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MUITO MAIS QUE MERA COINCIDÊNCIA
As coincidências significativas são objetos de estudo da ciência
Yo no creo en
sincronicidades, pero que las hay, las hay.
O famoso dito espanhol relativo às
brujas aplica-se perfeitamente ao
conceito de “coincidência significativa”, adotado pelos seguidores do
pensador Carl Gustav Jung e rejeitado por correntes científicas mais
tradicionais. Sincronicidade é o nome que C. G. Jung dá à ocorrência
simultânea de acontecimentos que não têm, entre si, uma relação de causa
e efeito. Quem já não vivenciou uma dessas coincidências “incríveis” sem
aparente explicação lógica? E, no entanto, quem admite que possa haver
nelas algo mais do que um simples acaso?
No livro
Além das coincidências: uma explicação
científica para os acontecimentos atribuídos ao acaso,
os jornalistas Martin Plimmer e Brian King catalogam várias histórias
inacreditáveis, como a seguinte:
|
De acordo com os matemáticos, o caso não é assim tão espantoso, já que
as chances de uma pessoa ser atingida novamente por um raio são
exatamente as mesmas.
Bem mais difícil, no caso, seria a probabilidade de um meteorito cair na
cabeça de alguém: de um em um quatrilhão. Mas, contam os autores, uma
vaca foi atingida por um meteorito, certa vez. Assim, informa o
matemático Ian Stewart, “é provável que nos próximos dez mil anos alguém
seja atingido por um meteorito”.
Camadas profundas
Este é o aspecto anedótico da sincronicidade – ótimo
para fisgar leitores de jornais dominicais. Mas não é o mais importante.
Saber que um balão solto por uma garota de 10 anos, Laura Buxton, no
jardim de casa, pousou 220 quilômetros depois, no jardim de uma outra
Laura Buxton de 10 anos de idade, pode ser interessante, mas não passa
de uma história fantástica que logo será esquecida. Para o físico Paul
Kammerer, que estudou exaustivamente, no início do século 20, séries
temporais de fenômenos sincrônicos, o mais importante é conhecer o que
se passa por baixo da “crista das ondas”, daquilo que nos parecem
coincidências isoladas. A essas camadas profundas o psicanalista Carl
Gustav Jung deu o nome de inconsciente coletivo.
A sincronicidade, desde a primeira metade do século passado, tem sido
objeto de questionamentos científicos que levam tanto ao âmbito da
psicanálise como da física quântica, este ramo tão citado das ciências
exatas e tão pouco compreendido. E, nele, a percepção cada dia mais
consensual de que essas coincidências acontecem, não num cenário de
seres e objetos materiais, mas de um complexo campo de consciência, no
qual a matéria não passa de uma ilusão.
Nada é por acaso
A grande dificuldade para compreender melhor as
coincidências estaria na resistência a fugir à lógica da filosofia
grega.
Para entender a sincronicidade é necessário
perceber, como diz o físico David Bohm, que a separação entre matéria e
espírito é uma abstração. Ou, como afirmou o Prêmio Nobel de Física
(1945) Wolfgang Pauli, que espírito e corpo são aspectos complementares
de uma mesma realidade. Para o físico Arthur Eddington, a matéria-prima
do universo é o espírito – ao qual se pode dar a definição de “um grande
pensamento”. As evidências de que a matéria é inexistente levou o
filósofo e matemático Bertrand Russel a uma definição genial: “A matéria
é uma fórmula cômoda para descrever o que acontece onde ela não está”. O
astrônomo V. A. Firsoff acrescenta: “Afirmar que existe só matéria e
nenhum espírito é a mais ilógica das propostas. É bem diferente das
descobertas da Física moderna. Esta mostra que, no significado
tradicional do termo, não existe matéria”.
Tal afirmação se contrapõe ao senso comum. Mas, para
se ter uma ideia mais clara disto, basta dizer que, segundo cálculo
feito por Einstein, se os espaços entre todos os átomos em todos os
seres humanos da Terra fossem eliminados, deixando apenas matéria
concentrada, sobraria alguma coisa aproximadamente do tamanho de uma
bola de baseball (embora muito mais pesada).
Se todo este vasto conjunto de matéria que forma o planeta é pouco mais
do que uma ilusão, o que sobra? Sobra energia – muita energia. Isso é
algo que sabemos estar concentrado em abundância dentro de todo o átomo.
O físico Max Planck disse: “A energia é a origem de toda a matéria.
Realidade, existência verdadeira, isso não é matéria, que é visível e
perecível, mas a invisível e imortal energia – isso é verdade. `”
Significado
O que seria a coincidência neste “ambiente” imaterial? Para Jung, “atos
da criação no tempo” – atos estes que são, muitas vezes, catalisados por
“catarses emocionais”.
A grande dificuldade, segundo eminentes cientistas,
para se compreender melhor as sincronicidades está – sobretudo, como diz
o escritor húngaro Arthur Koestler, em seu famoso livro As raízes da
coincidência (1972) – na dificuldade de se pensar fora das
“categorias lógicas da filosofia grega, que impregna nosso vocabulário e
conceitos e decide, por nós, o que é concebível e o que é inconcebível”.
Para o baiano Beto Hoisel, autor do ensaio ficcional
Anais de um simpósio imaginário – entretenimento para cientistas
(1998), a sincronicidade não se esgota na simples enumeração de
coincidências. “Mexer com elas implica em mexer com as bases metafísicas
da nossa civilização. Implica, sobretudo, em mexer no nosso paradigma
que é ainda newtoniano, materialista, causalista, determinista,
freudiano. Ou seja: aquele que não admite nada que não esteja além da
matéria.”
A surpresa em relação às coincidências, segundo
Beto, é consequência da incompreensão em relação ao dado fundamental de
que tudo é possível. “As pessoas vivem sobrenadando num oceano de
sincronicidades, das quais percebem só uma pequeníssima parte. Tudo
acontece, com diferentes probabilidades. Mas quem determina as
probabilidades? É aí que se encontram os deuses.”
Para o médico clínico e presidente da Sociedade
Brasileira de Médicos Escritores – Regional Bahia (Sobrames), Márcio
Leite, o mais importante é destacar o que há de significativo, num
determinado acontecimento, para a pessoa que o vive. É aí que se
encontra o aspecto terapêutico da sincronicidade. “É importante perceber
algo que se passa do lado de fora que está conectado com o que a pessoa
sente, percebe, sonha”. O conceito de sincronicidade implica na ideia de
que o universo é indivisível e que há uma relação entre o que está
dentro de nós (na psique) com o que está fora (realidade física) – e que
essa interação se dá de forma não-causal.
Como diz sabiamente Renée Haynes, no post-scriptum de As razões da
coincidência: “é a qualidade, o significado, que cintila como uma
estrela cadente através da sincronicidade”.
Superstições
Uma das razões da postura cética de muitos cientistas é, provavelmente,
a avalanche de tolices e superstições que está sempre pronta a inundar
qualquer espaço aberto pela ciência em suas defesas racionais. Sem falar
nas pessoas suscetíveis a verem “estranhas ligações” onde não existem.
Se “a ideia de que o mundo é um jogo da consciência, um jogo de Deus”,
como disse recentemente o físico indiano Amit Goswami no programa Roda
Viva, da TV Cultura, deve ser considerada, por outro lado deve-se
ressaltar que este Deus não é o que está sentado num trono com sua
trombeta, mandando os inimigos do Povo Eleito para o inferno, nem muito
menos o que promete um paraíso repleto de virgens àqueles que morrerem
eliminando o maior número de infiéis.
À pergunta sobre se tinha uma religião, Koestler
afirmou: “Se religião significa um amontoado de dogmas, então,
certamente, não tenho. Tudo o que posso dizer é que há níveis de
realidade além dos limites da ciência, e dos quais temos tido rápidas
visões”. Talvez seja um avanço a ideia, segundo Goswami, de que, logo no
início do terceiro milênio, Deus será objeto de ciência e não mais de
religião.
Acreditando ou não em coincidências significativas,
ou em bruxas, o fundamental é que não se tenha preconceito, sobretudo na
investigação científica. O que pode salvar o mundo do embate entre
céticos, fundamentalistas e a física pós-materialista é o bom humor.
Como nesta historinha contada por Brian King e Martin Plimmer:
| Certa vez perguntaram ao famoso físico Niels Bohr por que ele tinha uma ferradura pendurada sobre a porta do seu escritório. `O senhor certamente não acredita que isso fará qualquer diferença em sua sorte? `, perguntou um colega. ´Não, respondeu ele, ´Mas eu ouvi dizer que funciona mesmo com aqueles que não acreditam. (PLIMMER; KING, 2005) |
REFERÊNCIAS
PLIMMER, Martin; KLING, Brian. Além das coincidências: uma explicação
científica para os acontecimentos atribuídos ao acaso. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 2005.
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