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O CENÁRIO DA INCONFIDÊNCIA REVISITADO POR ILDÁZIO TAVARES
Nos IX sonetos da Inconfidência, Ildázio Tavares (1999) revisita o cenário de um acontecimento da história do Brasil: a Inconfidência Mineira, dando voz a diversos personagens que participaram do movimento contra o domínio português, na segunda metade do século XVII, em Vila Rica, Minas Gerias. Entretanto, se as vozes que ecoam nos nove sonetos são capturadas da Inconfidência Mineira, hoje preferencialmente denominada de Conjuração Mineira, esses personagens ultrapassam a situação na qual estão inseridos, dialogando com problemáticas históricas e políticas que não foram deslocadas com o transcorrer do tempo.
Sabemos como a Inconfidência tornou-se um fértil episódio da história do
Brasil, tematizado por diversos escritores, como faz Ildázio Tavares nos
seus IX sonetos e como fez Cecília
Meireles, no seu Romanceiro da
Inconfidência. Reinterpretar
a História tem sido uma constante da literatura, ao penetrar nas
fissuras deixadas pelos registros
do discurso historiográfico, ou deslocando os sentidos já estabelecidos
historicamente, trazendo outras possibilidades de interpretação do
passado. Estes deslocamentos ocorrem pela
liberdade que tem a expressão poética na apropriação e na tradução dos
acontecimentos.
Elegendo a subjetividade como um potente ingrediente do fazer
poético, a literatura assume uma perspectiva não convencional na captura
da história, destacando-se primordialmente a poesia pela especificidade
do signo da lírica, com forte teor emotivo e expressivo.
Dessa perspectiva, o primeiro elemento a salientar na leitura dos
IX sonetos
da Inconfidência é o aspecto
de que todos eles, à exceção do
soneto “VIII - O embuçado”,
iniciam com a expressão “Meu coração...”. É,
portanto,
partindo do sentimento de cada personagem da Inconfidência
Mineira, identificando-se o coração como
signo do sentimento, que Ildázio Tavares
traz para o presente a voz de
O Gonzaga (soneto I), O Manuel (soneto II), O Alferes (soneto
III), O Silvério (soneto IV), A
Doroteia, (soneto V),
O Marquês (soneto VI),
Os Alvarenga (soneto VII),
O Lisboa (soneto IX). E é a
partir da fala de cada
participante que se constrói a sua identidade.
Todas as vozes, como é próprio do gênero lírico, atualizam o que
particulariza a história de cada personagem, flagrada sob o crivo
da subjetividade e da emotividade
líricas. Assim, a reconstrução do dado histórico efetua-se a partir da
singularidade de cada ator da Inconfidência, tecendo-se
relações
pessoais e sentimentais, e
elegendo como objeto de expressão o sentimento desses protagonistas
diante das tramas nas quais estão
envolvidos. Não é o acontecimento em si, na sua pretensa objetividade,
que interessa a Ildázio Tavares. O que lhe interessa é saber como o
sujeito se posiciona emocionalmente diante da ação que lhe diz respeito.
Digno de destaque é que a história é reconstruída valendo-se do soneto,
forma de expressão tradicional, que obedece às rimas e
à métrica impostas pelo gênero. Todavia, através do léxico
utilizado, Ildázio Tavares atualiza
e recria esta forma de expressão lírica, retirando dos
acontecimentos a carga aurática
que circunda a vida desses heróis, humanizando-os, ao expor as
suas fraquezas e fragilidades, exibidas através
da voz poética que encorpa e se encorpa no poema.
Esta leitura não atravessa o território discursivo de todos os
IX sonetos, porém,
elege primordialmente como objeto
de abordagem os poemas que, além de dramatizarem
questões da Inconfidência (nestes textos, a lírica está
fortemente mesclada com a dramática) tratam
de questões de poesia e de
literatura. Ildázio Tavares, ao se adentrar no cenário da Inconfidência
Mineira, realiza também uma incursão pela própria literatura, refletindo
sobre a função social da poesia. Nesse sentido, é importante ressaltar
que a primeira voz trazida ao cenário
dos IX sonetos
da Inconfidência, no soneto
“I - O Gonzaga,” é a
fala do poeta Tomás Antonio
Gonzaga, o poeta árcade, cantor de Maria Doroteia Joaquina de Seixas
Brandão, a pastora de Marília de
Dirceu.
Ao enunciar a sua fala, Gonzaga se autocaracteriza
da seguinte forma: “Meu coração é um louco inconfidente / Pelas minas
gerais dos seus amores. / Ele alvarenga, ele claudica em dores. / Mas
doroteia sempre, impertinente”. Destaca-se,
no trecho citado, a maneira como Ildázio Tavares
constrói os versos do poema,
utilizando-se de um léxico que evoca simultaneamente personagens
que participaram da Inconfidência
Mineira ao lado de Gonzaga – Alvarenga Peixoto e Silva Alvarenga,
Claudio Manuel da Costa –
mas que também se refere
a atributos que caracterizam o
sentimento do
poeta árcade, enquanto integrante
da Conjuração Mineira. Substantivos próprios aparecem deslocados da sua
função de nomear, para transformarem-se em ações verbais, como em “ele
alvarenga”, “ele claudica”, integrando significante e significado na
temática desenvolvida pelo soneto. Na
expressão “Mas doroteia sempre, impertinente” omite-se o verbo amar e
conjuga-se o nome próprio
Doroteia, no sentido de afirmar o sentimento de amor de Gonzaga por
Doroteia-Marília.
A caracterização do coração como
“louco inconfidente” é ambígua pois,
se por um lado a palavra inconfidente define o poeta Gonzaga como um dos
membros da Inconfidência Mineira, por outro lado, inconfidente confirma
o sentimento infiel, desleal do
personagem. Tomás Antonio Gonzaga
foi acusado de conspiração. Por isso foi
preso e depois degredado. O
soneto faz referência a Doroteia
e ao degredo em Moçambique,
aos dissabores da derrama brutal que derruba o sonho e a utopia –
tema que perpassa outros sonetos,
como o soneto VII.
As imagens da pátria e de
Marília, vistas de longe, no
degredo nomeado como “treva” e “purgatório”, contracenam com as imagens
do “pirilampo azul” – a pátria, e da “beleza”
do purgatório que é Marília:
“Brasil é um pirilampo azul na treva / Marília é um purgatório de
beleza”. O último verso do soneto define a situação de degredo de
Gonzaga, lançado ao esquecimento e à tentativa de apagamento de sua voz:
“E ninguém sabe onde andará Dirceu.”
No soneto “ V - A Doroteia”, a
relação amorosa entre Tomás Antonio Gonzaga e Maria Doroteia Joaquina de
Seixas Brandão é trazida à cena textual, desconstruindo-se, todavia, a
carga idílica e poética com que tem sido caracterizado o amor desses
personagens. A ironia perpassa a fala de Doroteia, que evoca a força
selvagem do seu sentimento, rasurando a visão idílica com a qual foi
construída através dos versos de Gonzaga, no seu poema árcade
Marília de Dirceu
– “Meu coração é um pássaro
selvagem, / que não cabe na gaiola da poesia: / se canta rouxinol ou
cotovia/ pouco importa”. Além de deslocar seu lugar na história da
lírica brasileira como a musa inspiradora eternizada nos versos de
Dirceu que, de acordo com a
perspectiva afirmada pelo texto de Ildázio a aprisiona, a voz de
Doroteia rasura
ainda uma antológica cena de amor
da literatura universal: a de Romeu e Julieta, de W. Shakespeare, a
partir da referência ao canto do rouxinol e da cotovia. A ironia que
constrói o poema acentua-se quando Doroteia revela seu descaso pela
poesia, desvalorizando um capital simbólico que a pereniza nos poemas de
Tomás Antonio Gonzaga, valorizando, em troca, o capital
financeiro, os bens da burguesia:
“Importa meu vestido e que esta aragem / balance e beije a minha
burguesia. /... / Outra viagem / hei-de fazer que não de versos fúteis,
/.../”. Além da referência ao
texto da tragédia Romeu e Julieta,
de Shakespeare, outra citação está inscrita neste soneto, fazendo
ressoar os versos: “Auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do
Brasil beija e balança”, do poema “Navio negreiro,” de Castro Alves.
Através da fala de Doroteia, a
atuação do poeta é também abalada, dramatizando-se neste ato a dicotomia
que tem caracterizado a função da
poesia: dulce
et utile – prazer e utilidade: “Os
agradáveis hão de unir-se aos úteis. / Poesia? Deixa eu comer uma
cocada.” O último verso do soneto V explicita claramente o teor de
deslocamento que a voz de Doroteia imprime a determinadas perspectivas
clássicas e românticas da poesia, dando outra dimensão às
figuras consagradas da
literatura, despoetizando-as e
desromantizando-as, como a decantada Marília de Dirceu.
Vale a pena salientar ainda
que, conforme esboçado na fala de
Doroteia a conspiração não foi um ideal político ou emancipatório,
porém, um movimento envolvido com
o dinheiro, com a preservação da riqueza de segmentos da política
brasileira (proprietários rurais, clérigo, militares e intelectuais),
diante da ação da colonização portuguesa, e a amplitude desses
interesses perpassa a própria arte – a literatura.
O soneto VII - Os Alvarenga, sob a ótica do poeta da inconfidência José Alvarenga Peixoto, volta a tecer outras referências à função
social da poesia, mais especificamente no que diz respeito à poesia como
instrumento de transformação social. Se o soneto V- A
Doroteia flagrou a revolta da
musa inspiradora de Dirceu em relação ao processo de idealização e de
mitificação operado pela poesia, onde se sente aprisionada, aqui a voz
do poeta Alvarenga, diante do fracasso da conjuração, percebe os limites
da poesia no processo de transformação da história e da sociedade. O
soneto inicia afirmando melancolicamente: “Meu coração, ao cais ele não
chega – / não se muda este mundo com poesia. / O beijo inebriante da
Utopia / afirma enquanto a realidade nega.’’
para, no último verso, constatar
mais enfaticamente: “poesia nunca fez revolução.”
Se a constatação desse eu lírico
é que poesia nunca fez revolução, por que escrevem os poetas? Que tipo
de revolução faz a poesia? O que fazem estes versos do poeta Ildázio
Tavares, com essa belíssima dicção lírica, de herança
portuguesa, porém, tão
pessoal, singular e contemporânea? Estes
IX sonetos da
Inconfidência não estariam empreendendo um tipo de revolução, de
conspiração poética, ou de inconfidência poética, ao abalar e deslocar
os sentidos já sedimentados através da história desses protagonistas do
Brasil colonial? Não estariam estes sonetos
presentificando para nós,
leitores do século 21, esses personagens, espécies de fantasmas da
história, condenados ao degredo ou ao cadafalso, mortos, silenciados, e
agora vivificados pela potência revigoradora da dicção lírica de Ildázio
Travares?
Afinal, quem tem o poder de
vivificar as paisagens do mundo, de dar corpo e injetar sangue na veia
dos fantasmas senão a poesia? Quem pode restituir aos reis errantes o
seu trono e aos poetas degredados e silenciados a sua voz, senão a
própria poesia? Que história da Inconfidência Mineira
possibilitou, ou
possibilita, conviver de maneira tão próxima com a intimidade de cada um
desses protagonistas, penetrar na sua
subjetividade, e viver o imponderável do que foi sentido e vivido por
cada um deles? Isto não é uma revolução? Isto não é a construção de uma
utopia, um lugar atópico, um não lugar onde se pode viver qualquer
lugar? E isto não é uma realidade palpável, concreta, realidade
construída através da linguagem, dos signos literários que potencializam
virtualidades, concretizando-as através das palavras e das imagens
poéticas? Se a razão iluminista que presidiu a gestação da conjuração
mineira não norteou com eficácia os acontecimentos – conforme indagação
de Os Alvarenga: ”De que serviu
nossa iluminação?” –
a poesia, através do sentimento,
pode iluminar os fantasmas do passado, reconstruindo-os na sua
historicidade, no momento presente da enunciação
e da expressão líricas.
O soneto II
traz à cena do presente
a voz de O Manuel – Cláudio Manuel da Costa –
poeta e jurista da época colonial. O gesto flagrado é o do
suicídio do poeta inconfidente, enforcando-se na prisão, ratificando-se
uma das versões da historiografia
para sua morte. Aqui o personagem inicia a sua fala: “O meu coração
balança numa corda – / nunca
mais vai parar de balançar.” e
mais adiante : “ Eu morro e Vila Rica não acorda!” A fragilidade do
personagem é exposta pelo
ato cometido (o suicídio) diante do fracasso do movimento conspiratório.
A desilusão do poeta registra-se no verso “A liberdade / É só um nome
escrito na bandeira, / uma distante e tênue claridade”, revelando-se,
por esta via, a fragilidade ideológica de um dos participantes do
movimento. Ildázio Tavares imprime
à sua figura a marca da solidão,
do abandono, pois, como ele diz no último verso, “somente a morte é
minha companheira”.
“Meu coração é um arsenal de
horrores / e dores que atropelam o meu país”. É assim que se introduz no
proscênio a voz de O Alferes (soneto III) – José Joaquim da Silva
Xavier, considerado pela
historiografia como o mártir da Inconfidência. Nos dois primeiros
versos, verifica-se a identificação desse personagem com
a coletividade, com as dores que atormentam o país, em
decorrência das arbitrariedades cometidas pelos portugueses.
Expõe-se aqui a solidão do
protagonista, na medida em que ele é o
único dos Inconfidentes que assume explicitamente a sua participação na
conspiração, como registram os versos: “Fui eu só que errores / cometi?”
/.../ “Só eu é que garanto os meus culhões?” Por outro lado, o seu
caráter de exceção diante dos demais é assinalado a partir da sua
coragem e firmeza – a sua ética e a sua ideologia – em não recuar diante
dos poderosos e não omitir a sua atuação. A sua firme decisão contrasta
com o eterno balançar do coração de
O Manuel ( soneto II), como traduzem os versos: “Eu confesso tudo ao juiz / e hei de
morrer sem medo” /.../ “Então só eu errei. Chamem o carrasco.” O
martírio é assumido sem piegas e sem receio. O alferes despoja-se de
toda e qualquer marca de heroicização, assumindo politicamente a sua
atitude, porém, de qualquer modo, o poema aponta para uma arrogância do
personagem que o identifica aos personagens trágicos, que transgridem os
limites impostos pela ordem estabelecida e não recuam diante da própria
tragédia que se anuncia.
Destaca-se, no soneto IV – O
Silvério, a voz do Joaquim
Silvério dos Reis, o delator dos inconfidentes.
Conta a história que Silvério denunciou o movimento conspiratório
porque queria o perdão da sua dívida perante a Fazenda Real. O soneto
flagra a intimidade do personagem, exibindo a sua ganância pelo
dinheiro, e a fragilidade dos valores que constroem a vida pública e
privada de Silvério. :“Meu coração é de metal sonante / e se eu tivesse
trinta corações / eu venderia todos.” Mais adiante, sem subterfúgio e
sem mascaramento, ratifica valores
que predominam na construção da identidade nacional:
- “Mas o ouro é quem seduz as multidões / e das nações é doce
governante. /.../ Se trinta
corações hoje eu tivesse, /
eu juro, todos trinta eu venderia.” Desde o verso inicial, a alusão ao
metal – ao ouro – particulariza o personagem. À imagem do traidor
disseminada pela historiografia, Ildázio Tavares superpõe a imagem do
ganancioso, da ausência de valores éticos e morais, da corrupção que
tudo viabiliza.
Este soneto – como todos os
demais - é de uma atualidade espantosa, pois superpõe momentos
diferentes da história do Brasil, possibilitando que se leia,
através da voz de Silvério dos
Reis, muitas vozes que estão subjacentes na atitude de protagonistas do
cenário político brasileiro da atualidade, exibindo-se, por essa via, um
retrato do Brasil colonial e contemporâneo. Nesse sentido, a lírica de
Ildázio Tavares, ao revisitar o cenário da Inconfidência Mineira,
oferta-nos uma contundente versão da
história do Brasil, já que esta versão é expressa pela voz de cada
figurante que, no espaço de liberdade da poesia, expressa suas
fragilidades, indecisões, anseios e certezas, desvelando o seu ser e
ofertando-nos outras possibilidades de compreensão do passado e do
presente históricos.
*****
Esta cena de leitura de poemas e
diálogo com o escritor Ildázio
Tavares nos Encontros Literários da Academia de Letras da Bahia permanece
afetivamente na minha memória como um dos nossos últimos encontros,
quando tive o privilégio de ser escolhida para dialogar
com Ildázio Tavares sobre sua
poesia. Hoje, quero homenagear o poeta, o colega da UFBA, o amigo,
expressando o meu afeto pela pessoa de Ildázio e a minha grande
admiração pelo poeta que é. O colega e o amigo já não estão mais aqui. O
poeta está vivificado no vigor de sua poesia. Encantou-se no reino das
palavras.
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