
REPRESENTAÇÕES DA
BAHIA NO CONTO DE VASCONCELOS MAIA
– Contos
marítimos: o exemplo de Cação de areia
Ao
abordar o tema Representações da Bahia no conto de Vasconcelos Maia, esclareço
desde já que se trata no presente caso da introdução a um estudo mais amplo que
pretendo realizar, enfocando as diversas vertentes da ficção deste autor: a dos
contos ambientados no agreste baiano, dos quais o conto
Sol é um dos melhores exemplos; a de
ambientação urbana, de tons líricos e humorísticos, enfocando a classe média
baixa, dentre os quais se destacam dois contos primorosos,
Cena doméstica em véspera de Natal e
A derrota ou sorte grande no Natal,
este último uma refinadíssima peça de humor e ironia; a do misticismo
afro-baiano, na qual a novela O leque de
Oxum é principal referência; a de contos mais psicológicos, como
Antes do segundo marcado,
O cavalo e a rosa e
Confissão (este com ecos do conto
fantástico de Poe, Hoffmann e Maupassant); e, finalmente, a dos contos de
tradição marítima, muito menos presente em nossa ficção do que seria de se
esperar, considerando-se a extensão da nossa costa, da qual Vasconcelos, ao lado
de Xavier Marques e Garbogini Quaglia, entre outros escassos nomes, é um dos
poucos representantes.
Nesta breve comunicação, permanecerei no
limite desta última vertente, tomando como exemplo um texto vigoroso, conto da
maturidade do autor, Cação de areia,
do livro homônimo, editado em 1986 pela GRD, de Gumercindo Rocha Dórea.
Carlos Vasconcelos Maia, nascido
Como era a Bahia de Vasconcelos Maia, e de
que forma ela aparece, ou seria melhor dizer, transparece, nos seus contos? Era,
sem dúvida, uma Bahia bem mais próxima da soterópolis parnasiana do início do
século 20, do que da Bahia pós-moderna do início do século 21. Na capital,
apesar da modernização em curso, acentuada a partir dos anos 50, no governo de
Octávio Mangabeira, ainda persistia o espaço edênico das chácaras e dos
quintais; das ruas tortuosas cortadas por bondes sonolentos. No interior do
estado, estava-se no apagar das luzes (melhor seria dizer, das fogueiras) do
coronelismo arcaico, representado, até duas décadas antes, por um Horácio de
Mattos, mas pouco havia se modificado, em termos essenciais, em relação ao tempo
do Brasil Colônia. Estas duas faces do território baiano – o sertão e o litoral
– não passariam imunes à prosa vigorosa, crítica, transformadora e efetivamente
moderna de Vasconcelos Maia. Mas, veja que já falamos de uma estética bastante
diversa do regionalismo pitoresco de outros insignes escritores baianos: Xavier
Marques, retratista lírico e idílico do litoral baiano; ou Afrânio Peixoto, de
espírito cientificista, voltado para as paisagens sertanejas do sertão baiano,
mais especificamente das lavras diamantinas. Longe da prosa castiça e rebuscada
do primeiro, e da inócua psicologia do segundo, Vasconcelos nos fez ver as
paisagens do nosso estado através de uma prosa descritiva perfeitamente ajustada
à ação e ao movimento interior dos seus personagens. Se há algo de pitoresco em
alguns de seus textos, com a utilização da chamada cor local, esse algo é parte
de um todo orgânico, e nunca um mero ornamento.
É esta adequação de tempo e espaço
interiores e exteriores, associada a uma linguagem enxuta, precisa, dinâmica e
vigorosa, na qual se fixa um determinado espírito de época, uma das
características que faz de Vasconcelos um escritor moderno. Assim, se por um
lado pode-se reconstruir, no imaginário do leitor, com surpreendentes minúcias,
paisagens, ambientes e costumes de uma Bahia dos anos
Neste texto, exemplar da literatura
marítima, à qual o nome do autor é sempre associado, conta-se a saga de dois
pescadores: do narrador da história e do seu amigo de infância, João, que partem
entre as paradisíacas ilhas, enseadas e promontórios da Baía de Todos os Santos,
com o objetivo de pescar cações numa remota laguna, localizada numa praia de
areia entre penhascos, “a cinco milhas mais ou menos da Ilha da Saudade”. Seria,
talvez, uma pescaria como outra qualquer se pouco antes de partirem do porto, na
Cidade Baixa, não conhecessem e incluíssem em seu périplo duas jovens,
hippies, que vagavam famintas e
disponíveis, “como cachorro sem dono”, pela Península Itapagipana.
No conto, que inclui descrições minuciosas
das embarcações, dos procedimentos náuticos, das refeições dos personagens, dos
movimentos do oceano e das marés, da vegetação de restinga, dos ventos e
tempestades, dos tipos humanos que vão encontrando ao caminho e de cenas
carregadas de um erotismo puramente instintivo, quase selvagem, o escritor leva,
passo a passo, os quatro personagens, numa tensão crescente, ao clímax, na
laguna, onde o leitor se surpreende, no limite do realismo cru do narrador,
agora não mais num espaço real – melhor dizendo: não mais na ilusão de
mímesis, no sentido Aristotélico, de
imitação da natureza – e sim de uma
semiosis, na qual o significante,
antes ocultado habilmente, para melhor ênfase na ilusão de uma pretensa
objetividade, possibilita ao leitor atento perceber que o cenário geográfico é
como sempre foi um espaço imaginário, eterno e atemporal, no qual o homem
confronta-se, apenas e unicamente, consigo próprio, com sua
hybris, com as potências do seu
instinto e do seu inconsciente. De repente, percebemos que a literatura de
Vasconcelos Maia já não está falando do mundo, mas da própria literatura, da
linguagem, do mundo no sujeito, pelo sujeito.
Cação de areia é uma narrativa clássica, épica,
que traz no seu tecido narrativo uma ambiguidade. Ambiguidade esta que,
entretanto, pode passar despercebida sob a aparência de uma simples aventura
marítima. Mas, ao fechar-se o círculo desse estranho périplo, diferentemente da
forma exata do texto, que se fecha sem qualquer sobra, permanece, no saldo da
experiência vivida de seus personagens, estranhas lacunas: o narrador, movido
por instintos e sensações, assaltado por sonhos recorrentes e perturbadores, às
vezes violento e brutal, não retira, de sua experiência, qualquer sentido, senão
o de, ao final de tudo, preservar o que unicamente lhe interessa: a sua vida
rústica, ao sabor do sol, dos ventos e das marés, e a sua amizade com João, sua
ética primitiva sustentada pelo trato “de nenhum se meter na vida do outro,
principalmente quando tem uma mulher de permeio”.
João, guia da jornada (é ele quem conhece o lugar onde os cações reproduzem suas crias), mas destituído da voz que narra, que impõe a sua versão dos fatos, calado, prático, é, no entanto, diferentemente do seu companheiro de aventuras, sensível no trato com as mulheres, ao ponto de merecer a seguinte observação do narrador:
| Ele tem
sua maneira de tratar as amantes. Tenho a minha. Ele trata mulher como
coisa fina, boneca de louça; isca de sardinha, leme de saveiro. Eu sou
ao contrário. Gosto de bater, humilhar, aperrear, até seviciar. Achei
que João, sem ser chamado, estava quebrando o nosso trato. Por outro
lado, a birra daquela fulana já estava me chateando. Pensei: se João
está quebrando um trato, vai me quebrar um galho. (GUERRA, 2000, p. 139) |
Dele pouco se sabe a respeito do que
representou a experiência de ir até a laguna, e, após ver frustrada sua
expectativa de uma pesca farta, vingar-se de um cação que encalha no areal,
matando-o, com o narrador, a golpes de arpão e de porrete. A cena, brutal, é
assim descrita (citamos apenas um pequeno trecho):
|
[...]
Cautelosamente, por caminhos opostos, nos aproximamos do cação ferido,
porretes erguidos. A fera sentiu nossa aproximação. Mas não tinha forças
para reagir. A maré estava completamente baixa e ele praticamente
encalhado na areia. Sem dó nem piedade, ferozmente, baixamos os porretes
em sua grande cabeça. À agressão, o cação fez a última tentativa de
luta. Abriu a bocarra e mordeu infrutiferamente o espaço. Então,
friamente, acabamos de esmigalhar sua cabeçorra com golpes frenéticos.
(GUERRA, 2000, p. 135) |
A cena, testemunhada pelas duas mulheres
que os acompanhavam até o ponto central do drama, representava um ato criminoso
e revelava a bestialidade dos dois homens – mas para ser assim compreendida, foi
necessário que uma delas o dissesse:
Apesar do sol que
haviam tomado, estavam pálidas, as gargantas contraídas, os músculos do corpo
tensos. E nos olhavam de maneira insólita. Pensei que estavam tomadas de
admiração e respeito.
― Não foi
brincadeira, hein? – falei. – Falei por falar.
Não sei porque
diabo achei que tinha que falar. Talvez se tivesse ficado calado não teria
acontecido o que aconteceu. A fulana de João, como de costume, nada respondeu.
Mas a faladeira me olhou dentro dos olhos e, com uma voz que não parecia a dela,
disse assim:
― Isso foi
assassinato.
| Estava
agitado da luta e senti aquelas palavras rudes como um golpe muito duro.
Virei-me para João. Estava medonho, coberto de sangue da cabeça aos pés.
Nossos olhares se encontraram sem se enganar. Baixamos ambos, ao mesmo
tempo, a vista. Era como se nos repugnasse de repente a presença um do
outro. Aquilo tinha sido de fato, assassinato. Sabíamos disso, desde que
decidíramos matar a fêmea. Sabíamos que o cação não tinha a menor
possibilidade de defesa. (GUERRA, 2000, p. 136)
|
Seviciada pelo narrador, defendida e
cuidada por João, a mulher criara, com suas palavras e seu olhar acusador, uma
fenda ética entre os dois homens. Não esperávamos que alguém viesse nos dizer a
verdade na cara, diz o narrador: “E logo quem! Uma merdinha de gente, uma
putinha de beira de cais”. Mas a fenda é passageira, como passageiras são as
duas mulheres naquela embarcação. Ou, pelo menos, assim parece – embora nada
possamos dizer a esse respeito. Aos poucos, a rotina dos homens se recompõe, e
ao final da viagem, assim que o saveiro toca na enseada dos Tainheiros, as duas
mulheres pulam para o toco da ponte e desaparecem, “como duas calungas debaixo
do temporal”. Mas, exercendo a minha liberdade de leitor, ouso afirmar que o
mundo dos pescadores nunca mais será o mesmo.
Não deixa de causar certa estranheza que
todo o aparato de descrições, de referências a uma rica toponímia, de fartas
descrições de ilhas, praias, repastos, tipos humanos e tudo o mais que acentue
os caracteres ditos regionalistas do conto de Vasconcelos Maia não impeçam, ou,
ao contrário, até acentuem o deslocamento sutil que ocorre, do espaço geográfico
para o psicológico, ou diria até mesmo mitológico, na narrativa do autor. É
verdade que lá está toda uma paisagem familiar, afetiva, ao ponto de quase
podermos sentir o cheiro do peixe assado na brasa, enrolado na folha de
bananeira; o frio da brisa noturna, o medo das tempestades, o cheiro do sargaço,
o calor intenso do sol dardejante. Mas, se alguma Bahia está ali representada, é
e será, desde sempre, aquela que, tal como as cidades imaginárias de Macondo ou
de Comala, só existe, efetivamente, na sua ou na minha subjetividade. Na do
autor e do leitor. E, ao final das contas, é só esta que importa.
REFERÊNCIAS
GUERRA, Guido. Sol, terra, mar. Salvador: Edições Cidade da Bahia, 2000.
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