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DO SOMBRIO CINZENTO AO AZUL TROPICAL - LASAR SEGALL
É Lasar Segall um dos grandes expressionistas que o mundo teve oportunidade de
conhecer. Tendo deixado o registro
de sua obra grandiosa apenas em oito museus e galerias brasileiras e onze no
exterior, foi, no entanto, um criador voltado profundamente para o conflito do
homem do seu tempo. A projeção obtida não corresponde
ao peso de sua importância, por culpa
do comportamento reservado que assumiu, por questões étnicas.
Vera Beccari, sua biógrafa, declara ter sido o narcisismo o "elemento
mais determinante de sua personalidade". Vivia muito bem consigo próprio
e com sua arte, ele se bastava.
'Resguardava a privacidade e só a poucos dava acesso a seu lar. sobretudo ao
ateliê onde trabalhava. Pode-se dizer que o ateliê de Segall era todo o seu
universo, do qual somente a três
pessoas as portas estavam abertas -
Jenny Klabin Segall, sua segunda esposa (que deveria bater à porta antes de
entrar), Lucy Citti Ferreira, modelo, colaboradora e amiga de particular
afeição, e o próprio Segall.
Os primeiros quinze anos do artista foram vividos em Vilna, onde nascera
em 1891, 21 de julho. Durante
aquele período assistiu à russificação idiomática da Lituânia, de que Vilna é
capital, e a todos os rigores conseqüentes
às demonstrações de desagrado
e conspirações de revoltas. Vilna vinha de séculos passando de domínio em
domínio. Teve assim Segall seus anos de infância, de adolescência e, mais tarde
de adultIce - mediante as visitas
feitas à cidade natal após sua
ocupação pela Alemanha - povoados de recordações deixadas por um
grupo humano sobressaltado e sofrido.
Ao lado disso, sua infância padeceu também a marginalizaçào imposta aos
judeus que eram expulsos de suas aldeias, em obediência a
decretos que pretendiam enfraquecê-los politicamente, e assim os
empurravam para as aglomerações das cidades.
Cresceu, pois, Lasar Segall confinado na comunidade judaica, habitando
cidades superpopulosas, onde a competição e a discriminação étnica dificultavam
o equilíbrio e a tranqüilidade das famílias israelitas.
A religião e o iídiche (língua-mãe)
eram características da comunidade judaica, além das atividades
proletárias, em todo o território que se encontrava sob domínio russo.
Todo esse cenário humano justifica, em parte, a amargura
das figuras apresentadas pelo expressionismo de Lasar Segall. A segregação
vivida na infância registrou-se no espírito do artista e veio a ser refletida no
estilo de vida, mais tarde, enconchado em sua casa paulistana onde poucos amigos
eram acolhidos para dentro das janelas sempre fechadas.
Na infância, a alegria era a grande fuga para o campo, o reencontro com
raízes que o atavismo resgatava em sentimento de prazer. Na adolescência
afasta-se de Vilna, onde o forte espírito religioso do núcleo judaico
não permitiria sua dedicação à pintura. Muda-se para Berlim, onde altera
um documento de identidade para, aos quinze anos, passar por dezesseis, e
freqüentar uma escola de arte. No
ano seguinte consegue ingressar na
Academia Superior de Berlim, onde se ensinava a copiar o
natural com precisão fotográfica. Nessa ocasião, em consideração ao
talento revelado, Segall conseguiu uma bolsa , por não ter recursos para pagar
os estudos.
Entretanto, a criatividade livre do jovem aprendiz não concordou com o
sistema rígido impresso ao ensino
da Academia, onde permaneceu por dois anos, já sentindo forte o interesse pelo
impressionismo.. Egresso da Academia depois de haver conquistado o prêmio
Libermann em exposição de 1909, dedicou-se por breve tempo a experiências
impressionistas, sem, entretanto,
sentir-se identificado o bastante
para nelas permanecer. Queria mais
espaço para sua criatividade. O impressionismo que o libertou da Academia e sua
mímese, também lhe impunha limites.
Transferiu-se então para Dresde, no ano seguinte, e
matriculou-se na Academia de
Belas Artes onde, tornando-se aluno
de Kühl recebeu a categoria de aluno-mestre, tendo direito a um ateliê onde
trabalhar suas obras. Foi então que vendeu suas primeiras produções em gravura.
Em Dresde, há cinco anos, o
grupo A Ponte, que deu os primeiros
passos na direção da primeira escola de arte moderna, o expressionismo,
estava influenciando a arte
local. Dos quatro estudantes de arquitetura que se iniciaram em aulas com Otto
Müller, um entusiasta da pintura inglesa, o grupo evoluiu influenciado pela
reação ao impressionismo manifestada por Cézanne, como também pelas cores
"fauves"de Van Gogh e de Gauguin, e
pela liberdade de Munch. Foi nessa abertura proporcionada pela nova
linguagem, que Lasar Segall encontrou o caminho.
O que de novo estava presenciando, constituiu a tradução do que
sentia cifrado em seu espírito.
Nesse preciso momento Lasar
Segall ergueu as asas da fantasia para o encontro com a arte descompromissada
com os cânones acadêmicos impostos, mas inteiramente casada com a estética, na
expressão mais legítima da criação.
Em Dresde realizou suas primeiras
obras expressionistas.
Logo mais chegou o ano de 1913 e ele veio ao Brasil pela primeira vez,
expondo em São Paulo, durante o mês de março, 52 obras.
Trouse o momento inaugural da arte moderna para os olhos espantados da
sociedade paulistana que o recebeu
com desconfiança silenciosa, em respeito ao prestígio do senador Freitas Valle,
e da família Klabin que o apadrinhavam. Não havia na sociedade paulistana
da época muitas atividades intelectuais, de maneira que
aconteciam exposições
de todo tipo de arte, desde pintores afamados na Europa, a bolsistas estreantes
sem maior talento, mas de famílias importantes, e até artesanatos que se
apresentassem para movimentar as
salas, a que acorriam as personalidades com
boa vontade, sem muito questionamento em torno de qualidade.
Tudo se passava mais
com o tom de acontecimento
social, onde as pessoas reuniam-se
para conversar
amigavelmente. Oswald de Andrade na época mantinha o jornal O Pirralho,
que noticia "Lasarr Segal (
com grafia errada mesmo) é o nome do talentoso moço russo que acaba de abrir
à rua São Bento 83, uma bela exposição de quadros".
Não havendo em São Paulo uma consciência crítica, acredita-se que
embora não chegassem a agradar ao gosto acostumado à estética das
academias, também não poderiam
suscitar um questionamento mais profundo.
Vera D'Horta Beccari
em * Lasar Segall e o modernismo
paulista " assim se expressa:
"Alguns
quadros de Segall, os mais expressionistas, devem ter causado nos expectadores
as mesmas expressões de estranheza e surpresa que apareceram nos rostos dos
visitantes da exposição de Anita Malfatti em 1917, nos primeiros dias, antes que
fosse publicada a desastrosa nota de Monteiro Lobato no Estadinho do dia
20/12/1917. "
A crítica manifestou-se tratando-o
como um jovem artista de futuro promissor, classificando-o de impressionista e
augurando que de futuro certamente viesse a corrigir "certos exageros ".
Revelava absoluto desconhecimento de
tratar-se do autor de uma arte madura, um expressionista que trazia
notícia da evolução da arte na Europa.
Naquele mesmo ano, em junho, Segall levou 51 telas à exposição em
Campinas, onde a crítica pareceu melhor informada e capaz de fazer
comentários a respeito do que fora antes
publicado em São Paulo filiando-o
ao impressionismo, o que era um equívoco, e
ressaltando em suas obras, o vigor do desenho. Nessa mostra, a tela
intitulada O violinista, já denunciava uma influência do cubismo
anunciado por Cézanne.
Segall voltaria mais tarde
ao Brasil, em 1923, acompanhado de Margarete, sua primeira esposa.
Margarete não se adaptou à
vida provinciana de São Paulo e retornou à Europa. Então Lasar Segall casou-se
com Jenny Klabin, que conhecera na
sua primeira visita a São Paulo, e era então
uma garotinha de 13 anos,
que o impressionara bastante.
Jenny venerara-o desde a adolescência
e se tornou uma esposa apaixonada, participando com ele dos trabalhos da
SPAM, onde Segall veio a pontificar como líder e
como idealizador de atividades que elevaram a entidade
ao respeito da sociedade local.
E ainda sofrendo com ele a discriminação que veio a se instalar na ala
dos chamados grã-finos, aderentes à SPAM apenas pelo modismo que os atraia ao
modernismo.
Nos anos 30 o Integralismo ganhou enorme fôlego e conquistou partidários
entre os pertencentes à cúpula social.
Dividiram-se os associados da SPAM em duas alas, e dos judeus e a dos
grã-finos, esta congregando os adeptos em torno do poeta Guilherme de Almeida. A
paixão conseqüente ao exacerbado nativismo
ergueu pesado muro entre a etnia e a arte, iniciando um injusto processo
de desprestígio do artista dentro da sociedade, que o levou ao retraimento no
qual permaneceu.
Lasar Segall naturalizou-se brasileiro e sua obra enriqueceu a pintura do
Brasil, onde revigorou as criações substituindo o sombrio cinzento das telas
pintadas na Rússia ou nela inspiradas, pelo colorido tropical, o verde, o azul e
o branco luminoso que tornam o expressionismo segalliano brilhante e claro como
as paisagens da sua pátria de adoção.
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