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Ausência de Lúcio Cardoso
Em setembro de 1998, completaram-se 40 anos desde a morte
de Lúcio Cardoso. Nesse ano de 2011, completar-se-ão 99.
Tal registro dirá, contudo, muito pouco à maior parte dos leitores da
atual geração, para os quais o escritor mineiro continua sendo um ilustre
desconhecido.
Pouco importa que seu principal romance –
Crônica da Casa Assassinada,
haja tido o privilégio de merecer, no país, seis edições, duas delas de
caráter especial, assumindo o papel de edições críticas.
Nem o fato de haver sido ele, no Brasil,
o primeiro tradutor dos poemas de Emily Brontë, somente lembrada entre nós,
infelizmente, como a autora de O Morro dos
Ventos Uivantes. Nem o de haver ele também traduzido o
Livro de Job, um dos mais belos textos
do Antigo Testamento, publicado, no Rio de Janeiro, em edição esmerada, tanto
ele como O Vento da Noite, o título
que deu ao livro de poemas da escritora inglesa, nos anos 40, pela José Olympio,
que os incluiu na sua coleção Rubaiyat.
Lúcio Cardoso se apresenta, no contexto da literatura
brasileira, como um caso singular – o de haver sido um autor intimista, um
escritor que preferiu penetrar na alma humana, disposto a desvendar-lhe os
conflitos e os mistérios, que pervagar pelos caminhos concretos da realidade,
enquadrando-se nas regras cumpridas pela maior
parte dos ficcionistas seus contemporâneos, como
foram Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de
Queiroz e outros mais.
Sem a ironia fria e
concisa de Machado de Assis ou o trágico calor de Clarice Lispector, sua
linguagem surge, então, ambígua e amarga, expressando toda a angústia que o
dominava – a de um crente a viver entre descrentes, singular, em meio a uma
coletividade que primava pela coerência exaustiva de falas e atitudes, desolado
e sofrendo por sua solidão, um
místico em busca desesperada por um Deus
que insistia em não mostrar-se por
inteiro frente aos seus olhos, tendo,
ainda mais, sido
atingido, fisicamente, por
doença que o
vitimou em
metade do seu corpo, lúcido, contudo, frente ao sofrimento, mas
sem se deixar por ele abater, sempre mantendo, como frisou Walmir Ayala –
“acima de tudo, o desejo de não sucumbir”.
Clarice Lispector, sua grande amiga, que foi talvez a
pessoa a quem mais ele amou na vida, o
denominou, em crônica de saudade, um “corcel de fogo (...) sem limite para o seu
galope”. Por sua vez, disse ele sobre ela, em seu
Diário, que se devorava a si mesma
enquanto escrevia. Afirmou, então, que “Clarice não delata, não conta, não narra
e nem desenha – ela esburaca um túnel onde de repente repõe o objeto perseguido
em sua essência inesperada”. E tentando defini-la em sua singularidade, muito
próxima, por sinal, da sua própria, afirmou – “ela arde”; e acrescentou – “o que
nela queima é nostalgia do que não é – o homem”. E ainda mais:
“Seus livros são
muros que circundam perpetuamente uma cidade indefesa – de fora assistimos ao
resplendor da sua cólera. Mas nesse mundo, o romancista não penetra: a cidade de
Clarice, como essa maçã que brilha melhor se fôr no escuro, ela arde sozinha:
dentro dela não há ninguém”.
De si mesmo, ao concluir o seu
Diário, disse possuir, envolto em sua
inquietação:“Aquela mesma angústia fria, aquela dor sem doer que se espalha pelo
corpo inteiro. Arrumo, desarrumo, faço, e refaço. Ah, como é difícil ser calmo.
Encho-me de remédios, vou à janela: é a noite dos homens, a minha noite. Ruídos
de carros que passam na escuridão. Rádios abertos. Vultos que transitam em
apartamentos acesos. E eu, e eu? Onde
vou, que faço?
Ouço a voz de Cornélio Pires – naquele tempo – ´o seu
sofrimento é um sofrimento bom, de permanecer à margem`. Não. Não existe,
Cornélio, pior sofrimento do que permanecer à margem. Não tenho temperamento
para isto. Quero amar, viajar, esquecer – quero terrivelmente a vida, porque não
creio que exista nada de mais belo e nem de mais terrível do que a vida. E aqui
estou: tudo o que amo não me ouve mais, e
eu passo com a minha lenda, forte sem o ser, príncipe, mas esfarrapado”.
Por duas vezes, ao menos, como constatei ao ler o seu Diário, esteve na Bahia. Numa delas, Humberto Alencar, seu amigo, o levara, à noite, à praia que era, então, tão somente o bairro da Pituba. Ali se deitou, de costas, na areia, tendo o céu a cobri-lo.
“Praia em que, uma noite em que já não sei mais – igual,
em si, a tantas noites de febre e
inquietação, me deitei na areia, com o vasto céu do Brasil por cima de mim – um
céu tão calmo, tão indiferente das ânsias que me dominavam...
Pituba. Repito o nome baixinho, uma, duas vezes, esperando
que o encanto se renove. E pergunto a mim mesmo: o que sinto agora é diferente
daquela época? É a mesma coisa, sinto-me continuamente fiel aos meus fantasmas.
Vi outras praias, algumas mais belas, outras mais sujas, mas todas com essa
respiração cheirando a sangue que vem do mar. Lembro porém,
que nunca, nunca fui tão só nem tão
desgraçado, como na praia da Pituba”.
Numa outra vez, ao visitar o Convento do Carmo, deixou
assombrar-se frente a “um enorme Cristo em tamanho natural, deitado sob um dos
seus altares”. Disse, então ser ela – “uma imagem aterrorizante, quase negra de
tão massacrada, com os joelhos esfacelados e em sangue, o rosto violáceo”.
Sua obsessão pelo sofrimento, suas reflexões sobre a Paixão de Cristo,
seu apego à visão de um Cristo doloroso, então,
se reavivaram e dele fizeram um grande
sofredor, enquanto olhava
aquela imagem que estava a marcar
sua presença na Bahia.
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