catástrofe num dos
bairros da capital, com vítimas, com certeza Dom Hélder estaria lá para
consolar a população. Depois dessa minha viagem, como jovem monge,
definitivamente passei a admirar Dom Hélder.
Ao longo dos anos fui acompanhando seu ministério e me encantei
com seus escritos que constavam de orações e poesias.
Dom Hélder era um homem de profunda vida
de oração. Acordava todos os dias às 02.00 e rezava até às 04.00 horas.
No silêncio da madrugada rezava por aqueles que havia encontrado no dia
anterior e pedia as bênçãos de Deus para o dia seguinte. Morava numa
casinha atrás de uma igreja no centro de Recife. O episcopado brasileiro
teve homens ilustres e dedicados ao longo de sua história. Dom Hélder
foi um digno representante desse colégio episcopal. Termino este artigo
com uma frase de Dom Hélder que mostra sua grande humildade:
“Só as grandes humilhações nos
levem ao recesso último de nós mesmos, lá onde as fontes interiores nos
banham de luz, de alegria e de paz”.
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