
Robin Hood versus cultura na Bahia
Enganam-se os que pensam não existir comprovação
da existência de Robin Hood. O mito foi criado através dos séculos,
baseado
num
personagem histórico.
Não se confirmou ainda se ele viveu suas aventuras na floresta de
Sherwood, condado de Nottingham, na de Wakefield, ou na de
Yorkshire. O Robin Hood real surgiu de pesquisas realizadas por
paleontólogos, arquivistas e historiadores. O seu nome está gravado
em sítios históricos, abadias e conventos, em tempos diferentes,
sugerindo que outros bandoleiros (heróis?) usaram a alcunha que o
identificava, para honrá-lo, e também
valorizarem-se. Ele foi identificado
num registro cronológico que lista os “fora da
lei”, desde o século XII. O seu nome aparece entre os anos de 1227 e
1229.
No
século
XIII
e
seguintes,
foram
encontrados outros Robin Hoods. O de 1299 e
seguintes foram descartados por se dedicarem a “furtos comuns”, que
não se ajustavam aos poemas épicos, gestas e baladas medievais. O
cruel xerife também foi real e perseguiu Robin Hood
desesperadamente, através das florestas.
Os documentos na Inglaterra remontam a A.C., quando da ocupação
celta, viking, romana etc. Ela foi bombardeada durante a 2ª Guerra,
mas preservou seus documentos e estimula as reconstruções
históricas. De igual modo, a história
humana
está
sendo
preservada
pelos
mórmons no fantástico arquivo que construíram nas
montanhas Rochosas.
Não existe cultura sem memória, nem consciência de nação e de
cidadão sem o conhecimento histórico. Não é à toa que na
Disneylândia, CA, antes de entrar no fantástico mundo de diversões,
você passa por um salão-museu dedicado a Abraão Lincoln, onde
conhece a sua história; em seguida, um cine-teatro exibe filme sobre
a guerra de independência dos USA. Causa inveja ver os cidadãos
americanos saírem da sala orgulhosos, peito estufado. Não vou me
alongar.
O leitor sabe que as nações, para serem nações, preservam suas
histórias.
No ar uma pergunta: E nós? Como está a nossa cultura? O que se tem
feito parece tão instável, circunstancial, inconsistente! Tem-se a
sensação de desprezo por nossos bens históricos. Os jornais estão
fartos de registrar; os responsáveis pelas instituições culturais e
históricas, cansados de reclamar, pedir providências.
No dia 16, A TARDE mostrou a situação em Salvador. Documentos do
século XVII deteriorados.
Não existe projeto sequer para digitalizálos. Os jornais?
Esfacelados, pulverizados, embora não tenhamos sido bombardeados! A
TARDE tomou a iniciativa de digitalizar a sua coleção, desde o ano
de 1912.
O que impede o Estado de fazer o mesmo? Como aceitar que, para ter
acesso às Mensagens governamentais, séc. XIX, tenhamos de buscá-las
na Universidade de Chicago? É constrangedor, e mesmo vergonhoso.
Parca alocação de recursos financeiros? Interesses políticos
imediatistas? Para publicar as cartas do governador Octávio
Mangabeira no exílio, e elaborar o Dicionário BiográficoHistórico
da
Bahia,
o
Centro
de
Memória
da Bahia (CMB) da Fundação Pedro Calmon (FPC)
teve de recorrer à bancada baiana na Câmara Federal. Sensíveis à
preservação cultural e histórica da Bahia, os deputados Lidice da
Mata, Jutahy Magalhães Jr., João Almeida, José Rocha, Emiliano José,
Felix Mendonça e Jorge Khoury fizeram dotações individuais. Logo
liberadas, esses projetos serão realizados.
Além do CMB, a FPC teve outra pedra fundamental, quando criada em
1986: o Memorial dos Governadores. Então situado no Palácio Rio
Branco, prestou grande benefício à conscientização da nossa
população. Visitantes, escolas e turistas, monitorizados, recebiam
explicações sobre a República na Bahia, ao passarem pelas vitrines
com objetos pessoais e documentos dos diversos governadores.
Corre o rumor que o Memorial dos Governadores será contextualizado.
O que isto significa, não sei. Ouvi dizer que as vitrines
desaparecerão. Prefiro não acreditar, porque a era da cibernética
não permite o aniquilamento
de
mais
um
pedaço
da
nossa
história.
Negligência? Obscurantismo? Que falem os nossos “agentes culturais”.
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