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AS AVENTURAS DE UM TAMANDUÁ VOADOR

Paulo Costa Lima  

Consta que um tamanduá voador habitava os pensamentos de um escrevinhador bisonho,

flutuando de maneira improvável num céu azul com nuvens redondinhas e brancas,

e a cada tentativa de inventar um assunto, digo um pretexto, o tamanduá gorducho sacudia sua língua comprida e fina,

espantando para longe, para muito longe, qualquer pensamento e vontade de pensá-lo,

pouco se lhe importava o esforço do escriba,

o tamanduá tinha pelos finos e compridos, adorava formigas e cupins como todos de sua espécie, e um grande rabo em forma de penacho,

não era fruto de sua imaginação? afinal, onde já se viu tamanduá volante?

que mais poderia desejar o escriba se neste tamanduá pipa também se empinavam as pupilas de quem passava,

você está aí, não está, leitor? pergunta o tamanduá imaginário,

mesmo que eu fosse um hipopótamo, ou talvez mais ainda, pois a flutuação dos hipopótamos seria absolutamente inverossímil, aquelas ancas saradas em plena flutuação,

hipopótamos voadores sobre um fundo azul, muito azul, com nuvens brancas e redondinhas, murmurava o tamanduá,

nesse ponto o escriba já pensava em ecologia,

e o tamanduá que detestava papo cabeça ligou o canal na Hebe,

o hipopótamo reagiu raivoso, sacudiu os fundilhos e virou um rinoceronte,

o escriba agoniado já não sabia por onde a tinta escorria, e qual o resultado da votação nu congresso,

o menino, que só havia entrado na estória de forma oblíqua pois onde há pipa, digo arraia, há menino, pegou a pipa e saiu correndo,

como garantir satisfação plena na hora da morte? meu pai, me diga com toda sinceridade, deus existe?

mas isso não tem qualquer ligação possível, desesperava-se o escriba, 'desnecessário',

ora, o menino desde os três anos repete incessantemente essa frase: 'na hora de nossa morte, amém',

e perguntou isso de fato ao pai quando tinha dez anos, que aliás tinha os olhos miúdos de um tamanduá,

mas eu não queria tamanduá, hipopótamo arrinocerontado, ou menino com pipa e fixação existencial, queria uma alegoria da imaginação,

preferencialmente com uma visão social ou cultural embutida na crônica?

o tamanduá poderia muito bem ser um policarpo quaresma da pós-modernidade, representante de um brasil autêntico e nosso,

ocorre que as alegorias têm vida própria,

a pipa chamou o vento que respondeu com força, e o tamanduá voador subiu bem acima das nuvens brancas e redondinhas,

agora parece ter descoberto um formigueiro na lua, onde repousa tranqüilo,

enquanto isso, mais embaixo, o vento rebelde agita e sacode todos os escribas, hipopótamos, rinocerontes, pupilas, meninos, hebes, congressos, pais, ave-marias e policarpos quaresmas,

'o espírito sopra onde quer', Jo (3,8),

todos os assuntos são apenas tamanduás ou hipopótamos voadores conclui o escriba.

Entrei por uma porta e saí pela outra. Senhor meu rei, que me conte outra...

.

 

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