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AS AVENTURAS DE UM TAMANDUÁ VOADOR
Consta que um tamanduá voador habitava os pensamentos de um
escrevinhador bisonho,
flutuando de maneira improvável num céu azul com nuvens redondinhas e
brancas,
e a cada tentativa de inventar um assunto, digo um pretexto, o tamanduá
gorducho sacudia sua língua comprida e fina,
espantando para longe, para muito longe, qualquer pensamento e vontade
de pensá-lo,
pouco se lhe importava o esforço do escriba,
o tamanduá tinha pelos finos e compridos, adorava formigas e cupins como
todos de sua espécie, e um grande rabo em forma de penacho,
não era fruto de sua imaginação? afinal, onde já se viu tamanduá
volante?
que mais poderia desejar o escriba se neste tamanduá pipa também se
empinavam as pupilas de quem passava,
você está aí, não está, leitor? pergunta o tamanduá imaginário,
mesmo que eu fosse um hipopótamo, ou talvez mais ainda, pois a flutuação
dos hipopótamos seria absolutamente inverossímil, aquelas ancas saradas
em plena flutuação,
hipopótamos voadores sobre um fundo azul, muito azul, com nuvens brancas
e redondinhas, murmurava o tamanduá,
nesse ponto o escriba já pensava em ecologia,
e o tamanduá que detestava papo cabeça ligou o canal na Hebe,
o hipopótamo reagiu raivoso, sacudiu os fundilhos e virou um
rinoceronte,
o escriba agoniado já não sabia por onde a tinta escorria, e qual o
resultado da votação nu congresso,
o menino, que só havia entrado na estória de forma oblíqua pois onde há
pipa, digo arraia, há menino, pegou a pipa e saiu correndo,
como garantir satisfação plena na hora da morte? meu pai, me diga com
toda sinceridade, deus existe?
mas isso não tem qualquer ligação possível, desesperava-se o escriba,
'desnecessário',
ora, o menino desde os três anos repete incessantemente essa frase: 'na
hora de nossa morte, amém',
e perguntou isso de fato ao pai quando tinha dez anos, que aliás tinha
os olhos miúdos de um tamanduá,
mas eu não queria tamanduá, hipopótamo arrinocerontado, ou menino com
pipa e fixação existencial, queria uma alegoria da imaginação,
preferencialmente com uma visão social ou cultural embutida na crônica?
o tamanduá poderia muito bem ser um policarpo quaresma da
pós-modernidade, representante de um brasil autêntico e nosso,
ocorre que as alegorias têm vida própria,
a pipa chamou o vento que respondeu com força, e o tamanduá voador subiu
bem acima das nuvens brancas e redondinhas,
agora parece ter descoberto um formigueiro na lua, onde repousa
tranqüilo,
enquanto isso, mais embaixo, o vento rebelde agita e sacode todos os
escribas, hipopótamos, rinocerontes, pupilas, meninos, hebes,
congressos, pais, ave-marias e policarpos quaresmas,
'o espírito sopra onde quer', Jo (3,8),
todos os assuntos são apenas tamanduás ou hipopótamos voadores conclui o
escriba.
.
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