Convido-vos, minhas senhoras e meus senhores,
amigos, todos, se me permitis esse tratamento, para uma viagem no
tempo. O período de tempo é relativamente longo, porém a viagem, em
sintonia com esta época de velozes meios de transporte, será breve;
tomará algumas dezenas de minutos. Como num passe de mágica, ela nos
leva ao salão de sessões da Câmara dos Deputados, instalada num
amplo casarão da Ladeira da Praça, onde, naquela noite de 7 de março
de 1917, ia iniciar-se um encontro destinado a marcar a história
cultural da cidade.
A data não fora escolhida ao acaso. Coincidia, propositadamente, com
a data de fundação da Academia Brasílica dos Esquecidos, a primeira
instituição do gênero a existir no Brasil, criada, a 7 de março de
1724, na então capital da Colônia, por D.Vasco Fernandes Telles de Menezes, Conde de Sabugosa, 39° Governador
da Bahia. A coincidência reatava a tradição. Significava o elo de
uma cadeia
sucessória. E por entender isso o saudoso Austregésilo de Athayde,
presidente, por tantos anos, da Academia Brasileira, por mais de uma
vez sugeriu que inscrevêssemos no emblema de nossa entidade a
expressão: "Primeira Academia de Letras do Brasil".
Mas, voltemos ao salão da antiga Câmara dos Deputados, onde iria
começar, às 8 horas da noite, a sessão de fundação desta entidade.
A idéia de criar a Academia fora de Arlindo Fragoso. Governava a
Bahia o Dr. Antônio Moniz e a situação política do Estado era de
luta constante entre os
seabristas, correligionários do governador, e os ferrenhos
oposicionistas pertencentes quer à corrente severinista, quer a
outros grupos. É prova da extrema
habilidade de Arlindo Fragoso a adesão de tantos adversários
políticos à sua iniciativa de fundar um grêmio de cultura que os
reunisse. Simbolizando essa
espécie de trégua, ali estavam a cumprimentar-se com um respeito que
contradizia a costumeira troca de invectivas, os próprios Antônio Moniz e Severino Vieira.
A Academia nascia, desse modo, como um espaço neutro na turbulência da paixão política; como um terreno propício senão à conciliação entre contrários, ao menos como um lugar de diálogo.
Todavia, bem mais
importante que o esboço de entendimento entre políticos era a
representatividade do quadro de fundadores da Academia. Arlindo
Fragoso procedeu com extraordinário acerto na composição desse
quadro. As escolhas comprovam que ele sabia quais eram, de fato, os
homens de alto merecimento na Bahia do seu tempo. Selecionou-os
segundo um único critério: o do valor de cada qual, sem levar em
conta posição partidária, estima pessoal ou grau de fortuna. E
ninguém se insinuou para figurar entre os escolhidos.
Tanto tempo decorrido, passadas, já, essas longas oito décadas, ainda parecem vivas muitas das pessoas que Arlindo Fragoso convidou para fundarem a Academia. Essas pessoas morreram, fisicamente, mas sobrevivem nas obras e na fama. Quem, possuindo ainda que o mínimo conhecimento da vida cultural baiana, ignorará os nomes de Teodoro Sampaio, de Ernesto Carneiro Ribeiro, Pirajá da Silva, Xavier Marques, Braz do Amaral, Carlos Chiacchio, Arthur de Salles, Gonçalo Moniz? Ou de Simões Filho, Prado Valladares, Octavio Mangabeira, Oscar Freire, Virgílio de Lemos, Afrânio Peixoto, João Américo Garcez Fróes, Filinto Bastos, Moniz Sodré, Miguel Calmon, Eduardo Espínola, Pinto de Carvalho? Ou, ainda, os nomes de José Joaquim Seabra, Severino Vieira, Carlos Ribeiro, Aloysio de Carvalho (Lulu Parola), Campos França, Egas Moniz (ou seja, Pethion de Villar), Torquato Bahia, Clementino Fraga, Almachio Diniz? E, entre eles, Ruy Barbosa, primus inter pares.
Pois todos esses vultos notáveis participaram da criação desta Academia. Relendo seus nomes, envolve-nos em sentimento de admiração pela natureza da elite intelectual que a Bahia possuía naquela oportunidade; como, também, a consciência da responsabilidade que pesa sobre todos nós, os sucessores daqueles homens, no sentido de cultivarmos os altos objetivos que os reuniam.
Há dez anos, quando da passagem dos setenta anos da Academia, coube a Cláudio Veiga proferir o discurso comemorativo. Na sua primorosa oração, ele se baseou no depoimento de Carneiro Ribeiro para recordar os personagens que tomaram parte no ato de fundação. Arlindo Fragoso era descrito como homem "de baixa estatura e corpulento, feições não muito apolíneas", (que) "se transfigurava na tribuna". "O sábio Gonçalo Moniz, com seu pigarro, aparecia sorridente, envergando, em plena noite de verão, um fraque cinza, estilo britânico". "Teodoro Sampaio, sábio da engenharia, entrava com seu passo cadenciado de tropeiro de sapato de verniz".
Durante a cerimônia de fundação, presidida pelo governador, foi escolhida a primeira diretoria, sendo Ernesto Carneiro Ribeiro aclamado presidente. Arlindo Fragoso ficou como 1º Secretário.
A instalação solene aconteceu no dia 10 de abril, no mesmo salão da Câmara dos Deputados, "perante uma seleta e numerosa assistência", consoante a linguagem estereotipada da imprensa.
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Jorge Calmon. Faz-se necessário o
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