
LA VORÁGINE – O ROMANCE AMAZÕNICO DA COLÔMBIA
Há 88 anos, um advogado recém-formado
pela Faculdade de Direito e Ciências Políticas da Universidade Nacional de
Bogotá, José Eustasio Rivera, iniciava uma das mais extraordinárias viagens já
realizadas em seu país
Nomeado membro de uma Comissão
encarregada de efetuar a demarcação das fronteiras entre a Colômbia e a
Venezuela, partiu para o sul do seu país, percorrendo um trajeto que poderá, em
nossos dias, ser considerado absurdo, mas que era, em sua época, o mais viável –
desceu o rio Madalena, que corre para o norte, na direção do mar das Antilhas,
seguiu, costeando o litoral do Caribe, na direção do leste, passou por
Port-of-Spain, em Trinidad e chegou à foz do Orenoco, por ali penetrou e subiu o
seu curso até sua confluência com o rio Meta, situado na fronteira, pelas bandas
do sul, desses dois países, e
seguiu, então, para a cidade de San
Fernando de Arabapo, ainda mais ao sul, de
onde começou
a percorrer as terras banhadas pelo rio
Inírida, na província colombiana de Guaínia. E quando decidiu regressar a
Bogotá, dali retornou ao Orenoco, por ele navegou até o canal de Cassiquiare,
por ele navegou até alcançar o rio Negro, principal afluente brasileiro do
Amazonas, sendo este rurio por ele percorrido até sua foz, dali havendo seguido,
já sobre águas do oceano Atlântico, acompanhando a linha da costa, na direção do
mar das Antilhas, indo alcançar, afinal, o mesmo rio Madalena, de onde partira,
em sua viagem de ida, por ele então havendo navegado, subindo o seu curso, a fim
de chegar de volta à capital da
Colômbia.
De tudo o que viu e ouviu, ao longo
dessa sua viagem, resultou a redação de um dos mais extraordinários romances da
literatura latino-americana – La vorágine;
havendo sido José Eustasio Rivera, o primeiro escritor a revelar as torpezas e
injúrias sofridas pelos seringueiros na floresta amazônica, antecipando-se,
pois, ao falar desse assunto, ao romance que iria, seis anos depois, aparecer,
escrito por Ferreira de Castro – A Selva,
este, no entanto, com sua estória a desenvolver-se na Amazônia brasileira. E
mesmo que a ação dos personagens de La
vorágine se desenvolva tanto nos
llanos como na selva, daremos, aqui, realce à parte do texto onde
e quando a mata se torna cenário
privilegiado para a narrativa, desempenhando o papel de algoz e, mais que isso,
assumindo o caráter de “voragem” e
abismo.
A
selva sádica y vírgen... a selva vista
e idealizada por Rivera, acabou por
devorar Arturo Cova, o principal personagem do romance e os seus
companheiros. E sendo este, o narrador da estória, e havendo sido também
fundamental o seu desempenho, agindo como condutor dos acontecimentos, torna-se
Arturo Cova peça essencial para a compreensão do romance; tendo sido através de
sua voz, que, como afirmou Montserrat Ordóñez
1, aprendeu
o século XX “a imaginar e descrever a
selva”, de modo igual,
“a interpretar a relação entre o homem e
a natureza”; e, finalmente, a entender o
seu relacionamento com seu próprio mundo interior, condicionado pela presença e
influência de “uma natureza mítica, personificada e carnavalizada.”
2 E
como resultado da presença simultânea no romance, do autor e do narrador por ele
criado, e aqui seguindo o rumo tomado
pela apreciação de Montserrat Ordóñez, irá Rivera, aos poucos,
“desaparecendo como pessoa relacionada
com sua obra, com sua biografia e com os fatos pitorescos de sua vida, que
passam a ser dados de interesse mais histórico que literário, enquanto a voz de
Cova, fragmentada e enigmática, nela se mantém e cresce.”
Razão pela qual, torna-se essa sua voz,
a
“versão autorizada e descomprometida da
selva americana, a do testemunho da atroz perseguição dos
caucheros,
a do homem enlouquecido no interior da selva, cárcere verde e
locus terribilis.”
E em
La vorágine, enquanto a voz
de Rivera, no curso da sua narrativa,
vai desaparecendo, a de Arturo Cova, apesar de sua condição de personagem
contraditório e pouco confiável, nela permanece, mantendo-se, mesmo despedaçada,
colocada por Rivera, como “a chave do êxito do livro, a possibilidade de sua
sobrevivência”.3
Arturo Cova é um homem da cidade grande,
com boa formação em estudos literários, que foge para a região de Casanare, na
parte oriental do país, embrenhando-se em seus
llanos.4,
tendo chegado às matas do sul, em companhia de Alicia, uma jovem que abandonara
sua casa, em Bogotá, e com ele partira, por não querer casar-se, forçada pela
família, com um rico fazendeiro, pelo qual não sentia qualquer afeição. Não a
amando, no entanto, Arturo Cova, de modo tão grande que pudesse
justificar essa fuga; a ela tendo sido
levado, em verdade, por seu espírito aventureiro.
Outro personagem possui no romance, voz
explícita, e será através dela que iremos saber muito do que nele foi dito sobre
os indígenas que habitavam a região das matas, e acerca de
quem eram e como viviam os
caucheros – a de Clemente Silva., que
somente aparece na segunda parte do romance, como um elo entre a
civilização e a floresta, nela inclusos os seus habitantes,
tornando-se este personagem, a partir de
então, muito importante no contexto da narrativa,
embora haja sido colocado, do ponto de
vista cultural, mais perto do branco que do indígena, tanto por seus valores
como pelo seu comportamento.
Como vemos, Rivera fala, valendo-se de
vozes várias, sabendo delas utilizar-se, nos momentos exatos em que delas
necessita, a fim de permitir aos seus leitores entenderem como funcionam os
laços que unem os que foram levados a conviver na selva que os domina e quase
sempre os anula ‒ o branco, o
caboclo e o
índio, categorias distintas no
conjunto humano de sua narrativa, todos subjugados pelo poder imenso da mata e
forçados a ceder, uns aos outros, partes de si mesmos, para que consigam ali
sobreviver. E como afirma Montserrat
Ordóñez, a voz de Clemente Silva é “a da sabedoria e da sobrevivência”,
mostrando-se capaz de expressar a ética dos
brancos – a de que “os fins
justificam os meios”. Surgindo a selva,
nessa sua fala, habilmente identificada pelo autor, com seu personagem a partir
de quando lhe deu
o sobrenome –
Silva, tendo surgido, de forma
inesperada, em plena selva, frente aos homens conduzidos por Arturo Cova,
passando a sua aparição a assinalar a tomada, pela
estória, de um novo rumo.
Clemente Silva havia vivido durante
dezesseis anos nas montanhas do país. Ele trabalhara como
cauchero em suas matas e encarna toda
a sabedoria obtida com sua experiência de vida; tornando-se, conforme vimos, o
elemento de ligação entre a selva e o mundo civilizado, entre os indígenas e os
brancos, ou seja – entre os que antes nela viviam e os que para ali chegaram,
destinados ao trabalho da extração da
borracha. E será ele quem dirá a Arturo Cova e aos seus companheiros quem foram
esses recém-chegados, de que modo agiram naquelas matas,
tanto quanto
como nelas, desde então,
se passaram as coisas.
Esclarece, a seguir:
“Cada dono de seringal tem
caneys que servem de moradia e de
armazém. (...) Esses depósitos ou barracas jamais estão vazios, porque neles se
guarda a borracha com as mercadorias e as provisões, e os capatazes moram ali
com suas amantes”
E em sua narrativa, prossegue, falando
dos que trabalham nos seringais:
“O pessoal dos trabalhadores se compõe,
em sua maioria, de indígenas e contratados que, segundo as leis da região, não
podem mudar de dono antes de dois anos. Cada indivíduo possui uma conta na qual
são anotadas as bugigangas que lhes são empurradas – as ferramentas, os
alimentos e a borracha extraída, que nela é registrada por um preço irrisório,
determinado pelo patrão. Nunca um seringueiro sabe quanto custa o que recebe
nem quanto lhe está sendo pago pela
borracha que entrega, pois o segredo do dono do seringal
está no fato de esconder o modo pelo qual o trabalhador continuará a ser
seu devedor. E essa nova forma de
escravidão atravessa todo o curso de vida desses homens e se transmite aos seus
herdeiros”
E diz, ainda, que,
“pelo seu lado, os capatazes inventam
diversas formas de espoliação, roubam a borracha dos seringueiros, tiram-lhes as
filhas e as esposas, mandam-nos para o trabalho em
caños paupérrimos, onde não poderiam
tirar a borracha que lhes é exigida, e isso dá motivos para insultos e castigos
executados a chicote, quando neles não se envolvem tiros de Winchester. E
bastará dizer depois que fulano se
picureou ou que morreu de febres, para que tudo se arrume”
E acrescenta:
“Não se devendo esquecer onde entram a
traição e o dolo. Nem todos os peões são pombas brancas. Alguns deles pedem para
ser contratados somente para roubar o que recebem, ou ir para a mata, a fim de
matar um inimigo, ou para ludibriar seus companheiros e acabar por vendê-los
para outras barracas.”
5
Acaba declarando que viveu em tais
condições, naquelas terras, durante dezesseis anos, qur foram por ele
considerados “anos de miséria”; desde que a escravidão
que ali é imposta, pelos donos dos
seringais, aos que neles trabalham,
valendo-se da indiferença, a respeito,
das autoridades do país, nunca, em verdade, se extingue.
A voz de Rivera soa, então, forte e em
alto tom, através da fala de Clemente Silva. Por ela são confirmados, inclusive,
os desmandos e o arbítrio mantido por Julio Cesar Arana, sobre as terras do
Putumayo, desde que o velho peão declara haver ali trabalhado, em seus
seringais, e relata o que por lá se passava.
E ao voltar a falar pela voz de Arturo de Cova, Rivera, considera a
selva, como sádica e somente encontra
uma solução para dela escapar – a fuga, que ele, contudo, não conseguiu efetuar.
Brada,
a seguir, desesperado, que “o homem civilizado é o paladino da destruição.”
Afirma,
no entanto, existir “um valor magnífico na epopéia desses piratas que escravizam
os seus peões, exploram os índios e lutam contra a selva”
E explica que
. “atropelados pela infelicidade,
provindos do anonimato das cidades, lançaram-se nos desertos buscando alcançar
um final qualquer para suas vidas estéreis. Delirantes de paludismo,
despojaram-se da sua consciência e co-naturalizados com cada risco corrido, sem
qualquer outra arma que a Winchester e o machadinho, sofreram as mais atrozes
necessidades, ansiando prazeres e abundância, arrostando os rigores das
intempéries, sempre famintos e até mesmo desnudos, pois as
suas roupas haviam apodrecido sobre a carne dos seus corpos.”
6
E, a seguir, de forma irônica e
perversa, revela como esses homens chegaram, um dia, à beira de um penhasco, à
margem de um rio qualquer da região, e se declararam, simplesmente, sem qualquer
escrúpulo, “donos de empresa”. E mesmo que houvessem entendido ser a selva, sua
principal inimiga, eles demonstraram ali não
saber a quem ou como combater; e por
isso acabaram sendo por ela vencidos e destroçados.
Tendo sido
através da voz de Balbino Jacome, outro
velho seringueiro, que Rivera revelara,
pouco antes, a amargura de vida dos que
para ali se dirigiram, quando pede
ao Visitador que havia chegado ao
seringal onde se encontrava, que quando ele pisasse
“terra cristã”, pagasse uma missa
em sua intenção; valendo
essa missa, também,
pela “esperança que perdemos.”
Revelando, então, àquela pessoa
que se apresenta
frente a ele,
como uma
autoridade maior, que ‒ “o
crime maior “ a ser ali por ele
apurado, não estava na selva, mas nos livros de escrituração dos seringais; e
afirma:
“Se
Sua Senhoria os conhecesse, encontraria muito mais leitura no
Deve que no
Haver, já que muitos homens são
lesados na conta por simples cálculo, segundo o que informam os capatazes.
Acharia, contudo, dados vergonhosos: peões que entregam quilos de borracha por
cinco centavos e recebem tecidos de vinte pesos, índios que trabalham há seis
anos, e ainda aparecem devendo o mañoco
do primeiro mês; crianças que herdam dívidas enormes, procedentes do pai que
mataram, da mãe que forçaram, das irmãs que violentaram, dívidas que não
saldariam em toda sua vida, porque, quando chegarem à puberdade, só os gastos de
sua infância lhes darão meio século de escravidão”.
7
Seu tom de denúncia é forte e eloqüente.
E nela chega a envolver a participação conivente das autoridades do
Governo da Colômbia, nos crimes ali praticados, quando põe o Visitador a falar ,
passando, então, a perguntar –
:
“Que ganharíamos com a evidência de que
fulano matou sicrano, roubou mengano,
feriu beltrano? (...) Deus nos livre de que se comprove algum crime, porque os
patrões conseguiriam realizar o seu maior desejo: a criação de prefeituras e de
cadeias, ou melhor, a iniqüidade dirigida por eles mesmos”
E ao acrescentar:
“... o presidente da República não disse
que enviou o general Velazco para licenciar tropas e guardas no Putumayo e no
Caquetá, como resposta muda ao pedido de proteção que os colonizadores dos
nossos rios lhes faziam diariamente? Paisano, paisaninho, nós estamos perdidos!
E o Putumayo e o Caquetá também estão sendo perdidos!”
8
E voltando a falar dos indígenas da mata
colombiana, deles nos diz Rivera, agora através da voz de Arturo Cova, serem
eles povos “rudimentares e nômades” que não possuem “deuses, nem heróis, nem
pátria, nem pretérito nem futuro”; não havendo dúvida sobre o fato de ele
próprio considerar-se superior
aos indigenas; mas tornando-se, pelo que, conclui Montserrat Ordóñez,
falando a seu respeito,
“o grande defensor do índio explorado
nas caucherias”, sendo,
no fundo de si mesmo, “um triste remendo
do conquistador e colonizador europeu”;
ainda mais,tomando por base o que sobre eles disseram, no curso do
romance, o
próprio autor e os seus
personagens Arturo Cova e Clemente Silva, sendo no romance
reconhecido o fato de serem
os índios. “o grupo humano
mais explorado”, pois que “devem entregar suas mulheres e suas filhas, se acham
escravizados por dívidas impossíveis de ser pagas, e são torturados e
assassinados sem piedade ou por simples
diversão.”
9
Tratemos, finalmente, da selva, como
abismo voraz dos homens que a penetram, levando consigo a ilusão de poder
dominá-la, segundo a visão do próprio José Eustasio Rivera, expressa através das
vozes de Arturo Cova e Clemente Silva.
Segundo eles, como informou Montserrat
Ordóñez, “a selva é cárcere e inferno, escura e úmida, sexual e imunda,
abismo antropófago, boca que engole
os homens e causa da sua crueldade”. Tornando-se claro que para o homem
civilizado, estar na selva não é cousa que ele possa desejar; pelo que ele
somente deverá cuidar de
atravessá-la, em viagens
imprescindíveis, a fim de explorá-la, ao
tentar vencê-la, mas nunca para nela viver
De todo oportuno, será, então, a
transcrição de dois trechos colhidos do romance de José Eustasio Rivera,
a\través dos quais o autor-poeta assume
o lugar do autor-novelista, e em prosa repleta de poesia, fala, em primeiro
lugar ‒ da selva; e, a seguir, compõe um
hino em
louvor aos seringueiros.
Aparecem esses textos como aberturas,
respectivamente, para a segunda e terceira partes do livro; e sua beleza
singular revela o poeta que convivia com
o ficcionista colombiano.
No
primeiro, o canto em louvação da selva soa, a um só tempo, triste e grandioso,
dando à mata, uma vida própria e uma alma que a transforma em ser mágico que
encanta os que a penetram e os que nela buscam abrigo:
“Tu és a catedral da amargura, onde
deuses desconhecidos falam a meia-voz, na linguagem dos murmúrios, prometendo
longevidade às árvores imponentes, contemporâneas do paraíso, que já eram as
mais velhas quando as primeiras tribos ali apareceram e hoje aguardam,
impassíveis, a submersão nos séculos que virão. . Teus vegetais formam sobre a
terra uma poderosa família que nunca se atraiçoa. O abraço que tuas ramadas não
podem dar,
umas às outras, levam-no, unindo-as,
as trepadeiras e os cipós; e
és solidária até na dor da folha que cai. Tuas vozes multíssonas formam um só
eco a chorar e escorrer pelos
troncos que tombam, e em cada brecha da mata, os novos
gérmenes apressam suas gestações.
Tens a austeridade da força cósmica e encarnas um mistério de criação. Apesar
disso, meu espírito se ajusta por
completo com o teu caráter instável, desde que ele suporta o peso de sua
perpetuidade e, mais que ao carvalho de
galho robusto, ele aprendeu a amar a lânguida orquídea,
por ser ela
fugaz, como o homem,
e por murchar,
como uma ilusão.”
11
Enquanto no segundo, falando através da
voz de Clemente Silva, encontramos o elogio trágico de quem, desiludido, vítima
da ilusão por ele próprio criada, brada, em desespero, convencido de que nunca
deixará de ser um seringueiro:
“Quem estabeleceu o desequilíbrio entre
a realidade e a alma insaciável? Para que nos deram asas
para voar no vazio? A nossa
madastra foi a pobreza; o nosso tirano, a aspiração! Por olhar
para o alto, tropeçamos nas asperezas do chão; para atender as
necessidades do ventre misérrimo,
fracassamos no espírito. A mediocridade nos presenteou com a angústia. Nunca
fomos senão os heróis medíocres!”
E em tom patético, exclama:
“Sonhos irrealizados, triunfos perdidos!
Por que sois fantasmas de memória, como se desejásseis envergonhar-se de vós
próprios? Vede onde foi deter-se o sonhador
que feriu a árvore inerme, para enriquecer os que não
sonham, a suportar desprezos e vexames em troca de uma migalha recebida a
cada anoitecer (...) Escravo, não
te lamentes da fadiga; prisioneiro, não
te queixes da prisão: ignores a tortura de vagar soltos no interior de um
cárcere como a selva, cujas abobadas verdes têm como fossos, rios imensos.(...)
Eu, porém, não me compadeço daquele que não protesta. Um tremor nas galhadas não
é rebeldia que me inspire afeição. Por que não ruge
toda a selva e nos esmaga como répteis para castigar–nos pela
exploração vil? Aqui não sinto tristeza,
e sim desespero! .
.................................................................................................
Fui
cauchero, sou
cauchero! E o que fizeram as minhas
mãos contra as árvores, podem elas fazer contra os homens!”
12
Não encerraremos, contudo, essa nossa
apreciação sobre La vorágine, sem
registrar o que disse desse romance, Federico Carlos Sainz de Robles,
“Sua única novela,
La vorágine (1924), tornou-o famoso
em todo o mundo. Para a grande maioria dos críticos, ela é a novela mais formosa
e patética que produziram as letras hispano-americanas.”
13
Nem deixar de mencionar, em conclusão,
como foi por ele registrado, havê-lo considerado Julio A. Leguizamón,
“... narra e descreve, com poderosa
força de criação. Seu realismo é de uma extraordinária capacidade evocativa...
Mas a maestria do novelista se revela pela criação desse clima de força
telúrica, realidade e presença da selva... Ali palpita e estremece um terror
biológico e impera uma crueldade selvagem, incomparável e inflexível como a dura
lei do triunfo do mais forte.”
Nem, de modo especial, a opinião de José
Maria Salaverria (1873-1940), a respeito do romance, incluída nesse mesmo
verbete, quando afirmou que
“La
vorágine: é o triunfo da árvore, a apoteose da mata impenetrável, a
exaltação de uma Natureza incrivelmente vigorosa que cria e mata com assombrosa
inexorabilidade. E frente a essa Natureza sublime e monstruosa, o homem refinado
da cidade, o poeta José Eustasio Rivera, sente-se arrebatado por uma mescla de
terror e entusiasmo, e escreve, afinal, o livro das matas virgens que em nossa
literatura de língua espanhola estava ainda por ser escrito”.14
La vorágine foi, sem dúvida, o primeiro protesto,
com caráter de denúncia, feito contra as condições de vida dos que, nas matas da
Amazônia, na Colômbia, no Peru ou no Brasil, forçados ao trabalho na condição de
escravos, caboclos ou índios, se
esforçaram ao máximo de suas forças, com o sacrifício, muitas vezes, de suas
próprias vidas, para criar a riqueza fraudulenta dos
civilizados que ali chegaram, fossem
eles estrangeiros ou naturais desses países.
Quanto ao colombiano José Eustacio
Rivera, autor da novela
Algo importante estabelece, porém, a
diferença entre
. Não chegaria
Lembramos, então, o fato de haver José
Eustasio Rivera vivido somente 40 anos, nascido que foi em 1888,
Da edição de que nos valemos para a
releitura do romance, publicada em 2006, sendo ela, provavelmente, a mais
recente, consta, organizada por Montserrat Ordoñez, uma coletânea de textos
expondo um considerável acervo de informações, tanto sobre José Eustasio Rivera,
como acerca do seu romance; da qual destacamos a secção apresentada sob o título
Historia de la
crítica de ´
Nele,
as conclusões dos seus autores indicam que
“como
pocas obras, La vorágine se presta a
estudios interdisciplinares, a reflexiones sobre cultura e história,
a estudios sobre la
fragmentación, la incoherencia, el engaño y el sujeto descentrado, a las nuevas
lecturas de contradicciones, anmbivalencias y ambiguedades, dentro de una
perspectiva de valoración de la historia y de los relatos envolventes, y dentro
de una persspectiva de la lectura como proceso de construcción de la obra.”
16
E convém registrar que ao redigir o
texto “Ciclo nortista”, secção constante do capítulo “O regionalismo na ficção”
“traz-nos da paisagem e da vida
amazônica um quadro belo e poderoso: aquela floresta agressiva, áspera,
esmagadora: aquelas águas, numerosas e traiçoeiras; aqueles homens bárbaros e
tristes, perdidos na selva sádica y
virgen... Ele também denuncia,
como Ferreira de Castro, as torpezas e os crimes que a floresta esconde. O seu
livro é um libelo, é protesto, é denúncia e grito de revolta contra o abandono
do homem – aquele pária jogado à mercê dos aventureiros, exploradores e frios
tiranos sem entranhas, criminosos e rapaces, que exploram os seringais da
Amazônia.“
17
Diferem, porém, de modo sensível, os
dois romances, quanto ao modo como são considerados pelos seus autores, os
indígenas habitantes da floresta; e se tanto em um como no outro, os índios
aparecem como seres inferiores, quando são colocados em confronto com os
civilizadores,
La vorágine foi, sem dúvida, o primeiro protesto,
com caráter de denúncia, feito contra as condições de vida dos que, nas matas da
Amazônia, na Colômbia, no Peru ou no Brasil, viram-se forçados ao trabalho, na
condição de escravos, caboclos ou
índios, esforçando-se, ao máximo de suas forças, com o sacrifício, muitas vezes,
das próprias vidas, para criar a riqueza fraudulenta dos
civilizados que ali chegaram, fossem
eles estrangeiros ou naturais desses países.
La vorágine continuará, pois, a nosso ver, a
destacar-se como um dos pontos mais
altos já alcançados pela literatura latino-americana, em favor da dignidade
humana violentada e ultrajada pela
civilização.
1
MONTSERRAT ORDOÑEZ
(1941-2001), nascida em Barcelon de pai castelhano e mãe
colombiana, residiu na
Colômbia durante3 quase toda a sua vida, ali tendo lecionado
na Universidad de Los Andes e na Universidad Nacional de
Colômbia. Foi a editora da 6,ª edição de
2
MONTSERRAT ORDÓÑEZ. “El narrador: uma voz rota” in RIVERA, José Eustasio.
Fernandez Ciudad
S.L.: Cátedra. Letras Hispânicas, 2006. p. 21.
3
Idem, pp. 24/25.
4
Essa região foi mencionada pelo geógrafo francês Jean Gottmann em 1949,
25 anos depois da publicação de
La vorágine, como ainda
sendo –
un pays vide
d´hommes, onde viviam tribos
indígenas afastadas da
civilização; estando, segundo ele,
a sua exploração e cartografia ainda a serem efetuadas. Cf.
GOTTMANN, Jean. L´Amérique.
Paris:Hachettre, 1949, p. 369); esclarecendo o autor deste trabalho
haver sido por ele i consultada a terceira edição dessa obra, a
que foi lançada em
1960.
5
6
Idem, p. 297.
7
Idem, ´p.276.
8
Idem, p. 277.
9
MONTSERRAT ORDÓÑEZ. “Los indígenas: brasas entre las espumas” e “En las
caucherias: llamaradas crepitantes” in RIVERA, José Eustasio.
Opus cit., pp. 38 e 48.
10
RIVERA, José Eustasio. Opus cit.,
p. 385.
11
RIVERA, José Eustasio. Opus cit.,
pp. 189/190.
12
Idem, pp. 288/289.
12
ROBLES, Federico Carlos Sainz de.
Ensayo de un Diccionario de
13
Idem, pp. 288/289.
14
Apud ROBLES, Federico Carlos Sainz de.
Opus cit., pp, 1398/1399
Informamos não haver
conseguido localizar a
Historia de la literatura
hispanoamericana, de
autoria de Julio A. Leguizamón, citada no referido verbete,
nem a obra citada,
sem referência ao seu título, de José Maria Salaverria,
nelas encontrando-se -se
as menções feitas
por esses autores, a
La vorágine, registradas
por Federico Carlos
Sainz de Robles.
14
Cf. “Traducciones de ´
15
Cf. “Historia editorial de
16
RIVERA,
José Eustasio.. “Historia de la critica de
´
17
Peregrino Junior. “Ciclo nortista” in “O regionalismo na ficção”.
In COUTINHO, Afrânio (Diretor) A
Literatura no Brasil.. Era realista. Era de transição. Vol 4. Rio de
Janeiro: José Olympio Editora/Universidade Federal Fluminense.
UFF-EDUFF, 1986, p. 246. E quanto à expressão
sádica y virgen, por ele
referida, ela aparece no texto La
vorágine, na edição por nós utilizada, à página 297, no parágrafo
que se inicia desse modo – Esta
selva sádica y virgen procura al ánimo la alucinacón del peligro...
18
Cf. CASTRO, Ferreira de. Opus
cit., pp.114/115, 117/119, 101.
Cabendo notar que, em 1995, o antropólogo John Hemming, em seu
livro Amazon Frontier: Defeat of
the Brazilian Indians (Edição brasileira: HEMMING, John.
Fronteira Amazônica: A derrota
dos índios brasileiros. São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 2009, pp. 372/373) confirmou que os índios
parintintins, no curso do
ciclo de exploração da borracha, foram temidos e que, portanto,
“despertaram o medo e a fúria dos seringueiros”.
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Artigo de Luis Henrique Dias Tavares publicado em 13/08/2010 - "Benvinda, Genoveva, Eulália e Negro Sérgio"
Artigo de Consuelo Pondé de Sena publicado em 30/08/2010 - "Bahia, 1798"